Fiocruz apoia associação de MS em pesquisas sobre cannabis medicinal e acesso no SUS
Acordo entre Fiocruz e Associação Divina Flor, de Mato Grosso do Sul prevê pesquisas científicas, análises laboratoriais, formação profissional e estudos para ampliar o acesso à cannabis medicinal no SUS
Publicada em 26/05/2026

Fiocruz e Associação Divina Flor firmam parceria para pesquisas sobre cannabis medicinal | Foto: Divulgação/Assessoria
Durante anos, associações de pacientes ocuparam um espaço onde o Estado ainda caminhava lentamente: acolher famílias, estudar a planta na prática e lutar para que a cannabis medicinal deixasse de ser vista como tabu. Agora, esse conhecimento começa a ganhar respaldo científico. Em Mato Grosso do Sul, a parceria entre a Fundação Oswaldo Cruz - Fiocruz e a Associação Divina Flor marca um novo capítulo para a pesquisa sobre cannabis medicinal no Brasil, unindo ciência, saúde pública e a experiência construída ao lado dos pacientes.
Fiocruz MS e Divina Flor unem ciência e experiência de pacientes
O Acordo de Cooperação Técnica nº 61/2026 prevê pesquisas científicas, análises laboratoriais, formação profissional e intercâmbio técnico entre as instituições.
A proposta da Fiocruz inclui capacitação de médicos, farmacêuticos e equipes multiprofissionais por meio de sua atuação como Escola de Governo e do Mestrado Profissional em Saúde Única. A ideia é preparar o SUS para acolher pacientes de forma mais segura, ética e baseada em critérios científicos.
Além da formação, o acordo pretende fortalecer a autonomia nacional na área e reduzir a dependência de insumos importados, um dos fatores que ainda tornam o tratamento inacessível para milhares de famílias brasileiras. “Acreditamos que essa parceria ajudará a desmitificar o uso da cannabis medicinal e a preparar a linha de frente do SUS para acolher o paciente de forma qualificada”, completa o pesquisador.
Além das pesquisas laboratoriais, Aron citou a capacitação de profissionais da saúde, considerada hoje um dos principais desafios para ampliar o acesso à cannabis medicinal no Brasil. “A falta de prescritores capacitados constitui hoje um dos maiores gargalos para a ampliação do acesso à cannabis medicinal no Brasil”, destaca Aron.
Segundo ele, o fortalecimento técnico e científico pode reduzir a dependência de insumos importados e contribuir para tratamentos mais acessíveis à população.
Fiocruz vai sequenciar geneticamente plantas cultivadas em MS
Entre as principais linhas de pesquisa previstas no acordo está o sequenciamento genético completo das plantas cultivadas em Mato Grosso do Sul. A Fiocruz utilizará sua estrutura de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação em Campo Grande, que reúne laboratórios de Biodiversidade, Biologia Molecular, Imunofarmacologia, Plataforma de Sequenciamento Genético, Entomologia e Biotério.
O objetivo é identificar variantes mais eficazes na produção de compostos como CBD, THC e outros canabinoides menores ainda pouco explorados pela literatura científica.
O projeto também inclui análises fitoquímicas avançadas, técnicas de “fingerprinting” e vigilância genômica do microbioma para detectar contaminantes, fungos e bactérias, garantindo maior segurança aos produtos utilizados por pacientes.
Segundo Aron, o foco é construir um padrão nacional de qualidade. “Atualmente, o Brasil vive um cenário de fragmentação, onde muitas famílias dependem de decisões judiciais ou importações caríssimas. A construção dessas evidências científicas permite criar um padrão de qualidade nacional”, explica.
A Divina Flor sai do banco dos réus e entra para o laboratório da história
Para o diretor jurídico da Associação Divina Flor, Felipe Nechar, o acordo representa um marco histórico para o movimento associativo canábico brasileiro. “A parceria com a Fundação Oswaldo Cruz Mato Grosso do Sul representa um divisor de águas não apenas para a Associação Divina Flor, mas para todo o segmento de terapias com Cannabis no Brasil”, afirma.
Felipe destaca que o acordo legitima cientificamente o trabalho desenvolvido pela associação ao longo dos anos, especialmente após um período marcado pela judicialização e pelo risco de criminalização das entidades de pacientes.
Pouco antes da assinatura da parceria, a Justiça de Mato Grosso do Sul reconheceu a ausência de justa causa para acusar integrantes da associação por tráfico de drogas, entendendo que havia finalidade terapêutica nas atividades realizadas. “O juíz foi cirúrgico ao dizer que a ausência de registro na ANVISA, por si só, não transmuta conduta medicinal em crime”, ressalta.
RDCs da Anvisa e o novo cenário regulatório da cannabis no Brasil
Felipe também cita as novas resoluções da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, especialmente a RDC 1.013/2026, que regulamenta o cultivo de cannabis com teor de THC menor ou igual a 0,3% para fins medicinais, e a RDC 1.014/2026, que criou o chamado “Sandbox Regulatório”.
Segundo ele, a parceria coloca a Divina Flor “na vanguarda” desse novo ambiente experimental supervisionado pela Anvisa. “O arquivamento do processo nos livrou do estigma criminal; a parceria com a Fiocruz nos coloca no caminho da regularização sanitária definitiva”, diz.
Conhecimento das associações ganha respaldo científico
Um dos pilares da cooperação será justamente a integração entre o conhecimento empírico acumulado pelas associações e o rigor científico da Fiocruz.
Para Aron Carlos, as associações desempenharam um papel histórico no Brasil ao acolher famílias em um período de “silêncio regulatório”. “Essa trajetória acumulou uma experiência prática valiosa, que não pode ser ignorada pela ciência formal”, afirma.
Segundo ele, o conhecimento sobre cultivo orgânico, técnicas artesanais de extração e acompanhamento terapêutico de pacientes servirá como ponto de partida para os estudos conduzidos pela fundação.
“O objetivo não é substituir o trabalho das associações, mas fornecer o respaldo técnico necessário para que essa experiência de campo se transforme em uma solução de saúde pública acessível pelo SUS.”
Ciência, saúde pública e futuro
Para a Associação Divina Flor, a união entre ciência pública e experiência das associações pode acelerar a construção de políticas mais inclusivas no país.
“O maior beneficiado com essa união entre a Divina Flor e a Fiocruz é o povo brasileiro, especificamente os pacientes sul-mato-grossenses que aguardam por alternativas terapêuticas dignas”, afirma Felipe Nechar.
Ele acredita que os dados produzidos poderão auxiliar futuras decisões da Anvisa, ampliar a segurança regulatória e contribuir para a redução dos custos de tratamento. “A Divina Flor sai do banco dos réus e entra para o laboratório da história da saúde pública brasileira", finaliza Felipe.


