
Cannabis, poder e encenação: a ordem por trás da reclassificação
A reclassificação da cannabis nos EUA revela menos uma mudança de valores e mais uma estratégia de poder, controle e acomodação financeira ao longo do tempo político.
Publicado em 08/02/2026A recente reclassificação da cannabis para a Schedule III nos Estados Unidos não pode ser lida como um simples ajuste técnico na política de drogas. Tampouco como uma liberalização propriamente dita. Para compreender seu alcance real, é preciso olhar menos para o resultado imediato e mais para a sequência, o contexto e a forma como as decisões foram tomadas. Em política, a ordem dos movimentos importa, e quase nunca é acidental.
O primeiro gesto foi silencioso. As modificações introduzidas na Farm Bill de 2018, a lei que havia aberto caminho para uma ampla indústria de hemp e derivados, não vieram acompanhadas de um grande debate público nem de uma narrativa sanitária ou moral. Entraram de última hora, no meio de emendas orçamentárias urgentes, sob a pressão de um shutdown do governo. Um movimento técnico, quase burocrático, que, no entanto, apontava para algo bastante claro: encerrar o modelo da cannabis como commodity, esse território difuso onde prosperaram canabinoides intoxicantes, inovação acelerada e uma economia difícil de bancarizar e de controlar.
Foi então que veio o segundo ato, agora com luzes acesas. A reclassificação da cannabis foi assinada pelo próprio Trump no Salão Oval, cercado por médicos de jaleco branco. A cena não foi inocente. Não havia ativistas, nem cultivadores, nem pacientes falando de direitos. Havia ciência, autoridade e Estado. A mensagem foi direta: a cannabis deixa de ser uma anomalia tolerada e passa a integrar, formalmente, o campo da medicina legítima. Não como cultura, não como prática social, mas como substância regulada, dosada e supervisionada.
A combinação desses dois movimentos revela uma lógica coerente. Primeiro, restringe-se por baixo, quase sem ruído, o transbordamento do modelo industrial herdado da Farm Bill. Depois, ordena-se por cima, integrando a cannabis à arquitetura clássica da FDA, da DEA e do sistema de saúde. O resultado não é libertação, mas medicalização. E essa medicalização produz um efeito central: a normalização financeira. Ao reconhecer um uso médico aceito, a cannabis torna-se mais legível para bancos, seguradoras e capital institucional. O risco diminui, o compliance melhora e o dinheiro — esse ator silencioso, porém decisivo — começa a circular com mais tranquilidade.
Esse deslocamento tem custos. O uso não farmacológico passa a ocupar um espaço cada vez mais estreito; os mercados recreativos estaduais continuam existindo, mas sem proteção federal; a planta inteira e seus usos culturais ficam fora do vocabulário dominante. A cannabis torna-se governável, mas também mais homogênea. Mais organizada, porém menos plural.
Nesse contexto, li nos últimos dias uma avalanche de opiniões sobre essas mudanças, muitas delas formuladas com uma assertividade adolescente, daquelas que encontram no LinkedIn seu habitat natural: frases definitivas, conclusões fechadas e uma segurança que costuma acompanhar quem ainda não teve tempo de descobrir tudo o que ignora. Nesses temas, a certeza costuma ser inversamente proporcional à experiência. Como diz o ditado, o diabo sabe mais por velho do que por diabo; sabe mais pelo que já viu passar do que pelo que acredita saber. Convém, portanto, desconfiar dessas leituras instantâneas, pensadas mais para colher aprovação e likes do que para compreender a complexidade real de um processo político que, como quase todos, se joga ao mesmo tempo no simbólico, na letra miúda e no que ainda não aconteceu.
Nada disso, aliás, está definitivamente fechado. O fator decisivo é o tempo político. As restrições à Farm Bill só entram em vigor no fim de 2026. Até lá, abre-se um período de transição em que a indústria se adapta, os bancos entram em cena e o novo paradigma médico-financeiro começa a se consolidar. Nesse intervalo, o clima político pesa tanto quanto os textos legais. As pesquisas de intenção de voto para as legislativas de 2026 desenham um cenário aberto: leve vantagem democrata em alguns levantamentos, empates técnicos em outros e uma constante histórica difícil de ignorar — eleições de meio de mandato costumam penalizar o partido do presidente, especialmente em contextos de alta polarização.
Esse dado não é menor. Porque, se o Congresso e o Senado mudarem de perfil, ainda haverá tempo para neutralizar ou modificar as restrições introduzidas na Farm Bill antes que elas entrem em vigor, sem a necessidade de desmontar a reclassificação nem confrontar diretamente o novo marco médico já estabelecido. A política norte-americana está cheia de normas que nunca chegaram a produzir efeitos simplesmente porque o equilíbrio de poder mudou a tempo.
Em política, o tempo nunca é neutro e as coincidências costumam ser apenas uma forma discreta da estratégia. Trump não parece enxergar a cannabis como um problema moral, ainda que saiba que parte de sua base a veja assim, mas sobretudo como uma questão de ordem e negócio. As restrições introduzidas quase às escondidas podem ter servido para acalmar sensibilidades conservadoras; a encenação médica, para enviar um sinal inequívoco ao sistema financeiro. Não há contradição: há coreografia. O orçamento que será votado no fim de 2026 pode estar nas mãos de um Congresso mais permeável à cannabis do que o atual. Se isso acontecer, o endurecimento de hoje poderá revelar-se, retrospectivamente, aquilo que talvez sempre tenha sido: uma encenação transitória para abrir negócios, qualquer que seja sua forma final, sob um marco mais bancarizado, mais ordenado e perfeitamente compatível com a lógica do poder econômico contemporâneo.

Marco Algorta mora no Uruguai e está na indústria da cannabis desde o começo. Ele foi um dos promotores da Câmara das Empresas de Cannabis Medicinal, sendo eleito o primeiro presidente. Marco deu palestras nos Estados Unidos, Canadá, México, Argentina, Uruguai e Brasil, é pai de cinco filhos e magister em narrativa e redação criativa.
