
Interações medicamentosas com canabidiol: o que profissionais de saúde precisam saber
Interações medicamentosas com canabidiol (CBD). Foto - Canva Pro
Publicado em 22/03/2026
Por Prof. Dra. Priscila Gava Mazzola e Farm. Thairiny Raiany Borges Toti (mestranda) Faculdade de Ciências Farmacêuticas da UNICAMP
O uso terapêutico de derivados da Cannabis sativa é uma realidade no cuidado com a saúde na atualidade. À medida que o canabidiol (CBD) é incorporado a protocolos para epilepsia refratária, dor crônica, ansiedade e outras condições clínicas, cresce também a preocupação com possíveis interações medicamentosas, especialmente em pacientes que utilizam múltiplos fármacos.
Embora o CBD apresente um perfil de segurança relativamente favorável, ele apresenta potencial para interagir com sistemas enzimáticos hepáticos, o que pode alterar a farmacocinética ou a farmacodinâmica de diversos medicamentos.
No fígado, existe um conjunto de enzimas responsável por transformar fármacos para que possam ser eliminados pelo corpo. O canabidiol é metabolizado por esse sistema e pode inibir a atividade de algumas dessas enzimas (1, 2).
Quando isso acontece, certos medicamentos podem permanecer mais tempo no organismo ou atingir concentrações maiores no sangue. Em outras situações, o efeito pode ocorrer no sentido inverso: certos medicamentos podem alterar a forma como o próprio canabidiol é metabolizado.
Esse fenômeno ajuda a explicar por que o uso concomitante de CBD com alguns fármacos exige acompanhamento médico ou farmacêutico, especialmente em tratamentos que utilizam doses altas ou medicamentos com margem terapêutica estreita.
Diversos medicamentos podem apresentar interação significativa com o canabidiol. Entre os mais relevantes estão:
Antiepilépticos
O CBD é frequentemente utilizado em epilepsias refratárias, mas pode alterar os níveis plasmáticos de alguns anticonvulsivantes. Estudos demonstraram aumento das concentrações de clobazam e de seu metabólito ativo, o que pode levar à sedação excessiva e necessidade de ajuste posológico (3).
Anticoagulantes
Interações com anticoagulantes orais são particularmente preocupantes. Há relatos de aumento significativo do INR em pacientes usando varfarina concomitantemente ao CBD, sugerindo inibição metabólica e maior risco de sangramento (4).
Depressores do sistema nervoso central (SNC)
O uso concomitante de cannabis medicinal com benzodiazepínicos, opioides ou outros depressores do SNC pode intensificar efeitos farmacodinâmicos, como sedação, comprometimento cognitivo e risco de depressão respiratória (5).
Outros mecanismos de interação
Além das interações relacionadas ao metabolismo no fígado, o canabidiol também pode interferir em outros processos do organismo que influenciam a ação dos medicamentos. Por exemplo, ele pode afetar proteínas responsáveis pelo transporte de substâncias nas células, o que pode alterar a absorção e a distribuição de alguns fármacos no corpo.
Também podem ocorrer interações relacionadas ao próprio efeito das substâncias, especialmente quando o CBD é utilizado em conjunto com medicamentos que atuam no sistema nervoso central, como antidepressivos, antipsicóticos e ansiolíticos (6).
Por envolver múltiplos mecanismos, a previsão dessas interações nem sempre é simples. Fatores como dose utilizada, forma de administração e características individuais de cada paciente podem influenciar os efeitos observados.
Implicações para a prática clínica
Com o aumento da prescrição de produtos à base de cannabis medicinal, torna-se fundamental que profissionais de saúde considerem o potencial de interações medicamentosas. Algumas recomendações incluem:
- Avaliar histórico completo de medicamentos antes de iniciar CBD.
- Monitorar fármacos com janela terapêutica estreita, como anticoagulantes e imunossupressores.
- Considerar ajuste de dose ou monitoramento plasmático quando necessário.
- Acompanhar possíveis sinais de toxicidade ou perda de eficácia terapêutica.
