Brasil se prepara para ter o primeiro banco genético de cannabis
Universidade Federal de Viçosa busca autorização da Anvisa para cultivo em larga escala

Por João Negromonte com informações de Estadão
Um marco importante está se desenhando no horizonte da pesquisa e uso terapêutico da cannabis no Brasil. Segundo noticiou o Estadão, a Universidade Federal de Viçosa (UFV) está trilhando um caminho pioneiro ao solicitar autorização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o cultivo de cinco mil pés de cannabis, uma iniciativa que pode resultar no primeiro banco genético do país.
O objetivo da UFV é caracterizar geneticamente as diversas variantes da planta, permitindo uma compreensão mais profunda de suas composições químicas. Isso é crucial, pois o conteúdo de canabinoides, como o canabidiol (CBD) e o delta-9-tetrahidrocanabinol (THC), varia de acordo com a variante da planta. Cada doença, por sua vez, demanda quantidades específicas dessas substâncias para um tratamento mais eficaz. Até o momento, o Brasil enfrenta um cenário de incerteza, com pouca informação oficial sobre as variantes disponíveis.
Em entrevista ao estadão, o agrônomo Derly José Henriques da Silva, um especialista em genética e ecofisiologia de plantas da UFV, lidera este ambicioso projeto. Ele destaca que o banco genético não apenas beneficiará a pesquisa e o desenvolvimento de terapias medicinais à base de cannabis, mas também fornecerá suporte às famílias e associações que produzem produtos medicinais.
"Atualmente, não temos informação oficial sobre as variantes, vivemos numa zona cinza. Queremos dar suporte para as famílias e associações que produzem produtos medicinais; são muitas famílias com problemas", enfatiza Silva.
Uma das complexidades do cultivo da cannabis é que mesmo as variantes geneticamente caracterizadas em outros países podem apresentar características distintas quando cultivadas no Brasil. A variação de fatores ambientais, como temperatura, luz, água e solo, tem um impacto significativo na composição química da planta. Para superar esse desafio, a UFV planeja estabelecer parcerias com bancos genéticos de cannabis em diferentes países, criando uma rede global de conhecimento.
Além das aplicações terapêuticas, a cannabis possui um vasto potencial na indústria, sendo utilizada na produção de perfumes e na fabricação de produtos por cervejarias. O cânhamo, uma variante da cannabis, é uma fonte valiosa de fibras utilizadas na produção de tecidos, cordas e materiais de construção. No entanto, a diversidade genética é essencial para otimizar o uso da planta em todas essas aplicações.
A pesquisa sobre a cannabis está se tornando cada vez mais relevante, e a criação do primeiro banco genético de cannabis no Brasil representa um avanço significativo. Com essa iniciativa, o país busca se posicionar como um participante ativo na pesquisa global sobre a cannabis, conectando-se a uma rede de cientistas e pesquisadores em todo o mundo. A Anvisa já confirmou o recebimento do pedido da UFV, marcando o início de um capítulo promissor na pesquisa da cannabis no Brasil, com potencial para impactar positivamente a saúde e a indústria.
