Cotidiano

Austrália barra jogo de videogame por uso de cannabis

O jogo Halloween: The Game recebeu classificação recusada na Austrália por permitir que a cannabis desse uma vantagem aos jogadores. Entenda!

Austrália barra jogo de videogame por uso de cannabis
Cannabis em videogame faz Austrália recusar classificação de Halloween: The Game após mecânica dar vantagem ao jogador | Reprodução Internet

Há algo de curioso quando o medo muda de lugar. Em Halloween: The Game, o perigo tem nome, máscara e uma longa história de perseguir pessoas: Michael Myers. Ainda assim, não foram as mortes, o sangue ou a violência do famoso assassino que fizeram o jogo parar diante dos reguladores australianos. O motivo foi uma mecânica envolvendo cannabis.

A Austrália recusou a classificação de Halloween: The Game, título desenvolvido pela IllFonic, porque o jogador pode utilizar cannabis dentro da partida para obter uma vantagem: localizar Michael Myers com mais facilidade. Sem classificação, o game não pode ser comercializado legalmente no país.

O caso chama atenção justamente pelo contraste. O jogo é um survival horror ambientado no universo de Halloween, franquia conhecida pela violência e pelo terror. Mas, para as regras australianas, o ponto decisivo foi outro: a substância aparece como uma ferramenta capaz de melhorar o desempenho do jogador.

Neste artigo você vai ver:

  • Por que a Austrália recusou a classificação de Halloween: The Game;
  • Como a cannabis funciona dentro do videogame;
  • O que dizem as regras australianas sobre drogas em jogos;
  • Outros videogames que já enfrentaram problemas semelhantes;
  • Por que o caso não significa que toda representação de cannabis seja proibida;
  • O que pode acontecer com Halloween: The Game.

Por que a cannabis virou problema no videogame?

Com lançamento previsto para setembro de 2026, Halloween: The Game propõe uma disputa assimétrica: um jogador assume o papel de Michael Myers, enquanto os demais tentam sobreviver, escapar e impedir que o assassino avance sobre as vítimas. O título também conta com modo para um jogador.

Até aí, nada que fuja muito do universo criado pela franquia.

O que mudou o destino do jogo na Austrália foi uma mecânica específica. Durante a partida, os sobreviventes podem consumir cannabis e, como consequência, conseguem identificar a localização de Michael Myers por alguns segundos.

Na prática, a substância funciona como uma espécie de recurso estratégico.

É justamente essa associação entre consumo de cannabis e benefício dentro do videogame que entra em conflito com as regras australianas de classificação.

A Australian Classification Board classificou o jogo como RC — Refused Classification, categoria que impede sua comercialização legal no país.

A própria desenvolvedora, IllFonic, afirmou que a decisão não foi motivada pela presença de Michael Myers nem pelas mortes que podem ocorrer durante o jogo, mas pela presença de uma substância controlada. Como consequência, a empresa informou que o título também não será vendido na Nova Zelândia.

O que a regra australiana diz?

O ponto central da regulamentação não é simplesmente mostrar uma droga em um videogame.

As diretrizes australianas estabelecem restrições específicas para o uso interativo de drogas ilícitas ou controladas quando associado a incentivos ou recompensas.

E incentivo, nesse contexto, pode significar uma vantagem concreta para quem joga.

A classificação australiana já explicou que recompensas podem envolver aumento de atributos, facilitação de tarefas, desbloqueio de habilidades ou outras formas de tornar a progressão mais fácil.

É aí que Halloween: The Game encontra o limite regulatório.

A cannabis não está apenas representada na história. O jogador interage com ela e recebe um benefício em troca.

SAIBA MAIS: Leis globais da cannabis: comparação entre continentes

Cannabis e videogame: o caso não é inédito

A decisão envolvendo Halloween: The Game pode parecer incomum, mas a relação entre cannabis e videogame já provocou decisões semelhantes na Austrália.

Um dos exemplos mais conhecidos é DayZ, jogo de sobrevivência que também teve sua classificação recusada pelo país em 2019.

Segundo a Australian Classification Board, o personagem podia utilizar cannabis quando seus indicadores de sobrevivência estavam baixos. O consumo aumentava os níveis de alimentação e hidratação e diminuía sua temperatura.

Em outras palavras, a cannabis ajudava o personagem a sobreviver.

Para o órgão regulador, isso caracterizava o uso da substância como um incentivo ou recompensa dentro da experiência interativa. O jogo recebeu a classificação RC.

A história, porém, teve outro capítulo.

Uma versão modificada de DayZ, sem a cannabis, foi posteriormente classificada como MA 15+, com orientação relacionada a temas fortes, violência e interação on-line.

O episódio ajuda a entender o que está em jogo agora.

Não se trata necessariamente de uma proibição absoluta da palavra cannabis ou de qualquer representação da planta em videogames. O que pesa para a classificação é a maneira como ela é incorporada à mecânica do jogo.

Cannabis como elemento narrativo é diferente de recompensa

Essa distinção aparece também em outros casos analisados pela autoridade australiana.

O próprio órgão já observou que a simples representação de drogas não produz necessariamente o mesmo resultado regulatório que o consumo interativo associado a benefícios.

A diferença está na função que a substância desempenha dentro da experiência.

Se ela aparece como parte do cenário, da história ou de uma representação, a análise pode ser diferente.

