Dia da Mulher: símbolos de luta, mulheres à frente de associações prol Cannabis contam suas histórias

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Por Caroline Apple e Izabela Canário*

Para comemorar o Dia Internacional da Mulher, o Sechat preparou uma série de matérias especiais para contar um pouco da trajetória das mulheres que estão ajudando a revolucionar a história da Cannabis no Brasil.

A presença da mulher no setor canábico, seja como ativista, médica, pesquisadora, advogada ou empresária, ainda não tem métricas no país, porém a indústria da Cannabis norte-americana concentra a maior porcentagem de mulheres executivas em comparação a outras indústrias, de acordo com a comunidade digital Cannabis Feminist.

Portanto, é notória a participação ativa da mulher no ramo da maconha em diversas partes do mundo.

Para começar, vamos trazer as histórias de quatro mulheres que estão à frente de associações de pacientes que fazem uso da Cannabis Medicinal e de cultivo da planta para contar quando estreitaram suas relações com a maconha e como isso transformou a vida delas.

Sheila Geriz – Presidenta da Liga Canábica

Foto: Arquivo Pessoal

“Entrei nesse universo a partir da experiência com meu filho que, em razão de uma negligência médica, desenvolveu uma epilepsia grave, a Síndrome de West, manifestada aos três meses de idade. Aos quatro anos de idade, meu filho tomava 16 comprimidos anticonvulsivantes ao dia, tendo uma média de trinta convulsões epilépticas ao dia.

Iniciamos o uso do óleo de cannabis e hoje, após seis anos, meu filho não toma nenhum anticonvulsivante, apenas o óleo de cannabis. Passou de uma vida vegetativa a uma criança que anda, brinca e se relaciona.

Hoje sou presidente da Liga Canábica, uma associação sem fins lucrativos, que reúne pacientes, artistas, professores, profissionais liberais, estudantes e demais pessoas, das mais diversas áreas de atuação, em favor do uso terapêutico da Cannabis.

Acho muito positivo e simbólico o papel da mulher nesse setor. Nesta sociedade fundada na cultura machista, à mulher ainda é frequentemente atribuído o ‘cuidar’, e a Cannabis entra nessa configuração como instrumento de cuidado. Porém, também de emancipa e autovaloriza este feminino, que passa a se reconhecer capaz de promover mudanças sociais importantes.

Apesar da forte presença feminina no ambiente canábico, ainda percebo em muitos espaços uma postura de apropriação do conhecimento acumulado pelas mulheres, sobretudo por mães e cuidadoras dos pacientes usuários de Cannabis, seguida da desvalorização do papel dessas mulheres nas tomadas de decisões, sobretudo quanto às proposições regulatórias e de políticas públicas.

Me lembro de uma situação em que experimentei num ambiente majoritariamente masculino em que me diziam: ‘Mãezinha, pode deixar que resolveremos isso para a senhora’. Ora, não queremos que decidam ou façam por nós, queremos decidir e fazer junto.”

Margareth Brito – Coordenadora da Apepi (Associação de Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal)

Foto: Arquivo Pessoal


“Em seminários e eventos de maconha medicinal pelo mundo, é comum ver, cada vez mais, mulheres ocupando espaços de liderança políticas importantes e realizando mudanças significativas de paradigmas na sociedade.

Enquanto mulher no campo do ativismo da maconha medicinal demorei muito para me dar conta que estava realizando atos políticos importantes e mais que simbólicos com a minha presença nesses espaços.

Meus dois primeiros anos de atuação dentro da militância da Cannabis foram marcados por uma repressão machista camuflada de subjugação de várias de minhas capacidades e ainda hoje vejo isso com outras mulheres.

Não foi fácil, muitas vezes, silenciar a subserviência de mães de crianças especiais, fragilizadas e suscetíveis pela sua própria condição de vida, expostas a mãos masculinas que depois lhes exigem gratidão.

É interessante notar que o movimento medicinal chegou no Brasil em 2014 através das histórias de crianças que precisavam obter remédios à base de maconha, contexto no qual eu me insiro.

Esse movimento, de busca pelo acesso, é composto majoritariamente por mulheres, porque somos, na maioria absoluta do tempo, as cuidadoras na maioria dos grupos virtuais de crianças com epilepsia e autismo da associação que eu coordeno, a Apepi, onde mais de 95% são mães.

