Depressão e suicídio: acolher a tempo também é cuidar
Depressão e suicídio: psiquiatra explica sinais de alerta, rede de apoio e os limites da cannabis medicinal. Leia a reportagem no Portal Sechat.

A dor emocional nem sempre é visível. O sinal da depressão pode ser o silêncio. Às vezes, ela aparece no afastamento de pessoas queridas, na falta de perspectiva, na interrupção de atividades que antes davam prazer ou em mudanças de comportamento que parecem pequenas para quem observa de fora. Em setembro, mês de conscientização sobre a prevenção do suicídio, falar sobre saúde mental é também lembrar que ninguém precisa passar por esse sofrimento sozinho.
O suicídio é um fenômeno complexo, com múltiplas determinações. A depressão pode estar associada ao risco, mas não explica todos os casos nem deve ser tratada como uma causa isolada. Diante de sinais de sofrimento intenso, acolher, escutar e ajudar a pessoa a chegar a um atendimento profissional pode fazer diferença.
De acordo com o Ministério da Saúde, a depressão no Brasil é uma doença mental de elevada prevalência e a mais associada ao suicídio. Um estudo epidemiológico citado pelo órgão estima que a prevalência da condição ao longo da vida no país esteja em torno de 15,5%. Os estudos também apontam prevalência de até 20% entre mulheres e de 12% entre homens.
Quando a tristeza pede atenção médica
Para o Dr. Pedro Pierro, neurocirugião e diretor científico da Sechat, a depressão não se manifesta de uma única forma. Situações de perda, como o luto, podem provocar tristeza e recolhimento, mas é importante observar quando o sofrimento se prolonga, compromete a rotina ou muda a forma como a pessoa se reconhece.
“A depressão, muitas vezes, ela é insidiosa. Ela começa devagar, ela começa com uma certa melancolia, com um certo desânimo. E ela pode se manifestar de várias formas.”
Segundo Pierro, o quadro não se resume à imagem mais conhecida de alguém sem energia ou sem disposição para realizar atividades cotidianas. “Não é somente aquela pessoa que não sai da cama, não toma banho, não tem vontade de fazer nada. A depressão pode vir em uma questão de fuga. Às vezes, uma pessoa com uma alegria excessiva, ela pode estar deprimida. E isso é um mecanismo de fuga.”
O médico orienta que a procura por ajuda não deve depender de uma piora extrema. “Assim que ela percebe que ela não é a sua melhor versão. Que ela está encarando o mundo de uma forma muito pessimista. E sendo que esse não é um traço da personalidade dela.”
Apatia, falta de vontade de sair, de se arrumar e de realizar tarefas habituais também são sinais que merecem investigação. Pierro ressalta que a consulta pode ajudar a diferenciar a depressão de outras condições que provocam sintomas semelhantes. “Às vezes é metabólico, às vezes é um problema de tireoide, e a pessoa se sente deprimida. E não é uma depressão, é um problema metabólico.”
Para o Dr. Guilherme Nery, médico com atuação em medicina canabinoide e psiquiatria, a identificação precoce também passa pela atenção às mudanças no cotidiano.
“Os primeiros sinais são sutis, mas podem fazer a diferença pra gente intervir de maneira precoce. Geralmente começam com mudanças de padrões de comportamento, e geralmente os sinais mais visíveis estão no aumento da irritabilidade e reatividade, desesperança intensa, falta de horizonte de melhora, isolamento social, abandono de atividades habituais, aumento do consumo de álcool ou outras drogas, agitação importante, impulsividade, despedidas incomuns, doação de pertences que são sobretudo um sinal de planejamento… tentar procurar por esses sinais ser efetivo na prevenção.”
O Ministério da Saúde orienta que esses sinais não sejam analisados isoladamente. Falas frequentes sobre morte, desesperança, isolamento e mudanças importantes de conduta exigem atenção, sobretudo quando se manifestam juntos.
O esgotamento como ponto de atenção
A depressão pode interferir no sono, na disposição, nos vínculos e na capacidade de realizar tarefas cotidianas. Em sua prática clínica, Nery destaca o esgotamento como um padrão recorrente entre pacientes que chegam em sofrimento.
“Na minha prática clínica, um padrão se consolida como o mais relevante: o esgotamento. Um conjunto de sintomas relacionados à ansiedade, depressão, insônia, dor crônica e à amplificação de distúrbios psiquiátricos como TAB, Borderline, TEPT se enquadram aqui como fatores de adoecimento e sofrimento psíquicos e físicos.”
