
A dor não tem partido
O avanço da cannabis medicinal acima das ideologias
Publicado em 19/07/2026Quando alguém recebe o diagnóstico de uma doença grave, vê um filho sofrer com crises de epilepsia ou convive diariamente com dores crônicas, a última pergunta que faz é sobre ideologia. Na hora da doença, não existe direita nem esquerda. Existe apenas a esperança de encontrar um tratamento que funcione.
Foi ouvindo famílias que lutam pelo acesso à cannabis medicinal, que passei a defender a regulamentação no Brasil. Não por convicção ideológica, mas por convicção humana. Quem acompanha essa pauta sabe que ela é construída por histórias de mães, pais, pacientes, médicos e pesquisadores que lutam por qualidade de vida e dignidade.
Nos últimos anos, tenho observado um amadurecimento importante desse debate. Aos poucos, a cannabis medicinal deixou de ser tratada como um tabu e passou a ocupar o lugar que sempre deveria ter ocupado: o da saúde pública. Hoje vemos mais informação disponível, mais profissionais preparados, mais pacientes organizados e mais lideranças políticas dispostas a enfrentar o tema com responsabilidade.
É por isso que apresentei o PL 5511/2023, um marco legal abrangente para regulamentar a cannabis medicinal no país. A proposta estabelece regras claras para cultivo, pesquisa, produção, fiscalização, prescrição e acesso aos medicamentos, tanto para uso humano quanto veterinário. Também cria condições para que o Brasil desenvolva conhecimento científico, fortaleça sua indústria, reduza a dependência de importações e diminua o custo dos tratamentos para as famílias.
O projeto, que já conta com relatório favorável na Comissão de Agricultura do Senado, também contempla uma demanda histórica de muitos pacientes: a possibilidade do autocultivo, mediante critérios rigorosos, prescrição médica e controle dos órgãos sanitários. Além disso, fortalece as associações de pacientes, amplia as possibilidades de pesquisa e cria um ambiente seguro para o desenvolvimento dessa política pública.
Defender essa regulamentação não significa flexibilizar o controle. Significa exatamente o contrário: criar regras claras, fiscalização eficiente e segurança para pacientes, profissionais de saúde e pesquisadores. É substituir a insegurança jurídica por responsabilidade, ciência e transparência.
São Paulo já demonstrou que pode liderar esse caminho. O estado foi pioneiro ao garantir o fornecimento gratuito de canabidiol pelo sistema público de saúde. Agora podemos dar um novo passo, ampliando as possibilidades terapêuticas e incentivando a pesquisa, a inovação e o desenvolvimento do cânhamo industrial, com potencial para fortalecer o agronegócio, gerar empregos e impulsionar novas cadeias produtivas.
Acredito nessa capacidade de transformação do estado paulista e pretendo levar essa bandeira em meus próximos passos na política. Escolhi disputar uma vaga na Assembleia Legislativa de São Paulo porque quero estar mais perto das pessoas, dos municípios e das soluções que podem melhorar a vida de quem mais precisa. Ampliar o acesso à cannabis medicinal é uma das metas.
Quero trabalhar para que São Paulo consolide sua posição de protagonista nessa área, fortalecendo políticas públicas que ampliem o acesso aos tratamentos, incentivem a pesquisa científica e façam do nosso estado uma referência nacional em inovação, saúde e desenvolvimento.
A dor não escolhe partido. A esperança também não deveria escolher. Quando a ciência aponta um caminho capaz de aliviar o sofrimento de milhares de pessoas, nossa obrigação é construir políticas públicas responsáveis para que esse tratamento chegue a quem mais precisa.
A opinião do colunista não necessariamente reflete a opinião do Sechat

Mara Gabrilli é senadora da República pelo estado de São Paulo, representante do Brasil no Comitê da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e fundadora do Instituto Mara Gabrilli.