Grau de maturidade do mercado de Cannabis Medicinal no Brasil: a expansão e as novas oportunidades terapêuticas

Mercado de cannabis medicinal no Brasil avança em maturidade, amplia indicações terapêuticas e consolida novas فرص de crescimento no varejo farmacêutico.

Este artigo é uma contribuição de Kali Nardino, colaborador convidado. O conteúdo reflete a análise do auto e não, necessariamente, o posicionamento da Sechat. 


O mercado brasileiro de Cannabis Medicinal alcança um dos momentos mais relevantes de sua história. O que há pouco tempo era visto apenas como um nicho restrito, concentrado principalmente em produtos à base de CBD isolado, hoje já se consolida como uma categoria estratégica dentro do varejo farmacêutico, ampliando indicações, incorporando novas tecnologias e atraindo cada vez mais prescritores e pacientes. Os dados mais recentes demonstram que a Cannabis deixou de ser uma promessa para se tornar uma realidade econômica e terapêutica no país.

Embora os produtos à base de Cannabis Medicinal tenham apresentado crescimento de 14,5%, um desempenho superior ao observado em categorias como anticonvulsivantes (+7,8%), analgésicos opioides para dor (+7,7%) e acima de outras importantes áreas terapêuticas, o seu potencial vai muito além da comparação direta entre as taxas de crescimento. Isso porque os produtos de Cannabis possuem aplicações clínicas em diversas condições presentes justamente nesses mercados, incluindo epilepsia, dor crônica, ansiedade, distúrbios do sono e alguns sintomas relacionados à saúde mental.

Não se trata de substituir integralmente os tratamentos convencionais por prescrições de CBD, mas de conquistar espaço como terapia complementar ou adjuvante em uma parcela desses pacientes. Dessa forma, o potencial de expansão da categoria está diretamente relacionado à ampliação de sua participação dentro dessas indicações terapêuticas, à medida que crescem as evidências científicas, a experiência dos prescritores e o acesso aos tratamentos.

Entre essas áreas, uma que merece destaque especial é o mercado de produtos para o combate da dor. Além dos produtos à base de Cannabis, observa-se o avanço de terapias que atuam de forma complementar sobre o Sistema Endocanabinoide (SEC). É o caso de suplementos alimentares como a Palmitoiletanolamida (PEA), uma molécula endógena que participa da modulação inflamatória e da regulação da dor por mecanismos indiretos relacionados à homeostase do SEC. Embora seja um endocanabinoide, a produção é pequena e sob demanda, portanto, há necessidade de suplementação com PEA, integrando um grupo de soluções que vêm ampliando o arsenal terapêutico dos profissionais de saúde, podendo atuar de forma complementar às terapias canabinoides em diferentes protocolos clínicos.

Quando analisamos a evolução global do setor, considerando todos os canais monitorados (farmácias, hospitais e outros), os números são ainda mais expressivos. As moléculas derivadas de canabinoides apresentam um crescimento anual composto (CAGR) de 42,2% em valor, com avanço de 20,3% no último período analisado, e consolidando uma trajetória contínua de expansão.

Outro aspecto que evidencia a maturidade do segmento é a transformação do portfólio disponível no varejo. Há pouquíssimos anos, o mercado era amplamente dominado por produtos de CBD isolado. Atualmente, embora essa categoria ainda represente a fatia majoritária de 61,9% do faturamento nas farmácias e drogarias, os extratos de cannabis já respondem por 38,1% do mercado, ganhando espaço de forma consistente.

Mais importante do que a participação atual é o dinamismo desses produtos na expansão da categoria: os extratos apresentaram crescimento de 20,5%, significativamente acima dos 11,1% observados para os produtos isolados. Na prática, os extratos tornaram-se o principal motor de crescimento do mercado, tendo injetado R$ 17,7 milhões em valor incremental no último ano, superando a contribuição de R$ 16,9 milhões dos isolados, mesmo possuindo uma participação relativa menor nas vendas.

Essa mudança reflete uma evolução rápida do conhecimento científico e da prática clínica. Cada vez mais médicos buscam abordagens individualizadas, considerando os diferentes perfis de canabinoides, terpenos e compostos bioativos presentes nos extratos completos. O conceito de utilização integral da planta, associado ao chamado "efeito entourage", tem influenciado diretamente essa migração observada nas prescrições e nas vendas.

O crescimento da categoria também é sustentado pela sólida expansão da base médica. O número de médicos prescritores ativos saltou de 54.258 para 69.794 no último período, um aumento expressivo de 28,6% impulsionado pelo avanço das evidências científicas e pela maior disponibilidade de produtos regulamentados nas farmácias e drogarias. Um dado crucial revela que 62% desses profissionais são novos prescritores que iniciaram sua jornada no último ano, demonstrando que a classe médica está apostando na categoria. Neurologistas (27,4%), psiquiatras (25,4%), clínicos gerais (9,1%) e pediatras (7,4%) lideram a importância nas prescrições, mas a Cannabis Medicinal já ultrapassa essas fronteiras e passa a ser considerada em diversas outras áreas terapêuticas.

Os dados indicam que o mercado brasileiro de Cannabis Medicinal ainda possui um enorme potencial de crescimento e desenvolvimento. Quando comparada à presença da Cannabis frente aos mercados de dor, epilepsia, ansiedade e depressão, percebe-se que ela ainda é relativamente pequena frente ao universo de pacientes elegíveis.

Há, por exemplo, mais de 191 mil médicos focados nessas especialidades que já prescrevem anticonvulsivantes sintéticos tradicionais, mas muitos ainda não prescreveram a Cannabis para os seus pacientes. Isso abre uma avenida de oportunidades para a indústria, para o varejo farmacêutico e, principalmente, para os profissionais de saúde que buscam novas formas terapêuticas seguras e baseadas em evidências.

Mais do que acompanhar o crescimento acelerado de uma categoria comercial, estamos observando a consolidação de um novo paradigma terapêutico. A integração entre produtos derivados da Cannabis, moléculas que auxiliam na modulação do Sistema Endocanabinoide, como a PEA, e uma medicina cada vez mais personalizada aponta para um futuro em que o SEC terá papel central na promoção da homeostase e na melhoria real da qualidade de vida dos pacientes.

Fonte: Close-Up International.

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