Apresentações farmacêuticas de Cannabis spp. para animais - formas de administração, compostos e aplicações clínicas na medicina veterinária

Apresentações farmacêuticas de Cannabis spp. para animais - formas de administração, compostos e aplicações clínicas na medicina veterinária

Por Dra. Julia Rezende Souza (veterinária, mestranda) e Prof. Dra. Priscila Gava Mazzola

Publicado em 12/04/2026

Nos últimos anos, os derivados de Cannabis spp. têm despertado crescente interesse na medicina veterinária. Grande parte desse avanço está ligada à descoberta e à melhor compreensão do sistema endocanabinoide (SEC), no qual sabemos que é um sistema fisiológico presente em diversos organismos e responsável por regular funções essenciais como dor, inflamação, apetite, memória, imunidade e comportamento. A partir desse conhecimento, novas possibilidades terapêuticas passaram a ser exploradas na clínica veterinária, especialmente para cães, gatos e outras espécies animais.

O SEC é composto principalmente por receptores canabinoides (CB1 e CB2 e suas isoformas), endocanabinoides produzidos pelo próprio organismo e enzimas responsáveis por sua síntese e degradação. Nos animais domésticos, especialmente nos cães, a distribuição desses receptores apresenta características relevantes para a farmacologia da cannabis. Estudos demonstram que cães possuem densidade significativamente maior de receptores CB1 no tronco encefálico, aproximadamente duas vezes superior à observada em humanos. Esse fator explica tanto a sensibilidade neurológica dos cães aos canabinoides quanto a necessidade de protocolos de dose cuidadosamente ajustados.

Além do canabidiol (CBD), que se tornou o composto mais comum na medicina veterinária, outros fitocanabinoides vêm sendo investigados por seus efeitos terapêuticos, incluindo tetrahidrocanabinol (THC), canabigerol (CBG), canabinol (CBN) e canabicromeno (CBC). Cada um desses compostos apresenta perfis farmacológicos distintos e pode contribuir de maneira complementar no manejo de diversas condições clínicas.

Paralelamente ao avanço do conhecimento farmacológico, diferentes formas farmacêuticas foram desenvolvidas para permitir administração segura, biodisponibilidade adequada e melhor adesão ao tratamento por parte dos tutores.

Antes de abordar as formas farmacêuticas, é importante compreender brevemente os principais compostos presentes nas formulações veterinárias:

 

Fitocanabinoides relevantes na terapêutica veterinária

 

Canabidiol (CBD)

O CBD é o fitocanabinoide mais estudado e consequentemente mais utilizado na medicina veterinária. Não possui efeito psicoativo relevante e apresenta propriedades analgésicas, anti-inflamatórias, ansiolíticas, anticonvulsivantes e neuroprotetoras. Diversos estudos clínicos em cães demonstram redução significativa na frequência de crises convulsivas em epilepsia idiopática, além de melhora na mobilidade em casos de osteoartrite.

Tetrahidrocanabinol (THC)

O THC é o principal canabinoide psicoativo da planta, e tem valor terapêutico tào bom quanto o CBD mas em doses controladas e formulações adequadas, no qual pode exercer importantes efeitos terapêuticos. Entre eles analgesia central potente, ação antiemética, estímulo do apetite, relaxamento muscular, ou seja é um potente aliado em casos oncologicos como dor, náuseas e vômitos induzidos por quimioterapia.
Em protocolos veterinários, o THC costuma ser utilizado em microdosagens ou em formulações balanceadas com CBD, estratégia que reduz potenciais efeitos adversos principalmente em gatos

Canabigerol (CBG)

O CBG é frequentemente chamado de “canabinoide precursor”, pois é a molécula a partir da qual outros canabinoides (CBG-a) são sintetizados na planta. Estudos apontam propriedades neuroprotetoras, anti-inflamatórias, antibacterianas. Seu potencial em doenças inflamatórias intestinais, dermatológicas e neurológicas tem despertado interesse crescente na pesquisa veterinária.

Canabinol (CBN)

O CBN surge a partir da oxidação do THC e apresenta propriedades particularmente interessantes para o manejo de distúrbios do sono, ansiedade, dor crônica.
Sua ação sedativa leve pode ser útil em protocolos voltados para animais geriátricos ou pacientes com distúrbios comportamentais

Canabicromeno (CBC)

O CBC é um dos principais fitocanabinoides produzidos pela Cannabis spp., embora ainda receba menos atenção científica quando comparado ao canabidiol (CBD) e ao tetrahidrocanabinol (THC). Mesmo assim, evidências experimentais vêm indicando que o CBC pode desempenhar um papel relevante no potencial terapêutico global da planta, especialmente quando presente em extratos de espectro completo (full spectrum). Diferentemente do THC, o CBC não apresenta efeito psicoativo significativo, pois possui baixa afinidade pelos receptores CB1 do sistema endocanabinoide. Seu mecanismo de ação parece envolver principalmente a modulação indireta do sistema endocanabinoide e a interação com outros alvos moleculares, como os canais TRP (transient receptor potential), que participam de processos relacionados à dor, inflamação e resposta sensorial. Estudos pré-clínicos indicam que o CBC pode apresentar propriedades anti-inflamatórias, analgésicas e neuroprotetoras, além de possível atividade antimicrobiana. Também há evidências de que esse canabinoide possa contribuir para a modulação da inflamação cutânea, o que sugere potencial interesse em formulações tópicas utilizadas em dermatologia veterinária.

