Cannabis e canabidiol: USP recebe prêmio internacional

Reconhecimento internacional destaca 40 anos de pesquisas da USP sobre cannabis e canabidiol, com avanços em neuropsiquiatria e outras áreas médicas. Confira!

Cannabis e canabidiol estão no centro de décadas de pesquisas desenvolvidas por cientistas da FMRP-USP | CanvaPro

Há pesquisas que atravessam gerações. Em Ribeirão Preto, uma delas começou há décadas e ajudou a transformar dúvidas em perguntas científicas, controvérsias em investigação e esperança em evidência. Agora, essa trajetória ganha reconhecimento internacional: a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) será homenageada com o CannaPortugal Global Cannabis Award 2026 por seu trabalho científico relacionado a cannabis e canabidiol.

A premiação será entregue em 17 de outubro, na Ilha de São Miguel, nos Açores, em Portugal. A cerimônia integra a programação do evento promovido pela CannaPortugal, marcado para os dias 16 e 17 de outubro.

Mais do que celebrar uma descoberta isolada, o reconhecimento lança luz sobre uma história construída ao longo de aproximadamente quatro décadas, envolvendo pesquisadores, profissionais do Hospital das Clínicas, pós-graduandos, equipes técnicas e diferentes grupos de investigação.

Cannabis e canabidiol: por que a USP ganhou reconhecimento internacional?

A história da FMRP-USP com a pesquisa de canabinoides não começou agora. O trabalho desenvolvido em Ribeirão Preto ajudou a construir uma das linhas de investigação mais conhecidas do Brasil na área de neuropsiquiatria.

De acordo com a FMRP-USP, entre 1940 e 2019, pesquisadores de 62 países publicaram trabalhos relacionados a cannabis e cannabidiol (CBD). Nesse período, o Brasil apareceu entre os cinco países com maior número de publicações, com 138 artigos.

Um levantamento bibliométrico publicado em 2022 na revista Frontiers in Pharmacology analisou 3.555 publicações sobre canabidiol produzidas entre 2004 e 2021. O estudo apontou a Universidade de São Paulo como a instituição mais produtiva e citada da área, com 208 documentos e 10.140 citações no período analisado.

O mesmo levantamento identificou o professor Francisco Silveira Guimarães como o autor mais produtivo entre os pesquisadores analisados, com 51 documentos. Antonio Waldo Zuardi e outros pesquisadores da USP também apareceram entre os nomes de destaque.

É esse legado científico que estará no centro da homenagem em Portugal.

Para José Alexandre de Souza Crippa, professor da FMRP-USP, o prêmio representa algo maior do que o reconhecimento de pesquisas individuais.

“O reconhecimento que a Faculdade receberá em Portugal representa, portanto, não apenas um prêmio por descobertas específicas, mas por décadas de construção de uma das linhas de pesquisa em canabinóides mais consistentes e internacionalmente reconhecidas desenvolvidas no Brasil.”

SAIBA MAIS: Conheça a trajetória das pesquisas brasileiras com canabinoides

Uma pesquisa construída em equipe

A trajetória mencionada pela instituição reúne os professores José Alexandre de Souza Crippa, Antonio Waldo Zuardi, Francisco Silveira Guimarães e Jaime Eduardo Cecílio Hallak, além de outros docentes, pesquisadores, estudantes e equipes técnicas.

Para Francisco Silveira Guimarães, o reconhecimento também é consequência da aproximação entre diferentes áreas da ciência.

“Creio que reflete o trabalho de um grupo, iniciado pelos estudos pioneiros do Prof. Antonio Waldo Zuardi, que ao longo destas últimas décadas vem desenvolvendo uma abordagem verdadeiramente ‘translacional’, com colaborações bi-direcionais entre os grupos clínicos e pré-clínicos.”

A chamada pesquisa translacional busca justamente aproximar o conhecimento produzido em laboratório da investigação clínica, criando uma ponte entre descobertas experimentais e possíveis aplicações na saúde.