Segundo o médico, o sono pode ocupar um lugar central na estratégia terapêutica para romper esse ciclo. “Quebrar esse ciclo com uma otimização do sono é a tática que me parece mais eficaz pois, uma vez que a cannabis é muito efetiva em equilibrar o descanso das pessoas, esse padrão consegue ser interrompido. E o processo de retorno ao melhor funcionamento psíquico vem secundário à estabilização do sono.”
A fala reflete a experiência clínica do especialista. A indicação de cannabis medicinal, assim como de qualquer tratamento, deve ser individualizada e feita após avaliação profissional. Ela não substitui psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico, medicamentos convencionais quando indicados ou atendimento de urgência.
Cannabis pode ser uma ferramenta, não uma resposta isolada
A cannabis medicinal vem sendo estudada e utilizada, sob prescrição, em diferentes contextos clínicos. Para Pierro, há pesquisas sobre seu uso em ansiedade, dor, sono e depressão, embora o volume de evidências não seja igual para todas as condições.
“Na ansiedade, você pode olhar fobia social, ansiedade generalizada, do professor José Alexandre Crippa, vai ver um monte de resultado com uma robustez científica importante. Caso de dor, esse novo remédio que está saindo na Alemanha pra dor lombar, com vertente neuropática, é um estudo fase 3. Sono, então assim, a gente tem bastante estudo pra todas essas. Pra depressão, talvez um pouco menos do que das outras, mas temos também.”
Flávia Gollop enfrentou uma depressão profunda após a morte do marido, diagnosticado com Alzheimer. Ela relatou à Sechat que os medicamentos convencionais utilizados inicialmente agravaram seu desânimo e que, posteriormente, passou a usar óleo de cannabis medicinal sob acompanhamento médico. Leia a história de Flávia.
A trajetória não representa uma resposta única para pessoas com depressão, mas ajuda a mostrar como o tratamento precisa considerar os sintomas, a história e as necessidades de cada paciente.
Nery afirma que a escolha de uma formulação depende de uma escuta clínica cuidadosa. “As substâncias da cannabis são poderosas reguladoras de processos fisiológicos. Quando a gente entende a origem da disfunção do paciente — e isso requer uma entrevista bem feita, se conectar com seu paciente, desenvolver vínculo terapêutico adequado —, nós conseguimos pensar em quais misturas de canabinoides podem ser mais adequadas para cada indivíduo no seu processo de adoecimento.”
“Temos que identificar os padrões de sintomas, pra pensar em quais canabinoides em qual momento do dia. Procure um atendimento com profissionais que você confia, pois o vínculo terapêutico é mais importante do que a substância em si. A cannabis vai ser uma ferramenta utilizada no seu processo terapêutico, que vai além de só depender da cannabis para a sua transformação”, completa.
Dados de um acompanhamento de 698 pacientes com depressão resistente, por até dois anos, observaram melhora relatada em sintomas de depressão, ansiedade, sono e qualidade de vida com cannabis medicinal usada como terapia adjuvante. Os pesquisadores, porém, destacaram a necessidade de ensaios clínicos randomizados para confirmar eficácia, segurança e as formulações mais adequadas. Veja os dados do estudo.
Ideação suicida é emergência psiquiátrica
Quando há pensamentos de morte, intenção de se machucar ou risco imediato, a prioridade não é iniciar ou ajustar um produto de cannabis, mas garantir proteção e atendimento urgente. Nery reforça que uma rede de cuidado deve ser mobilizada.
“A abordagem mais segura para introdução da cannabis é um acompanhamento multidisciplinar, pois toda ideação suicida é uma emergência psiquiátrica. Temos que mobilizar uma rede de acolhimento profissional e familiar para este indivíduo e tratar isso com a devida atenção.”
O Ministério da Saúde recomenda conversar em um local calmo, oferecer escuta sem julgamentos e incentivar a pessoa a buscar ajuda. Se houver risco imediato, ela não deve ficar sozinha. É necessário procurar um serviço de emergência e acionar pessoas de confiança.
CAPS, Unidades Básicas de Saúde, UPAs, pronto-socorros e hospitais podem oferecer atendimento. O SAMU atende pelo número 192. O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia, e também disponibiliza canais digitais em cvv.org.br.
As orientações oficiais sobre prevenção, sinais de alerta e onde buscar ajuda estão na página do Ministério da Saúde e na campanha Setembro Amarelo.
Em caso de risco imediato, procure uma UPA, pronto-socorro ou hospital, acione o SAMU pelo 192 ou entre em contato com o CVV pelo 188.