Outro aspecto relevante é a participação do CBC no chamado efeito entourage (ou efeito comitiva), conceito que descreve a interação sinérgica entre diferentes fitocanabinoides e terpenos presentes na planta. Nessa perspectiva, compostos como CBC, CBG e CBN podem atuar de forma complementar ao CBD e ao THC, modulando ou potencializando determinados efeitos farmacológicos.

Embora ainda existam poucas investigações clínicas específicas sobre o CBC na medicina veterinária, sua presença em extratos padronizados de cannabis reforça a importância de considerar o perfil completo de canabinoides presente nas formulações utilizadas em terapêutica animal. À medida que novas pesquisas avancem, espera-se que o CBC seja melhor caracterizado quanto à sua farmacodinâmica, segurança e possíveis aplicações clínicas em diferentes espécies.


Principais apresentações farmacêuticas

A escolha da forma farmacêutica influencia diretamente fatores como absorção, biodisponibilidade, precisão de dose e facilidade de administração. Atualmente, as formulações mais utilizadas incluem preparações orais (óleos), tópicas e, em alguns países, formas sólidas e alimentos funcionais.

Óleos orais (gotas)

Os óleos de cannabis administrados por via oral representam a forma farmacêutica mais comum na medicina veterinária. Normalmente, os extratos da planta são diluídos em veículos lipídicos como triglicerídeos de cadeia média (MCT), azeite de oliva, óleo de cânhamo. Esses veículos aumentam a solubilidade dos canabinoides e favorecem a absorção intestinal, já que se tratam de moléculas altamente lipofílicas.
Atenção: algumas medicações podem ser feitas com óleo de uva e/ou manteiga de cacau, o que traz um alerta, já que a uva está entre os alimentos tóxicos especificamente para cães e gatos. Nunca oferte medicaçoes que contenham palatabilizantes como uva, chocolate, dentre outros alimentos tóxicos para essas espécies.
Entre as principais vantagens dessa apresentação oral destacam-se facilidade de ajuste de dose, permitindo titulação gradual, administração direta na cavidade oral, gengiva ou misturada ao alimento, absorção relativamente rápida, ampla disponibilidade comercial
Na prática clínica, os óleos são frequentemente utilizados no manejo de epilepsia idiopática, dor crônica, dor concológica e osteoartrite, ansiedade e fobias, distúrbios inflamatórios, auxilio terapeutico (potencializando varios alopaticos), geriatria, disturbios gastrointestinais.
A possibilidade de titulação individualizada torna essa apresentação especialmente útil na medicina veterinária, onde as respostas terapêuticas podem variar entre espécies, raças e indivíduos.

Formulações tópicas (pomadas e géis)

As formulações tópicas, como pomadas, cremes e géis, são destinadas ao uso local e atuam principalmente por interação com receptores canabinoides presentes na pele, músculos e articulações. A pele possui um sistema endocanabinoide cutâneo, capaz de modular processos inflamatórios, cicatrização e homeostase da barreira cutânea. Entre as aplicações mais comuns estão inflamações articulares, dor musculoesquelética localizada, dermatites inflamatórias, prurido, cicatrização de lesões cutâneas. Essas formulações apresentam baixa absorção sistêmica, o que reduz o risco de efeitos adversos sistêmicos e permite uso complementar ao tratamento oral.

Snacks e petiscos

Embora no Brasil, essas apresentacoes ainda sejam escassas, no mercado internacional,, especialmente nos Estados Unidos e Canadá, tornaram-se populares os petiscos funcionais enriquecidos com canabinoides, principalmente CBD. Esses produtos foram desenvolvidos para melhorar a adesão ao tratamento, especialmente em animais que apresentam resistência à administração direta de medicamentos. Entre suas características ebenefícios estão a dosagem pré-definida por unidade, administração simples e maior aceitação por parte dos animais. Contudo, do ponto de vista farmacológico, apresentam algumas limitações como uma menor flexibilidade para ajuste de dose, variação na absorção associada à digestão do alimento e a necessidade de rigor no controle de qualidade da formulação.

Capsulas

Cápsulas contendo extratos de cannabis representam outra alternativa para administração oral e estão disponíveis em diversos países. Essa forma farmacêutica oferece vantagens importantes como dosagem precisa e padronizada, estabilidade química do extrato e facilidade de transporte e armazenamento. Entretanto, pode apresentar menor aceitação por alguns animais, exigindo administração junto ao alimento ou técnicas específicas para ingestão e não permite uma dosagem mais versátil.

 

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 Biografia do Autor Priscila Gava Mazzola
Priscila Gava Mazzola

Priscila Gava Mazzola*, é professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual de Campinas (FCF/Unicamp). Formada pela USP/SP, com doutorado em tecnologia-bioquímica farmacêutica e habilidades aprimoradas no MIT. Dra. Priscila também é especialista em medicamentos tópicos e transdérmicos, utilizando em seus trabalhos ativos naturais (inclusive resíduos) e sintéticos. Atualmente explora os poderes terapêuticos da cannabis medicinal, desenvolvendo novos medicamentos para ampliar o arsenal terapêutico nacional.