Essa característica ajuda a explicar a diversidade dos estudos conduzidos pela FMRP-USP.

Cannabis e canabidiol: da neuropsiquiatria à medicina fetal

As pesquisas desenvolvidas pela faculdade abrangem diferentes frentes, incluindo neuropsiquiatria, neurobiologia celular e medicina fetal.

Uma das linhas investigou a gastrosquise, uma malformação congênita na qual parte dos órgãos abdominais do feto se desenvolve para fora da cavidade abdominal. Em um modelo experimental com ratos, pesquisadores avaliaram os efeitos da administração materna de CBD sobre a inflamação intestinal associada à condição.

O estudo, publicado no Brazilian Journal of Medical and Biological Research, encontrou redução de marcadores inflamatórios no intestino dos fetos expostos ao tratamento experimental.

É importante, porém, fazer uma distinção fundamental: resultados obtidos em modelos animais não significam que o mesmo efeito esteja comprovado em gestantes ou fetos humanos. A pesquisa ajuda a formular hipóteses e a compreender mecanismos biológicos, mas novas etapas são necessárias antes de qualquer conclusão clínica.

Essa cautela faz parte da própria lógica da ciência.

Guimarães destaca a relevância dos estudos pré-clínicos para compreender o funcionamento do sistema nervoso central e os mecanismos envolvidos no comportamento.

“Os estudos pré-clínicos nesta área [de CBD] continuam sendo imprescindíveis, visto a compreensão de que o comportamento é uma propriedade emergente do sistema mais complexo que conhecemos, o sistema nervoso central.”

O que os estudos indicam sobre ansiedade e epilepsia?

Outra frente importante está relacionada à saúde mental e aos transtornos neurológicos.

A literatura científica sobre canabidiol cresceu significativamente nas últimas décadas, com destaque para investigações envolvendo epilepsia, ansiedade, esquizofrenia e outros transtornos neuropsiquiátricos. O levantamento bibliométrico publicado na Frontiers in Pharmacology identificou justamente essas áreas entre os principais focos da produção científica sobre CBD.

No campo da epilepsia, o canabidiol ganhou relevância internacional após estudos clínicos que contribuíram para o desenvolvimento de medicamentos à base do composto destinados a síndromes epilépticas específicas, como Dravet e Lennox-Gastaut. O levantamento científico destaca que os estudos sobre epilepsia foram uma das grandes frentes de expansão da pesquisa clínica com CBD.

No entanto, isso não significa que o canabidiol seja indicado indiscriminadamente para qualquer quadro de epilepsia. Indicações terapêuticas dependem de diagnóstico, formulação, dose, acompanhamento médico e evidências específicas para cada condição.

Cannabis e canabidiol em pesquisas sobre Parkinson

O Parkinson também aparece entre as áreas investigadas por pesquisadores da FMRP-USP.

Estudos conduzidos por pesquisadores da instituição avaliaram possíveis efeitos do CBD sobre sintomas não motores da doença, incluindo manifestações psicóticas e alterações relacionadas ao sono. Um estudo publicado no Journal of Psychopharmacology investigou especificamente o uso de canabidiol em pacientes com Parkinson que apresentavam sintomas psicóticos.

Outro ensaio clínico exploratório, publicado em 2014, avaliou o uso de CBD em pacientes com Parkinson. O trabalho contou com pesquisadores da FMRP-USP, entre eles Antonio Waldo Zuardi, Jaime Eduardo Cecílio Hallak e José Alexandre Crippa.

Uma revisão publicada pela Revista de Medicina, da USP, posteriormente avaliou as evidências disponíveis e ressaltou que, embora resultados pré-clínicos e clínicos fossem considerados favoráveis em alguns aspectos, as evidências ainda não eram suficientes para recomendar o CBD como tratamento para pacientes com Parkinson. Os autores defenderam novos estudos controlados com diferentes doses.

Esse ponto é especialmente importante para quem acompanha o avanço da medicina canabinoide: pesquisa promissora não é sinônimo de tratamento comprovado para todas as pessoas.

