Cannabis decola na América do Sul, menos no Brasil

Quando o assunto é a cannabis ou o cânhamo, países como Uruguai, Paraguai, Argentina, Colômbia e Chile já ultrapassaram o Brasil. Mas quando iremos "correr atrás do prejuízo"?

Cannabis decola na América do Sul, menos no Brasil
Cannabis decola na América do Sul, menos no Brasil

Coluna de Marcelo Grecco, publicada no Correio Braziliense

O Uruguai foi pioneiro na liberação da cannabis na América do Sul, e há alguns outros destaques na região. Contudo, hoje, o protagonismo está nas mãos do Paraguai. O país foi o primeiro a exportar alimentos à base de cânhamo (espécie de cannabis sem nenhum efeito psicoativo), no início do segundo semestre. Foram 20 toneladas de sementes para a Holanda e mais uma tonelada para a Inglaterra. As sementes de cânhamo são consideradas um superalimento, como as de chia ou linhaça.

Em seguida, foi confirmado acordo para exportação de mais de 160 toneladas de óleo, proteínas e outros derivados do cânhamo para Estados Unidos, Austrália e Canadá. E, assim, os paraguaios fizeram história. Lembro que o cânhamo possui cerca de 25 mil aplicações industriais, incluindo indústria alimentícia e de produtos voltados ao bem-estar.

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Esses negócios fechados em torno do cânhamo industrial foram inéditos para um país da América do Sul. A conquista está sendo comemorada por empresários do setor e autoridades do governo paraguaio. E com razão.

Esse movimento não aconteceu por acaso naquele país, nem de uma hora para outra. Foi fruto de planejamento, parcerias público-privadas e do estabelecimento de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento de um novo mercado.

Em 2019, o Paraguai liberou o cultivo de cânhamo, mediante permissão de seu Ministério da Agricultura. Em 2020, o poder executivo ampliou esse movimento, criando o programa nacional para promoção, fomento, cultivo, desenvolvimento da produção, comercialização e pesquisa do cânhamo. Por lá, a planta passou a ser de interesse nacional.

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O governo paraguaio assumiu compromisso não só com o cultivo, mas com o desenvolvimento do mercado, com linhas de crédito e recursos para financiar a cadeia produtiva e a pesquisa. Com a definição de um marco regulatório robusto, as empresas ganharam previsibilidade e segurança para investir. Os primeiros resultados foram colhidos menos de um ano da instauração do programa nacional, e as perspectivas são animadoras.

No começo, foram outorgadas licenças para cinco empresas ingressarem no processo de produção e industrialização controlada do cânhamo. Atualmente, cerca de 40 produtores cultivam a planta em pouco mais de 60 hectares. Se essa extensão de terra chegar a cerca de 15 mil hectares, a receita para os produtores rurais será de US$ 200 milhões e, para o setor industrial, de aproximadamente US$ 900 milhões.

Obviamente, o desenvolvimento desse novo mercado paraguaio em torno do cânhamo não é perfeito. Há queixas de concentração do cultivo nas mãos de oligopólios, sendo que o programa nacional prevê participação mais efetiva da agricultura familiar. Entretanto, não se pode negar a evolução notável do Paraguai.

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Trata-se de um fenômeno que não passa alheio a países vizinhos. A Colômbia também atua com foco na exportação e tem mais de US$ 500 milhões investidos nesse novo mercado. Os colombianos anunciaram a ampliação do negócio, partindo para a exportação da flor seca da cannabis. A expectativa é de que os negócios em torno da cannabis possam gerar, até 2030, US$ 2,5 bilhões de receita e cerca de 45 mil empregos. Por sua vez, o Chile tem produção do cânhamo em andamento.

A Argentina também está atenta. Projeto de marco regulatório para a indústria medicinal da cannabis e do cânhamo industrial, apresentado pelo governo, já tem aprovação do Senado. Só falta a aprovação da Câmara dos Deputados para a sanção definitiva.

E quanto ao Brasil? Por aqui, a tramitação do Projeto de Lei 399/2015, sobre uso medicinal da cannabis e do cânhamo industrial, está travada no parlamento devido a discussões ideológicas. Para avançar mais rapidamente, o ideal seria ter um projeto específico para o uso medicinal da cannabis e outro para o cânhamo industrial, além de descentralizar essa questão, hoje na Anvisa.

O fato é que continuamos só observando, e esse atraso é lamentável para o país. Não me refiro somente ao retardo no desenvolvimento desse novo mercado. Além de não explorarmos os benefícios econômicos, corremos o risco de ver brasileiros recorrendo ao contrabando para obter produtos à base de cânhamo de nossos vizinhos. Se a opção do Brasil for por ficar apenas observando, é bom "manter um olho no gato e outro no peixe".