Psicodélicos

O passado pode mudar? Cientistas investigam como psicodélicos afetam nossas lembranças

Projeto financiado pelo Conselho de Pesquisa da Finlândia investigará até 2030 se substâncias psicodélicas facilitam recordações autobiográficas ou aumentam o risco de distorção de memórias

O passado pode mudar? Cientistas investigam como psicodélicos afetam nossas lembranças
Estudo conduzido pelo psicólogo Samuli Kangaslampi analisa se psicodélicos podem facilitar recordações autobiográficas ou aumentar o risco de falsas memórias, tema com impacto clínico e legal | CanvaPro

Há lembranças que voltam como um clarão: intensas, emocionais, aparentemente incontestáveis. Mas e se a sensação de realidade não bastasse para provar que um fato aconteceu exatamente daquela forma? Essa é a pergunta que move um novo projeto científico na Finlândia, onde pesquisadores vão investigar como os psicodélicos influenciam a memória autobiográfica e se essas substâncias podem aumentar o risco de falsas recordações.

Segundo o site Cáñamo, o psicólogo finlandês Samuli Kangaslampi irá conduzir uma pesquisa que seguirá até 2030 falando sobre o estudo e buscará compreender se os psicodélicos facilitam a recordação de eventos pessoais, distorcem essas memórias ou alteram a forma como elas são interpretadas.

 

Psicodélicos e memória autobiográfica: o que a pesquisa vai investigar

De acordo com o site, o projeto é financiado pelo Conselho de Pesquisa da Finlândia e combinará diferentes metodologias: ensaios controlados com a Universidade de Maastricht, estudos laboratoriais na Universidade de Tampere, questionários e análises de experiências previamente registradas.

A investigação retoma uma questão que surgiu nas primeiras terapias com LSD nas décadas de 1950 e 1960, quando pacientes relataram memórias intensas da infância e episódios traumáticos durante as sessões.

Kangaslampi e o pesquisador Morten Lietz revisaram esse tema na revista Psychopharmacology e concluíram que ainda faltam respostas fundamentais sobre a relação entre memória autobiográfica e possíveis efeitos terapêuticos dos psicodélicos.

 

Falsas memórias: por que os cientistas defendem cautela

O ponto central da pesquisa é conhecido na psicologia: a memória não funciona como uma gravação exata do passado. Cada vez que uma pessoa recorda um evento, ela reconstrói essa lembrança.

Experimentos sobre falsas memórias já demonstraram que sugestões, técnicas de entrevista e informações incorporadas posteriormente podem alterar esse processo. Ainda assim, o estudo ressalta que não existem evidências conclusivas de que pessoas sob efeito de substâncias psicodélicas sejam mais suscetíveis à criação de falsas memórias.

Os pesquisadores reconhecem apenas indícios indiretos, como um possível aumento da sugestibilidade e uma sensação maior de certeza sobre as lembranças, fatores que, isoladamente, não constituem prova científica.

Para investigar o tema, o projeto utilizará palavras, imagens, cenários de realidade virtual e diários pessoais. O desafio será verificar como esses resultados se aplicam à memória autobiográfica, onde raramente existe um registro independente capaz de confirmar os fatos com precisão.

Segundo o site, Kangaslampi também alerta que profissionais não devem induzir pacientes a buscar memórias previamente indisponíveis nem tratar como fatos cenas que surgem durante sessões psicodélicas.

A precaução, de acordo com os pesquisadores, faz parte de uma estratégia de redução de danos, já que experiências psicodélicas sem uma rede adequada de apoio podem se tornar uma fonte adicional de sofrimento.

Enquanto o interesse terapêutico em psicodélicos continua crescendo em diferentes países, a ciência ainda tenta responder perguntas básicas sobre memória, trauma e percepção. E uma delas permanece aberta: uma lembrança intensa pode parecer absolutamente real, sem que isso seja suficiente para confirmar que ela aconteceu exatamente daquela maneira.

Fonte: Cañamo.