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Produção de cânhamo perde espaço para grãos no Canadá

A produção de cânhamo destinada à floração despencou no Canadá em 2025, enquanto o cultivo para grãos ganhou espaço e concentrou 84% da área declarada. Veja!

Produção de cânhamo perde espaço para grãos no Canadá
Produção de cânhamo no Canadá muda de perfil, com forte queda na área destinada às flores em 2025 | CanvaPro

A produção de cânhamo no Canadá atravessa uma mudança silenciosa, mas expressiva. Em 2025, a área declarada para o cultivo de flores caiu cerca de 89% em relação ao ano anterior, enquanto os produtores concentraram cada vez mais espaço no cultivo destinado a grãos. Os dados mostram não exatamente o desaparecimento do cânhamo canadense, mas uma transformação nas escolhas de quem planta e, principalmente, nos mercados que conseguem sustentar essa produção.

As informações foram obtidas a partir dos avisos de cultivo enviados à Health Canada e analisadas pelo veículo especializado Cañamo. O levantamento aponta que o Canadá declarou 15.380,81 hectares de cânhamo industrial em 2025, apenas 2,5% abaixo da área registrada no ano anterior.

A fotografia mais ampla, portanto, não é a de um setor em colapso. É a de um mercado que está escolhendo onde colocar suas sementes e deixando algumas possibilidades, como a flor, cada vez menores.

 

Produção de cânhamo muda de direção no Canadá

Em 2025, 12.859,33 hectares foram declarados para o cultivo de grãos, o equivalente a aproximadamente 84% de toda a área comunicada às autoridades canadenses.

O número representa um crescimento de 53% em relação a 2024 e reforça o peso histórico do grão dentro da cadeia produtiva do cânhamo no país. Segundo a reportagem publicada pelo Cañamo, mercados alimentares domésticos e de exportação ajudam a explicar essa concentração.

Enquanto isso, a produção de cânhamo voltada à flor perdeu espaço de maneira muito mais acentuada.

A área destinada à floração passou de aproximadamente 4.600 hectares em 2024 para apenas 515,79 hectares em 2025. A redução chega a cerca de 89%.

É uma queda que chama atenção, especialmente porque as flores são uma das partes da planta associadas à obtenção de CBD e outros canabinoides.

Mas existe uma ressalva importante: o dado mede área declarada de cultivo, e não quantidade efetivamente colhida, rendimento por hectare, volume comercializado ou valor das vendas.

SAIBA MAIS: Entenda a diferença entre cânhamo industrial e cannabis

Por que a produção de cânhamo para flor caiu?

A resposta parece estar menos relacionada à capacidade agrícola do Canadá e mais às condições econômicas que cercam determinados usos da planta.

Quando um agricultor decide o que plantar, a produtividade é apenas uma parte da equação. Também entram nessa conta a existência de compradores, infraestrutura para processamento, previsibilidade regulatória e possibilidade de comercialização.

No caso da flor, a retração registrada em 2025 pode indicar justamente uma dificuldade maior de transformar o cultivo em um negócio sustentável.

O levantamento mostra que a área destinada à fibra também caiu. Foram 933,26 hectares em 2025, contra 1.865 hectares no ano anterior. Em 2023, a área havia chegado a 3.260 hectares.

Segundo a análise do Cañamo, a falta de infraestrutura para processar os talos em escala comercial continua sendo um obstáculo para o segmento de fibras.

Na prática, não basta plantar.

É preciso existir uma cadeia capaz de receber, processar e comprar aquilo que sai do campo.

 

Tiago Zamponi aponta os gargalos do cânhamo no Canadá

 

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“O capital não fugiu da inovação”, diz Tiago Zamponi | Foto: Divulgação

Para Tiago Zamponi, Executivo de Indústrias Reguladas nas áreas de Cannabis e Life Sciences e colunista do Portal Sechat, os dados não devem ser interpretados como uma simples consolidação do mercado de produção de cânhamo em torno dos grãos. 

“Não vejo nem uma coisa nem outra. A pergunta assume um movimento único, mas são três fenômenos com causas diferentes”, afirma. Segundo ele, o avanço de 53% dos grãos representa um retorno ao segmento que nunca enfrentou uma crise estrutural, sustentado por uma cadeia madura, demanda e padrões de qualidade mensuráveis. Já a retração da fibra seria resultado de um gargalo industrial, principalmente pela falta de capacidade de decorticação. 

No caso das flores, Zamponi avalia que a queda de 89% está ligada à expectativa frustrada de uma mudança regulatória para permitir a comercialização de CBD sem receita. “O capital não fugiu da inovação, fugiu da incerteza”, resume.

A análise também traz uma provocação para o Brasil. Na avaliação do colunista, caso a regulamentação dos derivados não avance com a mesma clareza e velocidade da regulamentação do cultivo aberta pela RDC 1.013, produtores brasileiros podem seguir caminho semelhante ao observado no Canadá, migrando para usos de menor valor agregado e maior liquidez. 

“O que separa uma commodity agrícola de um insumo farmacêutico nunca foi a planta foi sempre a infraestrutura de dados construída em torno dela”, conclui Zamponi.

Produção de cânhamo para CBD também sente o impacto

A queda observada na flor merece atenção porque esse segmento está relacionado à produção de matérias-primas destinadas ao CBD e a outros canabinoides.

Ainda assim, é importante não transformar a estatística em uma conclusão maior do que ela permite.