Se o jogador precisa consumir a substância para ficar mais forte, recuperar recursos, facilitar uma missão ou obter alguma outra vantagem, o enquadramento muda.

Foi esse raciocínio que esteve por trás também da decisão envolvendo We Happy Few. No jogo, uma droga fictícia chamada Joy podia tornar determinadas situações mais fáceis para o jogador. A Australian Classification Board entendeu que a mecânica funcionava como incentivo ao consumo e recusou a classificação.

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Videogame de Halloween poderá ser modificado?

Por enquanto, a questão permanece em aberto.

A decisão australiana não significa necessariamente que Halloween: The Game jamais poderá chegar ao país. Uma possibilidade, como ocorreu anteriormente com outros títulos, seria a desenvolvedora alterar a mecânica que provocou o conflito e submeter uma nova versão à classificação.

No caso de DayZ, por exemplo, a retirada da cannabis permitiu que o jogo recebesse uma classificação posteriormente.

Até o momento, porém, não havia anúncio público da IllFonic sobre uma versão específica para atender às exigências australianas. A informação divulgada pela desenvolvedora é que o título não será comercializado na Austrália e na Nova Zelândia após a decisão.

O lançamento internacional segue previsto para setembro.

A página oficial do Xbox informa 8 de setembro de 2026 como data de lançamento, enquanto a página do jogo na Steam também indica 8 de setembro.

Por que a decisão chama tanta atenção?

A história de Halloween: The Game revela uma particularidade importante sobre como determinadas legislações enxergam drogas dentro de experiências interativas.

Em um filme, uma personagem pode aparecer consumindo cannabis sem que o espectador tenha qualquer participação naquele ato.

Em um videogame, entretanto, o jogador pode ser colocado diante de uma escolha: consumir ou não consumir. Se essa escolha altera o desempenho do personagem, a discussão regulatória ganha outra dimensão.

É a diferença entre assistir a uma representação e participar de uma mecânica.

No caso australiano, essa diferença já foi aplicada em diferentes oportunidades.

O histórico inclui DayZ e We Happy Few, além de outros títulos que tiveram problemas relacionados à representação ou ao uso interativo de drogas. A própria Australian Classification Board mantém registros dessas decisões.

No caso de Halloween: The Game, a situação ganha uma camada adicional de estranhamento porque o jogo pertence a uma franquia construída sobre violência, perseguição e assassinatos.

Mas a regra não avalia apenas o elemento que parece mais chocante para o público.

Ela considera a forma como determinados conteúdos são apresentados e, especialmente, quando drogas são utilizadas como incentivo ou recompensa durante a experiência.

O que a Austrália realmente proibiu?

É importante fazer uma distinção.

A Austrália não proibiu videogames que simplesmente tenham cannabis em seu conteúdo.

O que levou Halloween: The Game à classificação RC foi a combinação entre o uso interativo da substância e a vantagem oferecida ao jogador.

O próprio histórico de DayZ reforça essa interpretação. Em 2019, a Classification Board afirmou que, se o uso de cannabis não funcionasse como incentivo ou recompensa, o conteúdo poderia ter sido enquadrado em uma classificação mais alta, como R18+.

Portanto, reduzir o episódio à frase “Austrália proibiu cannabis em videogames” seria impreciso.

O caso é mais específico — e justamente por isso mais interessante.

A decisão mostra como uma pequena mecânica pode ter consequências muito maiores quando uma obra atravessa diferentes sistemas regulatórios.

Cannabis, games e os limites da representação

Entre uma fuga de Michael Myers e outra, o que acabou colocando Halloween: The Game no centro do debate regulatório não foi a máscara do assassino, mas a função atribuída à cannabis.

É uma história que parece saída de um roteiro improvável: um videogame de terror, um assassino serial, cenas violentas e uma perseguição durante a noite de Halloween. Ainda assim, foi uma mecânica de poucos segundos, consumir cannabis para descobrir onde está o inimigo, que acabou sendo decisiva para impedir a classificação do título na Austrália.

Mais do que uma curiosidade do universo gamer, o episódio ajuda a mostrar como a representação da cannabis vem sendo discutida em diferentes espaços culturais.

Nos videogames, a questão não passa apenas pela presença da planta ou da substância. Também envolve como ela é utilizada, qual papel desempenha e que tipo de comportamento o jogo recompensa.

E, nesse território entre entretenimento, regulamentação e cultura digital, até uma pequena escolha feita pelo jogador pode mudar o destino de um lançamento inteiro.

Fontes e referências

  • Australian Classification Board. Media statement — classification history of the game Dayz, 2019.
  • Australian Classification Board. DAYZ — Refused Classification, registro oficial.
  • Australian Classification Board. DAYZ — Modified version, classificação MA 15+, 2019.
  • Australian Classification Board. Classification of the game We Happy Few.
  • Australian Classification Board. Relatórios anuais sobre classificação de videogames e regras relacionadas a drogas.
  • El Planteo. Reportagem sobre a recusa de classificação de Halloween: The Game na Austrália, publicada em 12 de agosto de 2026.
  • PC Gamer. Reportagem sobre a recusa de classificação de Halloween: The Game na Austrália.
  • Xbox. Página oficial de Halloween: The Game, com informações de lançamento e classificação.
  • Steam. Página oficial de Halloween: The Game.