
Do industrial ao personalizado: o papel das farmácias de manipulação na medicina canabinoide
A presença da Cannabis medicinal na Consulfarma 2026 é mais do que uma simples novidade de programação. Na minha visão, é um sinal de algo importante acontecendo neste mercado que finalmente começa a atingir a maturidade
Publicado em 01/07/2026Para quem vem do mundo da Cannabis, talvez seja preciso traduzir o tamanho disso. A Consulfarma é onde o setor magistral brasileiro se reúne: são inúmeros stands de farmácias de manipulação, distribuidores, formuladores, fornecedores e lideranças do setor. Estamos falando o maior congresso magistral do mundo, e por isso, é o termômetro do que o mercado mais leva a sério. E quando esse público abre espaço de palco para os canabinoides, o recado é claro: deixamos de ser uma “excentricidade regulatória” e viramos uma oportunidade na fronteira farmacêutica.
Em 2026, o Congresso Consulfarma acontece no Distrito Anhembi, em São Paulo, com uma programação que reúne feira de negócios, cursos, expositores e palestrantes voltados à saúde individualizada, como mostra o site do evento. E, pela primeira vez com esse peso, a Cannabis magistral entra no centro da conversa.
Como parte da grade do evento, participarei do Simpósio “Da regulamentação à prática clínica: o futuro da Cannabis na farmácia de manipulação”, ao lado de nomes relevantes do setor. A própria existência de um simpósio dedicado ao tema, dentro do maior evento magistral do país, já diz muito: estamos falando de uma nova fronteira comercial comercial para as farmácias de manipulação e talvez o local mais propício para realizar a tão sonhada personalização na prática da medicina canabinoide.
A tese que vou levar é simples: o Brasil já tem quase tudo que precisa para operar a Cannabis magistral. Só falta fazer acontecer. Explicando o raciocínio.
Esse movimento acontece no momento certo. A publicação da RDC 1.015/2026 pela Anvisa atualizou o marco regulatório dos produtos de Cannabis no Brasil, substituindo a RDC 327/2019 e ampliando o escopo das formas de administração, incluindo uso dermatológico, sublingual, bucal e inalatório. A própria Anvisa reconheceu que a possibilidade de manipulação por farmácias magistrais foi admitida, embora ainda dependa de uma norma específica futura para tratar do tema de forma operacional.
Em termos regulatórios, é uma permissão que existe no princípio e ainda não pode ser totalmente exercida na prática. Mas já não está mais proibida, e isso é um grande avanço.
O ponto importante é que essa norma que falta não vai “partir do zero” e já temos todos os elementos para vislumbrar o que vem pela frente. É um prato cheio para os pioneiros que quiserem largar na frente e se destacar. O Brasil acumulou anos de experiência técnica com produtos finais de Cannabis autorizados. Já sabemos quais concentrações fazem sentido, quais veículos funcionam, quais formas farmacêuticas e vias de administração são aceitáveis, quais requisitos mínimos exigir de um insumo ativo. Qualquer coisa fora disso é inaceitável do ponto de vista regulatório, e vai dar vazão a uma nova enxurrada de judicializações.
Estou convicto que a ANVISA quer evitar este cenário. Já vimos esse filme em outras fases da Cannabis medicinal no Brasil. O setor magistral não está pedindo privilégio, está pedindo coerência regulatória. Está pedindo equanimidade com a farmácia “normal", a drogaria, e esse direito já tem jurisprudência. Eu, se fosse dono de farmácia, iria em frente. Mas é uma questão mais de postura ousada em relação à carreira e vida profissional, do que uma segurança inquestionável. Os pioneiros sempre vão querer sair na frente.
Vale lembrar que a farmácia magistral já sabe atuar nesse cenário e manipular produtos controlados já está no seu “métier” cotidiano. A farmácia de manipulação brasileira já é uma das estruturas mais sofisticadas do mundo quando o assunto é individualização terapêutica. Ela domina formulações personalizadas, ajuste de dose, adaptação de veículos, atendimento a necessidades específicas de pacientes e integração com prescritores. Em Cannabis medicinal, a personalização não é um mero detalhe, mas sim o centro da questão.
Hoje o paciente se adapta ao produto que existe na prateleira. A lógica magistral inverte a equação: é a formulação que se molda ao paciente, dentro de parâmetros técnicos e sanitários bem definidos.
Do ponto de vista de mercado, a oportunidade também é evidente. A Cannabis medicinal já se consolidou como uma demanda real no Brasil, com crescimento de prescrições, ampliação da base médica e maior familiaridade dos pacientes. Perto de 900 mil pacientes já utilizam Cannabis medicinal no país e que o mercado pode alcançar R$ 1 bilhão em 2026; hoje, parte relevante desse acesso já passa pelo canal farmacêutico.
A oportunidade de mercado acompanha. A Cannabis medicinal já é demanda consolidada no Brasil — prescrições crescendo, base médica ampliando, paciente mais familiarizado. Na BrasCann, trabalhamos com a estimativa de perto de 900 mil pacientes em uso no país e um mercado caminhando para R$ 1 bilhão em 2026. Para as farmácias, o CBD isolado desponta como o primeiro grande ativo dessa nova fase: um insumo farmacêutico versátil, de dose precisa, alto valor agregado e possibilidade de combinações racionais com outros ativos. Claro que esse ativo precisa de pureza comprovada, laudo por lote, rastreabilidade, documentação de importação e fornecedor qualificado. Esses são os pilares mínimos para que a Cannabis magistral cresça com segurança e credibilidade.
É esse o posicionamento que a empresa que eu aposto tem levado ao mercado: o fornecimento de CBD isolado para farmácias magistrais deve vir acompanhado de suporte técnico, orientação em formulação, capacitação da equipe, apoio científico para prescritores e materiais de comunicação em conformidade regulatória. A entrada nesse mercado não pode ser improvisada. Precisa ser feita com ciência, regulação e responsabilidade. Mais informações para farmácias interessadas estão disponíveis na landing page da BrasCann para CBD magistral.
A Consulfarma, nesse contexto, funciona como termômetro. E o termômetro está claro: o mercado magistral aceita muito bem os canabinoides. Mais do que aceitar, ele começa a enxergar neles uma grande oportunidade de diferenciação, crescimento e ampliação de acesso. A Cannabis magistral não substitui o produto industrializado nem dispensa a pesquisa clínica. Ela adiciona ao sistema uma camada que o Brasil já domina como poucos: a personalização farmacêutica. E talvez seja uma das respostas mais inteligentes que temos para o problema real do acesso.
A Consulfarma já mostrou que o mercado entendeu. Agora falta a norma alcançar o que a farmácia já começou a realizar na prática.
A opinião do colunista não necessariamente reflete a opinião do Sechat.

PhD em Farmacologia, cofundador da BrasCann e há mais de 20 anos atua na fronteira entre ciência, saúde e tecnologia no meracdo de Cannabis medicinal