Os dados de 2025 não significam que todo o cultivo de cânhamo destinado ao CBD tenha diminuído 89%. O percentual se refere especificamente à área declarada para flores.

Essa diferença é fundamental para compreender a notícia.

Uma redução na quantidade de hectares cultivados para flor não informa, sozinha, quanto CBD foi produzido, qual foi o rendimento das plantações ou quanto dinheiro movimentou o segmento.

É uma fotografia da área plantada — e não um balanço completo do mercado.

A própria Health Canada informa que os produtores licenciados precisam comunicar dados como a variedade cultivada, o número de hectares e a finalidade do cultivo.

 

O que aconteceu com a fibra de cânhamo?

A fibra segue uma trajetória semelhante à observada nas flores, embora em uma escala diferente.

A área declarada para esse uso caiu de 1.865 hectares, em 2024, para 933,26 hectares, em 2025. O resultado representa uma redução de aproximadamente 50%.

A explicação apresentada pelo Cañamo passa novamente pela infraestrutura.

Sem unidades de processamento próximas às áreas agrícolas e sem compradores estáveis, o custo de levar a matéria-prima até o mercado pode comprometer a viabilidade econômica do cultivo.

Esse cenário ajuda a explicar por que o grão voltou a ocupar posição tão dominante.

Quando existe uma cadeia comercial mais consolidada, o risco para o produtor tende a ser menor.

 

Canadá concentra cultivo em mercados mais consolidados

Os números de 2025 revelam uma espécie de seleção natural dentro do setor.

O cânhamo não desapareceu das lavouras canadenses. A área total permaneceu relativamente estável. O que mudou foi a finalidade declarada do cultivo.

O grão ganhou espaço.

A flor perdeu espaço.

A fibra também recuou.

Segundo o levantamento, essa movimentação sugere uma especialização do mercado canadense em torno dos segmentos com canais comerciais mais estruturados.

Esse movimento também pode ser observado em outros setores agrícolas: quando determinada matéria-prima encontra compradores, processamento e demanda previsíveis, ela tende a ganhar escala.

Quando essas condições não existem, a produção encolhe.

SAIBA MAIS: Cânhamo: uma planta capaz de movimentar 10 indústrias

 

Apenas parte dos produtores apresentou os dados

Existe ainda uma limitação importante no levantamento.

De acordo com os dados analisados pelo Cáñamo, somente 34% dos titulares autorizados a cultivar apresentaram resultados referentes aos avisos de cultivo de 2025. O percentual é superior aos 24% registrados em 2023, mas ainda significa que os números não representam necessariamente um censo completo de toda a atividade.

Por isso, a queda de 89% deve ser interpretada com cautela.

Ela representa a comparação entre as áreas declaradas para flor nos dados disponíveis, e não necessariamente uma redução equivalente em todo o mercado canadense.

Ao final de 2025, o Canadá tinha 585 licenças industriais ativas, sendo 519 relacionadas ao cultivo, segundo o levantamento.

 

Como funciona a regulamentação do cânhamo no Canadá?

O cânhamo industrial é regulamentado no Canadá dentro de um sistema específico ligado à legislação de cannabis.

A Health Canada define o cânhamo industrial como uma planta de cannabis — ou parte dela — cuja concentração de THC nas flores e folhas seja de até 0,3% em peso. Para cultivar cânhamo industrial, é necessária uma licença emitida pela Health Canada.

Os produtores também precisam cumprir requisitos relacionados às variedades autorizadas e às informações que devem ser comunicadas às autoridades.

Entre os dados exigidos estão a variedade cultivada, a área utilizada e a finalidade do cultivo.

A regulamentação também diferencia atividades relacionadas ao cânhamo industrial de outras atividades envolvendo cannabis. Por exemplo, a produção de determinados derivados a partir das flores, folhas ou galhos pode exigir uma licença de processamento de cannabis.

Essa estrutura regulatória ajuda a entender por que números de área cultivada precisam ser analisados junto com as regras que determinam o que pode ser produzido, processado e comercializado.

 

O que os números revelam sobre o futuro?

Talvez a principal mensagem dos dados canadenses esteja justamente no contraste.

De um lado, a área total cultivada permaneceu próxima da registrada anteriormente.

De outro, a distribuição dessa área mudou radicalmente.

A produção de cânhamo voltada ao grão avançou, enquanto flores e fibras perderam espaço. Isso sugere que os agricultores estão priorizando usos com maior previsibilidade comercial.

Não significa que flores de cânhamo ou produtos derivados de canabinoides tenham deixado de existir no Canadá.

Significa que, diante das condições atuais, o produtor parece encontrar mais segurança econômica no grão.

Para o setor de cannabis e cânhamo, esse movimento merece acompanhamento. Afinal, mudanças na área cultivada podem antecipar transformações na oferta de matérias-primas, na indústria de processamento e nas estratégias de produtores e empresas.

No campo, cada hectare conta.

Mas, antes dele, existe uma pergunta ainda mais importante: quem está disposto a comprar o que será colhido?

No caso canadense, os dados de 2025 parecem oferecer uma resposta clara. O mercado está sinalizando preferência por segmentos com cadeias comerciais mais maduras, enquanto a flor e a fibra enfrentam desafios maiores para transformar potencial agrícola em atividade econômica sustentável.

A produção de cânhamo, portanto, não está simplesmente desaparecendo.

Ela está mudando de lugar dentro da própria planta — e dentro do próprio mercado.