Da luz ao fitocomposto: cultivo indoor e modulação ambiental como alternativa inovadora na produção de cannabis medicinal

Da luz ao fitocomposto: cultivo indoor e modulação ambiental como alternativa inovadora na produção de cannabis medicinal

Análise do cultivo indoor e da modulação ambiental, com ênfase no controle espectral da luz e em estratégias de elicitação, como alternativa inovadora para a produção de cannabis medicinal

Publicado em 14/01/2026

Introdução e histórico de uso da Cannabis sativa L.

 

A Cannabis sativa L. é uma planta conhecida e utilizada há milhares de anos, com suas fibras e sementes utilizadas para diversos fins, muito antes do surgimento dos medicamentos modernos (Górski et al., 2025). Atualmente, a Cannabis tem assumido um novo papel: o de aliada da saúde. Estudos demonstraram que essa planta é rica em fitocanabinoides, como o tetrahidrocanabinol (THC) e o canabidiol (CBD), compostos com potencial terapêutico no tratamento de epilepsia refratária, dores crônicas, ansiedade, distúrbios do sono, doença de Parkinson e esclerose múltipla (Bilbao & Spanagel, 2022; Sampaio et al., 2024).

 

Desafios do cultivo tradicional e necessidade de controle

 

Diante desse potencial terapêutico, muitos países passaram a permitir o cultivo de Cannabis medicinal, abrindo espaço para novas pesquisas, tecnologias e avanços terapêuticos. No entanto, o cultivo tradicional em campo aberto, nem sempre oferece qualidade e segurança. Fatores como clima, solo e pragas podem interferir diretamente na produção dos compostos bioativos que realmente interessam à medicina (Kappers et al., 2025).

 

Cultivo indoor e agricultura urbana

 

O cultivo em ambiente fechado (indoor) na agricultura urbana oferece vantagens como o controle climático e segurança. Nesse sistema, gestão precisa de fatores ambientais como luz, temperatura, umidade relativa do ar, ventilação e nutrientes (Kumar et al., 2024), cria condições ideais para o crescimento e a produção das plantas, promovendo altos rendimentos. Além disso, esse tipo de cultivo oferece proteção contra pragas e doenças, resultando em uma produção mais estável e consistente (Namdar et al., 2019; Summers et al., 2021). É como transformar espaços urbanos em verdadeiras “fábricas” de fitoterápicos.

 

Elicitação abiótica como estratégia complementar

 

Nesse contexto de ambiente controlado, também é possível acrescentar estratégias complementares, como a elicitação abiótica. Embora o termo possa parecer técnico, seu conceito é bem simples: trata-se da aplicação de estímulos físicos, como luzes com diferentes intensidades e cores, calor, frio ou até substâncias naturais que “avisam” a planta que ela precisa se proteger. Essa resposta, por sua vez, estimula a produção dos compostos medicinais (Thiry et al., 2024), sendo uma estratégia natural e eficiente para aumentar a qualidade da colheita.

 

Smart Farming e agricultura inteligente

 

A aplicação precisa desses estímulos pode ser otimizada por meio de uma tendência chamada Smart Farming, ou “Agricultura Inteligente”. Essa abordagem integra sensores, câmeras, automação e inteligência artificial para monitorar as plantas em tempo real e ajustar continuamente as condições ideais para o seu desenvolvimento. Com isso, a integração entre ambientes controlados, estratégias de elicitação e tecnologias digitais representa um novo paradigma no cultivo da Cannabis medicinal, tornando-o mais eficiente, padronizado e direcionado à produção de compostos bioativos de interesse medicinal.

 

Qualidade espectral da luz e respostas fisiológicas

 

No que se refere especificamente à qualidade espectral da luz, diferentes comprimentos de onda exercem efeitos distintos e complementares no cultivo da Cannabis medicinal. A luz azul está associada à regulação da fotomorfogênese, promovendo plantas mais compactas, maior densidade estomática, incremento na capacidade fotossintética e estímulo à síntese de metabólitos secundários, incluindo canabinoides e terpenos. A luz vermelha, por sua vez, atua de forma decisiva na eficiência do aparato fotossintético, no alongamento celular, na expansão foliar e na indução floral, influenciando diretamente a produtividade e o desenvolvimento das inflorescências.

A combinação equilibrada entre luz vermelha e azul favorece a integração entre crescimento vegetativo eficiente e ativação metabólica, enquanto o uso de espectros mais amplos, como a luz branca, contribui para respostas fisiológicas mais estáveis, mimetizando condições naturais e promovendo maior uniformidade entre plantas. Adicionalmente, comprimentos de onda específicos, como o UV e o vermelho distante, podem ser empregados de forma controlada como agentes de estresse moderado (elicitação abiótica), estimulando rotas biossintéticas relacionadas à defesa vegetal e ao acúmulo de compostos bioativos de interesse terapêutico (Cui et al., 2025; Zheng et al., 2025; Phillips et al., 2025).

