"Hoje eu vejo meu filho mais feliz": a jornada de uma mãe atípica com a cannabis medicinal
Mãe de um menino com autismo, TDAH e transtorno do processamento sensorial, Rebeca relata como a cannabis medicinal ajudou a melhorar a qualidade de vida da família e reforça a importância da informação para combater o preconceito.

Há maternidades que aprendem a contar o tempo de um jeito diferente. Em vez dos primeiros passos ou das primeiras palavras, os dias passam a ser marcados por consultas, terapias, adaptações escolares e pela busca constante por respostas.
Ainda assim, são os pequenos avanços que renovam a esperança: uma noite de sono tranquila, uma crise superada ou a felicidade de ver um filho vivendo a infância com mais leveza.
Foi assim que Rebeca Allen, 47 anos, passou a medir as próprias vitórias. Mãe de Fábio, de sete anos, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Processamento Sensorial (TPS) e TDAH, ela transformou a luta por qualidade de vida em propósito. Em Fernando de Noronha, onde o acesso a especialistas exige viagens até Recife, encontrou na cannabis medicinal uma nova possibilidade de cuidado para o filho e para si.
Hoje, além de acompanhar a evolução de Fábio, Rebeca preside a Associação Mães Atípicas, criada para acolher famílias da ilha e ampliar o acesso à informação e ao cuidado.
A rotina de quem nunca desiste
A vida de uma mãe atípica é feita de consultas, medicamentos, terapias e da defesa diária dos direitos dos filhos. Em Noronha, os desafios são ainda maiores: toda a assistência é realizada pelo SUS e atendimentos especializados dependem de deslocamentos para o continente.
Mesmo com acompanhamento multidisciplinar, Rebeca sentia que ainda faltava algo para melhorar a qualidade de vida de Fábio. O menino passou por diferentes tratamentos medicamentosos, mas os efeitos adversos e a persistência de alguns comportamentos fizeram a família buscar novas alternativas.
"Eu costumo sempre buscar alternativas que melhorem a qualidade de vida do meu filho", conta. Foi durante um projeto de saúde comunitária voltado para crianças e mães atípicas que ela conheceu a cannabis medicinal. "Até fevereiro eu não sabia nem como era feito o extrato. Ainda existe muito preconceito, mas eu decidi apostar", disse.
Uma transformação para mãe e filho

Após avaliação médica, Fábio iniciou o tratamento com CBD. Rebeca também passou a utilizar a cannabis medicinal como parte do acompanhamento para ansiedade e depressão.
Os resultados apareceram em poucos meses. Durante uma consulta em Recife, a neuropediatra percebeu que Fábio estava mais tranquilo, comunicativo e menos agitado. Com a evolução, iniciou-se a retirada gradual de um medicamento de tarja preta utilizado desde os quatro anos. "Só de retirar uma medicação de tarja preta já é um ganho considerável."
As mudanças também chegaram à rotina da mãe. "Com a entrada do CBD, a gente teve uma melhora considerável de vida, tanto eu quanto ele. Hoje eu consigo me manter mais tranquila para administrar os momentos de crise", explica.
Para Rebeca, a maior conquista é ver o filho vivendo com mais conforto e participando melhor das terapias.
A luta pela inclusão continua...
Apesar dos avanços, a inclusão escolar ainda representa um desafio.
Rebeca relata que Fábio já enfrentou dificuldades durante uma avaliação porque precisava que um profissional lesse as questões para ele, adaptação que não foi oferecida naquele momento."Ele não queria fugir da atividade. Ele queria fazer a prova, mas precisava que lessem para ele".
Segundo ela, muitas crianças ainda são julgadas pelo comportamento, quando, na verdade, precisam de acolhimento e estratégias compatíveis com suas necessidades.
Informação para vencer o preconceito

Além dos desafios do autismo, a mãe também precisou enfrentar o estigma em torno da cannabis medicinal. Em uma comunidade pequena, ela relata ter sido alvo de comentários e julgamentos após tornar público o tratamento.
Mesmo assim, acredita que a informação é o principal caminho para mudar essa realidade.
"Eu percebo os benefícios na minha vida e na vida do meu filho. O conhecimento liberta. Nós, pacientes, também somos agentes de mudança quando compartilhamos informação e mostramos que existe ciência e acompanhamento médico por trás desse tratamento", afirma.
Enquanto acompanha o desenvolvimento de Fábio, Rebeca segue acolhendo outras famílias por meio da Associação Mães Atípicas. Afinal, para muitas mães atípicas, as maiores conquistas são quase invisíveis para quem vê de fora: uma medicação a menos, uma noite de sono tranquila ou simplesmente a alegria de ver um filho feliz.
