O país que ainda destrói a cannabis: apreensão de 40 mil pés em MG
Apreensão apreensão de 40 mil pés em mg em Minas reacende o debate sobre os custos da repressão e a regulamentação ampla da planta. Leia no Sechat.

A apreensão de aproximadamente 40 mil plantas de cannabis em Cachoeira do Pajeú, em Minas Gerais, voltou a expor o contraste entre os recursos mobilizados para combater o cultivo ilegal e o potencial de uma cadeia produtiva regulamentada no Brasil.
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A nova fase da Operação Colheita Proibida foi deflagrada pela Polícia Federal na quinta-feira (20), com apoio da CIPE-Caatinga da Bahia e da Polícia Civil de Minas Gerais. Segundo a Polícia Federal, a ação teve como objetivo erradicar uma plantação ilegal de maconha localizada no município mineiro.
A operação também cumpriu 13 mandados de prisão preventiva e 12 de busca e apreensão na Bahia, em Pernambuco e em Alagoas. A Justiça ainda determinou o sequestro de cinco imóveis e o bloqueio de até R$ 50 milhões em contas vinculadas a 36 pessoas físicas e jurídicas.
Os investigados poderão responder pelos crimes de organização criminosa, financiamento do cultivo ilegal de maconha, tráfico de drogas, associação para o tráfico e lavagem de dinheiro.
Embora a investigação trate de uma atividade considerada ilegal, a dimensão da plantação reacendeu o debate sobre a política de drogas e a necessidade de o Brasil avançar na regulamentação dos usos medicinal e industrial da cannabis.
Cultivo ilegal não se confunde com produção regulamentada
A apreensão não significa que as plantas encontradas poderiam ser destinadas diretamente à produção de medicamentos ou ao atendimento de pacientes. Uma cadeia medicinal regulamentada exige controle genético, rastreabilidade, padrões de qualidade, limites de THC, análises laboratoriais e acompanhamento sanitário.
O episódio, entretanto, coloca em discussão o destino econômico e social que áreas agrícolas poderiam ter caso produtores autorizados fossem incorporados a cadeias legais, supervisionadas e voltadas à fabricação de insumos terapêuticos ou produtos industriais.
Para o advogado e ativista pelo fim da guerra às drogas Erik Torquato, a operação evidencia uma contradição na forma como o país trata a planta.
“A contradição da guerra às drogas faz com que o Brasil gaste muita grana em efetivo policial e aparato público para reprimir uma cultura que poderia ser estimulada e fomentar a agricultura familiar. A apreensão de Minas Gerais mostra isso.
Aquelas terras poderiam estar sendo cultivadas para fins de atender, por exemplo, a rede básica de saúde local com insumos de canábis para fins terapêuticos financiados pelo Estado, adquiridos pelo Estado, revertendo em proveito da sociedade local.
A cannabis tem potencialidade econômica, tem potencialidade medicinal, tem potencialidade ambiental, mas o Brasil prefere adotar uma política medieval e destruir uma planta e proibir uma cultura que poderia servir em benefício de toda uma sociedade.”
A declaração representa a avaliação do advogado sobre a política de drogas e não altera a natureza da investigação conduzida pela Polícia Federal nem as acusações atribuídas aos investigados.
Brasil avançou no cultivo medicinal, mas setor pede ampliação
O Brasil passou a contar, em 2026, com regras específicas para a produção de cannabis destinada a finalidades medicinais e farmacêuticas. A RDC 1.013/2026 da Anvisa prevê autorização especial para pessoas jurídicas, inspeção sanitária prévia, rastreabilidade e mecanismos permanentes de segurança e controle.
O avanço, porém, não encerrou a discussão. O setor ainda reivindica normas capazes de estruturar uma cadeia agrícola mais abrangente, especialmente para o cânhamo industrial, variedade cultivada com baixo teor de THC e destinada à produção de fibras, alimentos, cosméticos, biomateriais e outros insumos.
Notas técnicas analisadas pelo Sechat apresentam fundamentos para diferenciar o cânhamo industrial de variedades de cannabis com maior concentração de THC. Os documentos também apontam a necessidade de regras agrícolas próprias para sementes, registro de cultivares, fiscalização, processamento e aproveitamento industrial da planta.
Essa diferenciação é considerada fundamental para que a política pública consiga separar três atividades distintas: o combate ao tráfico de drogas, a produção medicinal submetida ao controle sanitário e o cultivo de cânhamo voltado a aplicações industriais.
Mercado pode movimentar bilhões e gerar empregos
O potencial econômico ajuda a explicar por que episódios como a apreensão em Minas Gerais ultrapassam o campo policial e chegam ao debate regulatório.
Segundo o relatório Impacto Econômico da Cannabis no Brasil, elaborado pela Kaya Mind em 2021, a regulamentação dos mercados medicinal, industrial e de uso adulto poderia movimentar cerca de US$ 5,3 bilhões — mais de R$ 26 bilhões na conversão apresentada — e gerar até 328 mil empregos nos primeiros anos após a implementação das normas.
O levantamento da Kaya Mind também projeta bilhões de reais em arrecadação tributária, ampliação do acesso a produtos terapêuticos e criação de oportunidades para diferentes setores da economia. Como se trata de uma projeção produzida em 2021, os valores dependem do modelo regulatório adotado e das condições econômicas existentes no momento da implementação.
Crédito editorial: Revisão de conteúdo: Redação Jornalismo Sechat