 

Impactos tecnológicos, econômicos e regulatórios

 

Essas inovações tecnológicas não representam apenas um salto científico, ao viabilizar o controle preciso das condições de crescimento dessas plantas, mas também refletem e impulsionam a expansão do mercado global de Cannabis medicinal. De acordo com Kolkar et al. (2024), esse setor deverá movimentar mais de 73 bilhões de dólares até 2027. No Brasil, o cenário também começa a se transformar: mudanças na legislação já permitem o cultivo da planta para fins científicos, criando um ambiente favorável para pesquisadores, empreendedores e para o desenvolvimento de novos medicamentos à base de Cannabis.

 

Considerações finais

 

Diante de tantos avanços, a Cannabis sativa L. deixa de ser apenas uma planta histórica e passa a ocupar um papel de grande aliada da medicina moderna. A combinação entre tradição, ciência e tecnologia permite não apenas os tratamentos mais eficazes, mas também construir um modelo de produção mais sustentável, seguro, rastreável e inovador. No Brasil, a abertura para o cultivo científico representa uma oportunidade real de fortalecer a pesquisa nacional, impulsionar novas soluções terapêuticas e transformar vidas.

Autores

Bianca Cristina de Lima Conceição Purcino; Paula Sperotto Alberto Faria; Luciana Arantes Dantas; Fábia Barbosa da Silva; Lucas Loram Lourenço; Esther de Oliveira Sena; Kelly Christyna Gularte da Silva; Alexia Giulia Vasques Silva; Aurélio Rubio Neto; Fabiano Guimarães Silva.


Referências

BILBAO, A.; SPANAGEL, R. Medical cannabinoids: A systematic review and meta-analysis of pharmacological properties in all medical indications. BMC Medicine, v. 20, p. 259, 2022. DOI: https://doi.org/10.1186/s12916-022-02459-1.

Cui, H., Chen, D., Cai, M., Cao, K., Gao, B., Zhu, H., ... & Wang, P. (2025). Effects of photoperiod and light quality on cannabinoid content and energy use efficiency of medical cannabis. Industrial Crops and Products, 232, 121316. DOI: https://doi.org/10.1016/j.indcrop.2025.121316

GÓRSKI, K. et al. Industrial applications of Cannabis sativa (L.): Exploring its biological and nanotechnological potential. Industrial Crops and Products, 2025. DOI: https://doi.org/10.1016/j.indcrop.2025.120566.

KAPPERS, I. et al. High air temperatures reduce specialized metabolite production in medicinal cannabis plants and have cultivar-specific effects on inflorescence dry matter production. Environmental and Experimental Botany, 2025. DOI: https://doi.org/10.1016/j.envexpbot.2025.106085.

KOLKAR, K. et al. Cannabis sativa: A therapeutic medicinal plant – Global marketing updates. World Journal of Biology, Pharmacy and Health Sciences, 2024. DOI: 10.30574/wjbphs.2024.17.2.0044.

KUMAR, A. et al. Advanced horticultural techniques: Hydroponics, aquaponics, and aeroponics for optimal crop production. International Journal of Plant and Soil Science, 2024. DOI: https://doi.org/10.9734/ijpss/2024/v36i84919.

NAMDAR, D.; CHARUVI, D.; AJJAMPURA, V.; MAZUZ, M.; ION, A.; KAMARA, I.; KOLTAI, H. LED lighting affects the composition and biological activity of Cannabis sativa secondary metabolites. Industrial Crops and Products, 2019. DOI: https://doi.org/10.1016/j.indcrop.2019.02.016.

Phillips, A. L., Gill, A., McGorm, B., & Burton, R. A. (2025). LED spectra and defoliation independently shape canopy architecture and cannabinoid yield in indoor Cannabis cultivation. Industrial Crops and Products, 236, 121918. DOI: https://doi.org/10.1016/j.indcrop.2025.121918

SAMPAIO, F. S.; DE PAIVA, Y.; SAMPAIO, T.; PEREIRA, M.; COIMBRA, N. Applicability of cannabidiol and other phytocannabinoids in epilepsy, multiple sclerosis and Parkinson’s disease and their comorbidity with psychiatric disorders. Basic & Clinical Pharmacology & Toxicology, v. 134, p. 574–601, 2024. DOI: https://doi.org/10.1111/bcpt.13997.

SUMMERS, H. M.; SPROUL, E.; QUINN, J. C. The greenhouse gas emissions of indoor cannabis production in the United States. Nature Sustainability, v. 4, p. 644–650, 2021. DOI: https://doi.org/10.1038/s41893-021-00691-w.

THIRY, M. et al. Eustress and plants: A synthesis with perspectives for Cannabis sativa cultivation. Horticulturae, 2024. DOI: https://doi.org/10.3390/horticulturae10020127.

Zheng, Q., He, X., Ouyang, W. et al. Combination of red and UV-A light enhances hemp (Cannabis sativa L.) inflorescence yield and cannabinoid content. Scientific Reports, v. 15, 44735, 2025. DOI: https://doi.org/10.1038/s41598-025-28292-z.


 

 

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