Sinônimo de sustentabilidade na moda, cânhamo vira estrela

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Valéria França

A indústria do hemp – ou cânhamo– vem crescendo no mercado global. Composta principalmente pela produção americana, canadense e dos países europeus, ela faturou US$ 4,58 bilhões em 2019. No ano anterior, US$ 3,74 bilhões, segundo New Frontier Data.

Um dos braços desta indústria é a têxtil, que vem investindo em tecnologia para aproveitar melhor a fibra– sim, porque o cânhamo é um planta do gênero Cannabis e da espécie ruderalis com fibras longas, boa para a produção de tecidos.

A Levi’s Strauss, uma das mais democráticas marcas de roupa americana, anunciou o lançamento de roupas com 30% da planta. O objetivo da empresa é chegar a uma peça que consiga substituir totalmente o algodão em no máximo cinco anos.  

O desafio da Levi’s para fazer roupas 100% de cânhamo está em chegar a um tecido com a mesma maciez do algodão, de onde sai a fibra convencional do jeans.

“O cânhamo consome um décimo da água e é mais resistente ao sol que o algodão”, diz Lorenzo Rolim da Silva, de 27 anos, que fundou em maio a Associação Latino Americana de Cânhamo Industrial. Segundo pesquisas, o hemp ainda dá maior proteção aos raios ultravioletas, que causam o câncer de pele.

Blusa sustentável da Levi’s: confeccionada com hemp

As fibras do cânhamo sem tratamento especial resultam em um tecido rústico e de alta resistência. Uma característica conhecida, que no passado, na época das grandes explorações marítimas, levou Portugal a usá-lo na fabricação das velas das embarcações que desbravaram o Novo Mundo. Isso explica porque a marca All Star tem na linha o tênis urbano do modelo Converse, de cânhamo.

Tênis da All Star de cânhamo: resistência

No Brasil, a marca fashion carioca de roupas masculinas, Reserva, importa o tecido de cânhamo da Índia. No verão de 2019, quando apresentou as primeiras peças da coleção, justificou que “o cultivo da planta é menos nociva ao solo”. A grife é conhecida pelas roupas funcionais e pelo DNA inovador. O cânhamo é uma das estrelas do momento.

Os exemplos acima são algumas entre tantas iniciativas das empresas para conseguirem produtos mais sustentáveis e, portanto, mais atraentes a um determinado grupo de consumidores modernos e exigentes.

As empresas de comunicação já perceberam isso. A agência BPCM, especializada em grandes grifes, com escritórios em Nova York, Los Angeles e Londres abriu este ano uma divisão de Cannabis. Em fevereiro, contratou Lisa Gabor, fundadora da Revista InStyle para dirigir a BPCM Cannabis. Um dos clientes da agência é a Grass & Co, marca londrina especializada no bem estar, produtora de cremes e de óleo de CBD.

Empresas que não tem nada a ver com a moda, mas com a maconha em si, também estão empenhadas em trabalhar melhor este filão.

As empresas de Cannabis

Empresas de Cannabis especializadas na produção medicinal ou de uso adulto- segundo as conversas de bastidores – estão contratando PRs (Public Relations), que trabalharam em marcas como Louis Vuitton e Prada . O que se comenta é a falta de intimidade da indústria especializada em desenvolver produtos com mais valor agregado e com imagem mais refinada. O setor não quer ficar refém de um público alternativo e de uma imagem estigmatizada. Elas também querem estar na moda.

Daí a insistências de representantes do setor compararem a Cannabis com o vinho. O ator americano Jim Belushi é um deles. Nas palestras que dá mundo afora costuma dizer “as flores da Cannabis possuem um buquê, que depende do local de origem, da terra, e das variações climáticas. Vocês ainda vão escolher uma como se estivessem degustando um vinho ou um charuto.”

A flor é a matéria-prima do mercado de uso adulto e medicinal da maconha que avança no mundo. Há um empenho da indústria em investigar como aproveitar as fibras normalmente descartadas na produção, principalmente, quando se trata da cultura de cânhamo. Afinal, porque jogar fora algo que pode reverter em mais lucro?

Além da flor do cânhamo ter baixo THC (tetrahidrocanabidiol, substância que dá o barato) e alto CBD (canabidiol, com propriedades terapêuticas), as folhas podem ser reaproveitadas em outras indústrias, que vão além da têxtil.  

Enquanto isso no Brasil

“A falta de uma regulação de cultivo de cânhamo faz com que o país perca investidores e novos negócios para outras ações”, diz o engenheiro agrônomo Lorenzo Rolim da Silva, de 27 anos, presidente da Associação Latino Americana de Cânhamo Industrial.

Ele diz isso por experiência própria. Silva tinha a ideia de desenvolver um plástico biodegradável com fibra de cânhamo. Foi para o Canadá, a meca da indústria da Cannabis, para conseguir tecnologia para ao projeto.

Feito isso, localizou no Paraguai um grupo de 10 mil famílias de pequenos agricultores, produtores de grãos especiais, como chia e linhaça, que queriam plantar cânhamo. “O Paraguai alterou a legislação no ano passado, facilitando a burocracia dos produtores licenciados de Cannabis medicinal e de cânhamo industrial. Resultado: ele está com 300 hectares de cânhamo plantados no Paraguai. “Em 45 dias, a plantação estará na época da colheita”, diz ele.

Por que o Paraguai e não a Colômbia?

“A Colômbia é um mercado muito complicado para trabalhar. No Uruguai muita gente também ficou frustrada”, diz Silva.  “No Paraguai, o approach do governo foi diferente. Houve isenção de imposto, pouca burocracia.” Ele cita alguns exemplos. “O custo da energia é baixo, o imposto para importação é pequeno…Eles incentivam para que tudo seja feito dentro do país. As licenças saem em 48 horas. Fiquei impressionado.”

Em outubro, o Paraguai publicou um decreto autorizando pequenos agricultores a plantar o cânhamo industrial. Cada família tem direito de no máximo dois hectares. O ministério calcula que 25 mil famílias poderão se beneficiar da nova política.

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