Psicodélicos

Novo dossiê da MAPS coloca a ibogaína no centro do debate científico mundial

Documento de acesso aberto reúne 207 páginas de evidências científicas sobre a ibogaína, organiza dados para futuras pesquisas e destaca que os benefícios terapêuticos ainda precisam ser confirmados por ensaios clínicos robustos

Novo dossiê da MAPS coloca a ibogaína no centro do debate científico mundial
Manual publicado pela MAPS reúne dados científicos sobre a ibogaína, incluindo evidências pré-clínicas, estudos observacionais e informações sobre segurança da substância | CanvaPro

A trajetória da ibogaína na pesquisa científica acaba de ganhar um novo marco. A Associação Multidisciplinar de Estudos Psicodélicos (MAPS) publicou a primeira edição do seu Manual do Investigador, um dossiê regulatório de acesso aberto com 207 páginas que reúne evidências pré-clínicas, dados observacionais e informações sobre segurança da substância.

Segundo o site Cáñamo, o documento representa a primeira compilação pública desse porte dedicada exclusivamente à ibogaína. A iniciativa busca facilitar o desenvolvimento de futuras pesquisas ao reunir informações que, tradicionalmente, permanecem restritas a patrocinadores da indústria farmacêutica.

Embora o material organize décadas de conhecimento científico, ele também deixa claro que as evidências disponíveis ainda são insuficientes para comprovar a eficácia da ibogaína como tratamento para transtornos por uso de substâncias ou transtorno de estresse pós-traumático.

Dossiê da MAPS reúne evidências, mas reforça limites da pesquisa

De acordo com o site Cáñamo, o manual foi elaborado para servir de referência em ensaios clínicos, avaliações regulatórias e protocolos de segurança. No entanto, o próprio documento reconhece que ainda não existem estudos clínicos randomizados e controlados por placebo capazes de confirmar a eficácia terapêutica da ibogaína.

Grande parte das informações disponíveis deriva de estudos observacionais, pesquisas abertas, análises retrospectivas e relatos de casos. Alguns desses trabalhos apontam redução de sintomas de abstinência, diminuição da fissura e melhora em indicadores relacionados ao uso problemático de opioides.

Apesar desses resultados, a ausência de grupos de controle, amostras maiores e acompanhamento de longo prazo impede que essas evidências sejam consideradas suficientes para estabelecer um tratamento validado cientificamente.

Segurança permanece como principal desafio

Segundo o site Cáñamo, a principal preocupação relacionada à ibogaína continua sendo a segurança cardiovascular.

O dossiê destaca que a substância pode prolongar o intervalo QT e provocar arritmias ventriculares potencialmente fatais. A literatura científica também registra eventos adversos graves e óbitos associados tanto a condições cardíacas preexistentes e desequilíbrios eletrolíticos quanto a casos sem histórico conhecido de doença cardiovascular.

Embora o acompanhamento médico reduza parte desses riscos, o documento ressalta que eles não são totalmente eliminados.

FDA autoriza novo estudo e Colorado amplia pesquisas

O cenário regulatório nos Estados Unidos também apresenta avanços para a pesquisa com psicodélicos.

Segundo o site Cáñamo, o FDA autorizou um ensaio clínico de Fase I para avaliar a noribogaína no tratamento do transtorno por uso de álcool. A autorização permite a realização da pesquisa, mas não representa aprovação regulatória nem comprovação de segurança ou eficácia da substância.

No âmbito estadual, o Colorado aprovou uma legislação que cria um programa piloto com até cinco centros de pesquisa dedicados à ibogaína. A iniciativa depende de financiamento e autorização federal e entra em vigor em 12 de agosto.

A legislação também determina que sejam desenvolvidos mecanismos de compartilhamento de benefícios em consulta com comunidades indígenas.

Conhecimento tradicional integra debate científico

Além dos aspectos regulatórios e clínicos, o novo dossiê destaca a origem ancestral da iboga.

Nativa da África Central, a planta faz parte das práticas espirituais e sociais dos povos Bwiti e Fang, que utilizam a substância há gerações em seus rituais tradicionais.

Segundo o site Cáñamo, esse contexto amplia o debate sobre o reconhecimento dos conhecimentos tradicionais, a participação dessas comunidades nas pesquisas científicas e a distribuição dos benefícios decorrentes de possíveis aplicações terapêuticas da ibogaína.

Fonte: conteudo originalmente publicado pelo portal Cañamo.