Embora muitos dados ainda derivem de estudos in vitro ou relatos clínicos, a evidência atual indica que o canabidiol pode modificar significativamente a farmacocinética de diversos medicamentos, especialmente aqueles metabolizados por enzimas do citocromo P450 (CYP), como CYP2C19 e CYP3A4 (7, 8).
Classe de medicamento | Exemplos | O que pode acontecer
Anticonvulsivantes
Clobazam, valproato, topiramato
O CBD pode aumentar os níveis de alguns anticonvulsivantes no sangue, aumentando o risco de sedação (ex.: clobazam), elevar enzimas hepáticas (ex.: valproato), ou outros efeitos adversos.
Antipsicóticos
Quetiapina, risperidona, olanzapina
O CBD pode alterar o metabolismo desses medicamentos, aumentando suas concentrações no sangue e o risco de efeitos adversos, como sedação ou alterações cognitivas.
Anticoagulantes
Varfarina
Pode ocorrer aumento do efeito anticoagulante, elevando o risco de sangramento e exigindo monitoramento do INR.
Benzodiazepínicos e sedativos
Diazepam, clonazepam, alprazolam
Pode haver intensificação da sedação e sonolência quando usados junto com CBD.
Antidepressivos
Sertralina, fluoxetina, amitriptilina, escitalopram
Alterações no metabolismo podem modificar os níveis do medicamento e seus efeitos.
Imunossupressores
Tacrolimo, ciclosporina
O CBD pode aumentar as concentrações plasmáticas desses medicamentos, exigindo acompanhamento clínico e possível ajuste de dose.
IMPORTANTE: Principais interações medicamentosas associadas ao uso de canabidiol (CBD). Os efeitos descritos refletem mecanismos farmacocinéticos e farmacodinâmicos conhecidos ou sugeridos, não se limitando à inibição de enzimas do citocromo P450, e não ocorrem necessariamente em todos os pacientes. A magnitude das interações pode variar conforme dose, via de administração e características individuais.
Referências
- Doohan PT, Oldfield LD, Arnold JC, Anderson LL. Cannabinoid interactions with cytochrome P450 drug metabolism: a full-spectrum characterization. AAPS Journal. 2021.
- Zendulka O, Dovrtěl J, Nosková K, et al. Cannabinoids and cytochrome P450 interactions. Current Drug Metabolism. 2016.
- Gaston TE, Bebin EM, Cutter GR, Liu Y, Szaflarski JP. Interactions between cannabidiol and commonly used antiepileptic drugs. Epilepsia. 2017.
- Damkier P, Lassen D, Christensen MMH, et al. Interaction between warfarin and cannabidiol: a case report. Epilepsy & Behavior Case Reports. 2017;7:10–11.
- Gurley BJ, Murphy TP, Gul W, et al. Content versus label claims in cannabidiol (CBD)-containing products. Journal of Dietary Supplements. 2020.
- Anderson LL, Arnold JC, McGregor JC, et al. A potencial Drug-Gene-Drug interaction between Cannabidiol CYPP2D6*4, and Fluoxetine: A case report. Journal of Clinical Psychopharmacology. 2022.
- Graham M, Martin JH, Lucas CJ, et al. Cannabidiol drug interaction considerations for prescribers and pharmacists. Expert Review of Clinical Pharmacology. 2022.
- Souza JDR, Pacheco JC, Rossi GN, et al. Adverse Effects of Oral Cannabidiol: An Updated Systematic Review of Randomized Controlled Trials (2020–2022). Pharmaceutics. 2022.
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Priscila Gava Mazzola*, é professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade Estadual de Campinas (FCF/Unicamp). Formada pela USP/SP, com doutorado em tecnologia-bioquímica farmacêutica e habilidades aprimoradas no MIT. Dra. Priscila também é especialista em medicamentos tópicos e transdérmicos, utilizando em seus trabalhos ativos naturais (inclusive resíduos) e sintéticos. Atualmente explora os poderes terapêuticos da cannabis medicinal, desenvolvendo novos medicamentos para ampliar o arsenal terapêutico nacional.