O desafio de entender como o CBD funciona

Ao longo dos anos, os pesquisadores da FMRP-USP também buscaram ir além da pergunta “funciona ou não funciona?”.

O objetivo passou a incluir questões mais complexas: como o composto atua no cérebro? Quais mecanismos estão envolvidos? Quais doses podem produzir determinados efeitos? Quem poderia se beneficiar? Quais são os riscos?

Crippa resume essa mudança de perspectiva: “Demonstramos efeitos do CBD sobre ansiedade, psicose e circuitos cerebrais por meio de estudos de neuroimagem e avançamos para investigações clínicas em diferentes condições [...] Um aspecto importante desse percurso foi não permanecer apenas na demonstração de possíveis efeitos terapêuticos, mas procurar compreender como o CBD atua no cérebro, quais doses são mais adequadas, quais pacientes podem se beneficiar e quais são seus limites e riscos.”

A busca por mecanismos também aparece em trabalhos sobre Parkinson. Pesquisadores vinculados à FMRP-USP investigaram bases biológicas que poderiam explicar possíveis efeitos do canabidiol na doença, incluindo mecanismos relacionados à neuroinflamação e à neuroproteção.

Cannabis e canabidiol: por que a dose importa?

Entre os principais aprendizados dessa trajetória científica dentro do universo da cannabis e canabidiol está uma mensagem que pode parecer simples, mas é essencial: mais não significa necessariamente melhor.

Guimarães chama atenção justamente para o cuidado com a dose e para a necessidade de monitoramento durante o uso de substâncias à base de canabinoides. 

“Esse é um conhecimento da cannabis e canabidiol importante, pois reforça a necessidade de monitorar adequadamente as doses sendo administradas, afastando a ideia simplista de que, se o fármaco não está sendo efetivo, basta ir aumentado a dose.”

A advertência ganha ainda mais importância diante da popularização dos produtos à base de CBD.

O fato de uma substância derivada da cannabis e canabidiol ser estudada ou apresentar resultados positivos em determinada condição não significa que qualquer produto contendo o composto produza o mesmo efeito. Formulação, concentração, via de administração, interação com outros medicamentos e características individuais podem alterar a resposta.

Por isso, o uso terapêutico da cannabis e canabidiol deve ser acompanhado por profissionais habilitados, especialmente quando envolve pessoas que já utilizam outros medicamentos.

Um prêmio que olha para o passado e para o futuro

A cerimônia do CannaPortugal Global Cannabis Awards 2026 está prevista para 17 de outubro, na Ilha de São Miguel, nos Açores. 

A programação reunirá especialistas de diferentes países, representantes da Anvisa, integrantes da Sociedade de Estudos da Cannabis Brasil e associações de pacientes, segundo a FMRP-USP.

A faculdade será representada pelo professor José Alexandre de Souza Crippa.

A própria CannaPortugal descreve seus Global Cannabis Awards como uma premiação voltada a reconhecer pessoas, organizações, projetos e países que contribuíram para o avanço e a compreensão da cannabis, incluindo ciência, saúde e desenvolvimento do setor.

Para a FMRP-USP, o reconhecimento chega depois de décadas de investigação.

E talvez essa seja a parte mais bonita dessa história da cannabis e canabidiol: antes de qualquer prêmio, houve perguntas. Houve laboratório, pacientes, pesquisadores, estudantes, noites de estudo, hipóteses que não se confirmaram e outras que abriram novas portas.

A ciência raramente caminha em linha reta. Ela avança aos poucos, entre descobertas e dúvidas, sempre exigindo uma dose de curiosidade e outra, igualmente importante, de cautela.

No caso da FMRP-USP, essa caminhada ajudou a colocar o Brasil no mapa internacional da pesquisa sobre cannabis e canabidiol

O prêmio em Portugal, portanto, representa não apenas uma celebração do que já foi feito, mas também um lembrete de que ainda há muito a descobrir.

E, quando o assunto é saúde, talvez esse seja o maior compromisso da ciência: continuar perguntando antes de prometer respostas.