
Formados, mas despreparados: por que os profissionais da saúde ainda não aprendem sobre cannabis
Apesar dos avanços na ciência da cannabis medicinal, a formação acadêmica de profissionais da saúde ainda ignora o sistema endocanabinoide, comprometendo a prática clínica
Nos últimos anos, acompanhei de perto o avanço da cannabis medicinal no Brasil e no mundo. A ciência caminha a passos largos, a legislação evolui em diversos países, e o número de pacientes que recorrem a tratamentos à base de canabinoides só cresce.
Mas, mesmo diante dessa realidade, ainda me impressiona ver que a maioria dos profissionais da saúde sai da universidade completamente despreparada para lidar com o tema.
Médicos, dentistas, farmacêuticos, veterinários e enfermeiros chegam ao mercado de trabalho sem formação sobre o sistema endocanabinoide, sem noções básicas sobre os fitocanabinoides e, muitas vezes, sem sequer terem ouvido o termo "cannabis medicinal" durante a graduação.
Essa ausência de conteúdo compromete diretamente a prática clínica — e tenho visto isso com frequência no consultório e nas salas de aula.
Diversos estudos internacionais escancaram esse apagão. Um artigo publicado na Drugs and Alcohol Dependence mostrou que 85% dos médicos não receberam nenhum tipo de ensino formal sobre cannabis durante a graduação ou residência.
Apenas 10% se sentem preparados para prescrever ou orientar pacientes. Nos Estados Unidos, apenas 9% das escolas médicas incluem o tema em seus currículos. Em residências de medicina de família, que costumam ser mais generalistas, menos de 15% oferecem algum tipo de experiência clínica com cannabis.
E não são apenas os médicos. No Canadá, 65% dos farmacêuticos entrevistados disseram não ter tido contato com o tema durante a formação acadêmica. Aqui no Brasil, a situação não é muito diferente. Ainda são raríssimos os cursos de medicina, odontologia ou farmácia que incluam uma disciplina — ou ao menos uma aula — sobre o sistema endocanabinoide. Apesar de algumas iniciativas promissoras em cursos de pós-graduação, a formação de base continua ignorando um tema cada vez mais presente na prática assistencial.
Essa lacuna, como era de se esperar, impacta diretamente o cuidado com o paciente. Quando aplicamos testes de conhecimento básico sobre cannabis medicinal, os resultados são alarmantes: profissionais da saúde acertam, em média, menos de 60% das questões.
Mais da metade admite nunca ter buscado referências científicas sobre o tema. Muitos acabam recorrendo a relatos de pacientes, redes sociais ou conteúdos de baixa qualidade. Com isso, vemos um número crescente de pessoas utilizando cannabis por conta própria, sem qualquer orientação técnica — e médicos prescrevendo errado, inseguros para prescrever ou acompanhar adequadamente.
A ciência avança, mas a formação profissional fica para trás. Isso compromete a segurança do paciente e limita o potencial terapêutico da cannabis. E não se trata de falta de interesse. Pelo contrário: pesquisas mostram que mais de 40% dos médicos demonstram vontade de aprender mais. O que falta é acesso a conteúdo de qualidade e, sobretudo, a integração do tema nas grades curriculares das universidades.
Foi justamente pensando nisso que, há alguns anos, decidi estruturar a Cannabis Academy. Um curso voltado para médicos e profissionais da saúde, com foco prático e embasamento científico. Desde então, mais de 450 médicos já passaram por nossas turmas, aprendendo a prescrever com responsabilidade, a ajustar doses com segurança, a interpretar literatura científica e, principalmente, a oferecer aos pacientes um cuidado mais humano e eficaz.
Acredito que experiências como essa, e o Congresso Brasileiro de Cannabis Medicinal, mostram que é possível — e urgente — transformar a forma como formamos nossos profissionais. Mas não podemos depender apenas de cursos livres ou pós-graduações. É hora de trazer esse conhecimento para dentro das universidades, públicas e privadas, de maneira estruturada e definitiva.
O futuro da medicina é personalizado, baseado em evidências e centrado no paciente. A cannabis já é parte dessa realidade. Ignorá-la, neste momento, é virar as costas para a ciência, para a prática clínica e, sobretudo, para as necessidades reais de quem mais importa: os pacientes.
Stricto sensu (Mestrado e Doutorado)
UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina
• Está com pré-seleção aberta para mestrado/doutorado em pesquisa sobre exercício físico, sistema endocanabinoide e fitocanabinoides, coordenado pelo Prof. Aderbal Aguiar no Laboratório de Biologia do Exercício Físico
• O Programa de Pós Graduação em Neurociências da UFSC oferece a disciplina “Neurofarmacologia do sistema endocanabinoide – da bancada ao leito”, dentro de sua grade
Outras universidades com pesquisas robustas em cannabis/S.E.C.
Um levantamento das redes de pesquisa em Currículos Lattes mostrou que USP, UFPB, Fiocruz e UFRGS se destacam na produção científica relacionada à cannabis no Brasil
Lato sensu (Especialização e Extensão)
SBEC (Sociedade Brasileira de Estudos da Cannabis)
• Oferece a primeira pós-graduação em Cannabis Sativa do Brasil, reconhecida pelo MEC, com módulo específico sobre Sistema Endocanabinoide. Voltada para cultivadores de maconha.
CONAES Brasil
• Disponibiliza a Pós-graduação em Medicina Endocanabinoide, reconhecida pelo MEC, que aborda de forma prática e atual o SEC e sua prescrição clínica
Uninassau
• Curso de Especialização (EAD) em Medicina Endocanabinoide, incluindo o estudo do sistema endocanabinoide
Novoeste
• Pós-graduação online voltada a farmacêuticos em cannabis medicinal, também focada no SEC
UFG – Universidade Federal de Goiás
• Curso de extensão “Terapêutica Endocanabinoide: Fundamentos e Prática Clínica Integrativa e Multiprofissional”, com 90h de duração
SL Mandic
• Oferece uma capacitação em Odontologia Canabinoide (60h) reconhecida pelo MEC, incluindo módulos sobre o SEC
Cannabis Academy
• Reconhecido como o melhor curso de formação prática em cannabis medicinal no Brasil. Já formou mais de 450 médicos em todo o território nacional.
• O curso é centrado na prescrição segura, eficaz e personalizada, com foco em:
o Sistema Endocanabinoide (SEC)
o Titulação prática de CBD, THC e outros canabinoides
o Estudos clínicos e real world evidence (RWE)
o Protocolos integrativos para dor crônica, distúrbios neurológicos, psiquiátricos e oncológicos
• Oferece acompanhamento clínico de casos reais, simulações, material didático exclusivo e suporte pós-formação.
• É altamente recomendado para médicos, dentistas e profissionais da saúde que buscam atuação clínica imediata e de excelência.

Médico, Presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Farmacêutica (SBMF) e Fundador da Cannabis Academy CRM: 53720-SP Graduado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto – USP, com titulação de MBA e GFMD (Global Fellow in Medicine Development pelo Kings College, London UK, e IFAPP), Presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Farmacêutica (SBMF), Fundador da Cannabis Academy, e atuou como Chief Medical Officer do Butantan e como Diretor Médico Global da Canopy Growth, entre outros cargos. Dedica sua carreira ao atendimento de pacientes, ensino médico, publicações científicas e ao desenvolvimento de novas moléculas em áreas como a cannabis medicinal.