O discurso ideológico sobre o tipo de legalização que o movimento machista prega não tem qualquer espaço de acolhimento para entender necessidades de mulheres. Quando uma mãe grita socorro pelo acesso a um remédio para cessar as convulsões do filho, o machista a manda ir plantar maconha. Como se fosse a coisa mais simples do mundo.

É claro que qualquer movimento social é o reflexo da sociedade que vivemos. O que eu quero relatar aqui é a forma como vivenciei, dentro do meu protagonismo político e social, antes e depois de ter uma visão feminista.

É claro que toda generalização é burra e por isso é importante destacar que assim como existem homens menos machistas, existem mulheres machistas, seja no ambiente doméstico ou político e consequentemente existem homens e mulheres importantes na construção de tudo que temos até aqui.

O meu desejo é aumentar esse olhar feminista dentro do ativismo canábico, para eu não ser uma voz isolada e ser chamada de maluca ou radical.”

Cidinha Carvalho – Presidente da Cultive (Associação de Cannabis e Saúde)

Foto: Arquivo Pessoal


“Nunca imaginei que um dia plantaria maconha no meu quintal. Entrei nesta luta pela dor, em julho de 2013, na busca por algo que pudesse tirar a minha filha do risco de morte por causa da Síndrome de Dravet. Essa planta transformou a vida de minha filha, trouxe a qualidade de vida que nunca havia tido antes.

Eu não me conformava como poderia ser proibido uma planta que fazia algo que nenhum alopático fez a minha filha. Eu me sinto na obrigação de disseminar o que aprendi e mostrar que é possível cultivar e fazermos o óleo sem depender de um sistema que privilegia somente a indústria e ignora os menos favorecidos.

As mulheres já são empoderadas e se o mercado canábico ou outro está se abrindo para nós é porque lutamos por isso. Precisamos ocupar cada vez mais esse espaço como qualquer outro. Nós mulheres nos unimos formando uma rede de cultivo e doando medicamento para quem necessita e não tem acesso.

Claro que aprendemos muito com os cultivadores e somos gratas a eles. Esse conhecimento adquirido botamos em prática na luta por conscientização sobre a autossustentabilidade e por uma regulamentação que seja justa para todos.

A mulher tem se destacado quando o assunto é Cannabis porque estamos exercendo um papel fundamental na luta por uma regulamentação. Como mães, nos impulsionamos pela dor e pelo amor, levando a informação para os médicos, para todos os tipos de profissionais. Falamos sem pudor. A Cannabis, antes de ser um negócio lucrativos, é vida que todos devem ter o direito de acesso.

Sofremos preconceito e ataques machistas no mundo inteiro, inclusive no universo da canábico. Quem dá o remédio são as flores fêmeas e não os machos. A figura feminina já está no mundo canábico naturalmente, na própria planta. Tenho todo respeito pelos cultivadores que estão na luta e na sua maioria são homens, mas as mulheres estão tendo um papel muito forte nesta luta. Sou ativista e tenho amor por esta causa.”

Juliana Paolinelli – Co-fundadora da AMA+ME (Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal)

Foto: Arquivo Pessoal


“Entrei na luta e ativismo pela democratização do acesso ao tratamento canábico por causa da minha própria dor. Permaneci por perceber quanta gente poderia ajudar a encontrar alívio pra diversos tipos de condições, físicas e psicológicas. Então, em dezembro de 2014 foi fundada a Associação Brasileira de Pacientes de Cannabis Medicinal – AMA+ME.

Acredito na imensa força e na capacidade das mulheres para nortear o trabalho com a Cannabis, atuando tanto no meio político de ativismo e mobilização social, quanto no atendimento direto aos pacientes que necessitam da erva para conseguirem uma existência sustentável e funcional, com qualidade de vida. Tudo passa por extrema sensibilidade e habilidade em conduzir situações junto a pessoas em estado de vulnerabilidade e sofrimento biopsicossocial.

O machismo é estrutural na sociedade em que vivemos, fato. Entre nossos pares, no trabalho diário no meio canábico, muitos homens se acham os detentores do conhecimento e poder. Mas essa postura masculina de mandachuva tem mudado aos poucos, graças a conduta das mulheres de enfrentamento desse típico comportamento masculino.

Não tenho dúvidas que as mulheres vão se destacar cada vez mais, não só no meio canábico, mas em qualquer outro meio que atuem. A força feminina é imensurável.”

*estagiária com supervisão

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