Em Fernando de Noronha, mãe atípica relata como a cannabis medicinal transformou a vida do filho com autismo severo
Durante anos, Lucineia Vicente enfrentou sozinha as crises intensas do filho, Alisson, diagnosticado com TEA nível 3. Entre noites sem dormir, agressividade, isolamento e incontáveis desafios, ela descobriu que, para cuidar dele, também precisava aprender a cuidar de si.

Durante muito tempo, Lucineia Vicente da Silva acreditou que precisava ser forte o tempo inteiro. Mãe solo, moradora de Fernando de Noronha há quase quatro décadas, ela aprendeu cedo que criar um filho exige coragem. Criar um filho com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 3 exige muito mais do que isso: exige renúncia, resiliência e uma capacidade quase infinita de seguir em frente mesmo quando tudo parece desmoronar.
Ela deixou a vida profissional em segundo plano para cuidar de Alisson Gabriel, hoje com 16 anos. Quando consegue, ajuda na pousada da mãe. Nos demais dias, lava roupas para complementar a renda. A rotina nunca foi fácil, mas o maior desafio sempre esteve dentro de casa.
"Eu estava pedindo socorro." É assim, sem rodeios, que Lucineia resume um dos períodos mais difíceis de sua vida.
Alisson nasceu prematuro, passou três meses internado na UTI e, desde os primeiros anos, já dava sinais de que seu desenvolvimento seguia um caminho diferente. Aos três anos, ainda não falava."Quando o Alisson completou três anos eu percebi que tinha alguma coisa diferente. Procurei ajuda, mas fechar o diagnóstico foi uma caminhada muito longa."
Vieram consultas, terapias, medicamentos e anos tentando entender como oferecer ao filho uma vida mais tranquila.
Na infância, as crises eram menores. Foi na adolescência, impulsionada pela puberdade e pelo período pós-pandemia, que tudo mudou. Alisson passou a apresentar episódios intensos de agressividade, deixava a própria casa para andar pelas ruas, entrava em pousadas da vizinhança e destruía objetos durante as crises. "Eu passei mais de quinze dias trancada dentro de casa com meu filho. Não conseguia mais controlar a situação", relata.
Enquanto muitos enxergavam apenas um adolescente em crise, Lucineia passou a compreender que, por trás daquele comportamento, existia alguém tentando se comunicar.
Uma mãe que nunca deixou de procurar respostas

A cannabis medicinal entrou em sua vida depois de muitos anos ouvindo recomendações. Na primeira tentativa, ela não se sentiu segura. Faltava informação, acompanhamento e confiança. Foi somente quando uma equipe multidisciplinar iniciou um projeto em Fernando de Noronha que Lucineia decidiu tentar novamente.
Mais do que uma prescrição, ela encontrou acolhimento. "Quando chegaram para atender o Alisson, uma das profissionais olhou para mim e disse: 'nós também vamos cuidar de você'. Naquele momento eu percebi que eu também precisava ser cuidada."
O tratamento começou em um dos momentos mais delicados da família. Os resultados, segundo ela, apareceram antes do que imaginava. "Onde eu pensava que levaria um ano para aparecer algum resultado, ele veio em menos de um mês."
Hoje, Alisson permanece grande parte do tempo dentro de casa. Dorme melhor, reduziu significativamente as crises, passou a aceitar frutas na alimentação, emagreceu, tornou-se mais comunicativo e demonstra carinho de maneiras que antes pareciam impossíveis.
"Hoje ele me abraça. Me beija. Quando eu vou dar um beijo nele, ele deixa."
Lucineia também relata avanços na comunicação."Ele começou a falar palavras mais difíceis. Outro dia eu repetia uma coisa e ele respondeu: 'Mãe, a senhora já falou duas vezes, eu já entendi'", conta. Segundo ela, a evolução ocorreu mesmo sem acesso completo às terapias multidisciplinares.
Quando a mãe também começa a florescer

Mas a maior transformação talvez tenha acontecido em alguém que quase nunca aparecia na história. Na própria Lucineia.
Durante anos, ela viveu em estado permanente de alerta. Se o filho entrava em crise, ela também adoecia emocionalmente. Hoje, diz perceber uma diferença importante. "Meu filho ainda tem crises. Mas eu não me desorganizo mais junto com ele. Hoje consigo ajudá-lo."
Ela também iniciou seu próprio tratamento com cannabis medicinal. Conta que passou a dormir melhor, desenvolveu maior estabilidade emocional, mudou hábitos alimentares e recuperou parte da qualidade de vida que havia perdido ao longo dos anos dedicados exclusivamente ao filho. "Para cuidar do meu filho, eu precisava aprender a cuidar de mim", pontuou.
A força invisível das mães atípicas
Lucineia faz parte da Associação das Mães Atípicas de Fernando de Noronha. Ali encontrou outras mulheres que vivem histórias parecidas, mães que deixaram empregos, reorganizaram suas vidas e aprenderam, juntas, que ninguém consegue enfrentar essa caminhada sozinha.
Ela faz questão de compartilhar sua experiência para que outras famílias não desistam. "Chegou uma hora que eu achava que era só eu. Depois apareceram outras mães, outras crianças. Hoje uma acolhe a outra."
Ao olhar para trás, ela não enxerga apenas o caminho percorrido por Alisson. Enxerga também a própria reconstrução. "Eu pedi socorro. E o socorro veio, sou totalmente grata a Abecmed, que nos apoia em tudo."

Sobre o preconceito que ainda cerca a cannabis medicinal, Lucineia prefere responder de forma simples. "A partir do momento que você aceita conhecer, novos caminhos se abrem. As pessoas começam a ver a mudança. E isso faz toda a diferença."
A estrada, como ela mesma diz, ainda é longa. Mas, depois de tantos anos enfrentando tempestades, hoje existe algo que antes parecia distante: esperança.
E, para uma mãe que nunca deixou de lutar pelo filho, isso muda tudo.
