Brasil já tem um mercado legal de cânhamo

E, se fumar, não vai dar onda

Publicado en 12/06/2026

Brasil já tem um mercado legal de cânhamo
Brasil já tem um mercado legal de cânhamo

Por Rafael Arcuri

“E se eu fumar essa camiseta, eu vou ficar doidão?” Essa é, invariavelmente, a primeira pergunta que as pessoas fazem quando ficam sabendo que o tecido de alguma roupa é de cânhamo. Não há escapatória e é natural que ainda seja assim. O mercado de cânhamo, no Brasil, ainda está engatinhando. Por isso, vamos tentar explicar o que já existe, o que pode ser feito e o por que não temos mais produtos assim. (E, não, você não vai ter onda se fumar uma roupa de cânhamo).

O cânhamo nada mais é do que a cannabis não-psicotrópica (que não dá onda). É um conceito que muda de país para país e o Brasil ainda não bateu o martelo sobre o que ele significa, juridicamente, aqui. Os EUA regulam o cânhamo como a cannabis sativa L. que tenha até 0.3% do peso seco da planta de THC, no Paraguai é 0.5% e por aí vai. O cânhamo é legal na maior parte do mundo e normalmente tem uma regulação muito mais simples do que a cannabis com elevado teor de THC.

No Brasil, temos uma proibição geral sobre a cannabis, feita pela Portaria nº 344/1998, da Anvisa (Agência de Vigilância Sanitária). Os usos medicinais, hoje comuns em solo nacional, foram permitidos por meio de exceções criadas nesta portaria. Mas temos uma zona cinzenta sobre o cânhamo (que é cannabis sativa L. e está na proibido, de forma genérica, na Portaria).

Quando os usos do cânhamo não contém canabinóides e não estão sob a competência regulatória da Anvisa, não há vedação legal para ele. Por isso, no Brasil, nunca deixamos de encontrar roupas de cânhamo. E, hoje, várias marcas já usam o tecido. Temos a Osklen, Levi’s, Reserva e várias outras. 

Mas duas iniciativas nacionais chamam muito a atenção. ODispensário, aberto recentemente em Brasília, e a FloYou, que vende calcinhas menstruais de cânhamo.

A ideia de um dispensário, no país, chama a atenção porque não se pode vender cannabis recreativa aqui - e isso é o modelo dos dispensários em países com o uso recreativo regulado. O objetivo foi juntar, em um mesmo lugar físico, tudo o que dá pra fazer com a cannabis atualmente. 

São produtos de cânhamo, como sedas para tabaco e roupas, acessórios para fumo no geral e atendimento a pessoas que querem se informar sobre os usos medicinais. Além disso, é possível comprar produtos com terpenos iguais aos que se encontram na cannabis. Os terpenos são substâncias naturais encontradas em plantas e que dão características sensoriais específicas, como odores e sabores específicos.

O que chama a atenção do projeto é ele ter usado um nome muito polêmico para o atual cenário regulatório. A primeira reação daqueles que já têm algum contato com o mercado é se perguntar: “mas como eles abriram um dispensário aqui?” E essa reação é proposital. Convida a um debate racional e maduro sobre o tema, ficando sempre do lado empreendedor possível atualmente.

A FloYou é outro projeto nacional que conseguiu aproveitar o cenário regulatório atual e inovar. A calcinha menstrual de cânhamo junta dois temas cercados por estigma e tabu: cannabis e saúde feminina. A calcinha ocupa um lugar muito interessante no mercado atual, já que o cânhamo foi escolhido pelas características da fibra e do cultivo. A fibra é mais resistente, durável e o cultivo mais sustentável. Além de tudo, a fibra de cânhamo é bactericida, característica importante para esse tipo de produto.

A escolha dessas duas marcas em trabalhar com cannabis, no Brasil, apresenta dificuldades. A matéria-prima vem de fora e as normas, ainda que não proíbam, são menos maduras do que em mercados tradicionais. Todos esses são fatores que geram custos financeiros e organizacionais extras. Mas, na mesma proporção, esse meio apresenta os benefícios de um segmento ainda pouco explorado, cheio de espaço para inovação - seja dos produtos em si, seja dos modelos de negócios.

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e de responsabilidade de seus autores.

Rafael Arcuri* é advogado, Diretor Executivo da Associação Nacional do Cânhamo Industrial (ANC), especialista em direito regulatório, mestre e doutorando em direito e políticas públicas e membro da Comissão de Assuntos Regulatórios da OAB-DF.