Relatório alemão aponta redução de 84,5% no uso de medicamentos prescritos entre pacientes tratados com cannabis medicinal
Levantamento da Bloomwell Group, realizado com mais de 3,5 mil pacientes na Alemanha, indica diminuição expressiva no consumo de opioides, antidepressivos, hipnóticos e outros medicamentos após o início da terapia com cannabis medicinal.

Pacientes em tratamento com cannabis medicinal na Alemanha reduziram, em média, 84,5% o uso de medicamentos prescritos após iniciarem a terapia. O dado faz parte do relatório The Cannabis Barometer Q1 2026, elaborado pela empresa alemã Bloomwell Group, que analisou respostas de 3.528 pacientes e dados anonimizados de prescrições médicas emitidas entre janeiro de 2024 e março de 2026.
Segundo o levantamento, 58,9% dos participantes conseguiram interromper completamente pelo menos um medicamento prescrito anteriormente. Os pesquisadores observaram reduções em diferentes classes terapêuticas, incluindo analgésicos, opioides, antidepressivos, medicamentos para dormir, corticoides e fármacos utilizados no tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH).
Entre os resultados mais expressivos estão os relacionados aos medicamentos para dormir. De acordo com o relatório, 93,6% dos pacientes reduziram esse tipo de medicamento em pelo menos 50%, enquanto 75,5% relataram ter interrompido completamente seu uso após o início da terapia com cannabis medicinal.
A pesquisa também aponta impacto significativo sobre os opioides. Entre os pacientes que utilizavam essa classe de medicamentos, a redução média foi de 83,9%, e 61% afirmaram ter suspendido totalmente o tratamento com opioides.
Outro destaque foi observado entre pacientes que faziam uso de medicamentos à base de metilfenidato, como aqueles indicados para TDAH. Nesse grupo, a redução média foi de 88,4%, sendo que 77,3% dos participantes relataram interrupção completa do tratamento.
Redução dos efeitos colaterais
Além da diminuição do consumo de medicamentos convencionais, o relatório investigou a percepção dos pacientes em relação aos efeitos adversos dos tratamentos.
Segundo os dados, 60,7% dos entrevistados afirmaram não apresentar mais efeitos colaterais relacionados aos medicamentos após iniciarem a terapia com cannabis medicinal. Outros 37,9% disseram perceber redução desses efeitos, enquanto apenas 1,4% relataram que eles permaneceram iguais ou se intensificaram.
Entre os pacientes que conseguiram interromper completamente o uso de opioides, 70,1% relataram não apresentar mais efeitos colaterais associados ao tratamento anterior.
Impactos na qualidade de vida
O levantamento também avaliou aspectos relacionados ao cotidiano dos pacientes. Entre os entrevistados, 67,8% relataram melhora na capacidade de concentração; 61,9% disseram ter ampliado suas interações sociais; e 53,9% afirmaram apresentar menos afastamentos do trabalho por motivos de saúde após o início da terapia com cannabis medicinal.
Metodologia
O The Cannabis Barometer Q1 2026 foi elaborado pela Bloomwell Group, empresa alemã especializada em cannabis medicinal e saúde digital. Para esta edição, foram entrevistados online 3.528 pacientes durante março de 2026. Paralelamente, a empresa analisou um banco de dados composto por prescrições médicas anonimizadas emitidas entre janeiro de 2024 e março de 2026 por meio de sua plataforma e de farmácias parceiras na Alemanha. Segundo os autores, os dados referentes a março de 2026 foram extrapolados e podem sofrer pequenos ajustes posteriores.
Resultados devem ser interpretados com cautela
Embora os resultados indiquem uma associação entre o uso de cannabis medicinal e a redução de medicamentos prescritos, o relatório não corresponde a um ensaio clínico randomizado publicado em periódico científico. Trata-se de uma pesquisa baseada em autorrelatos de pacientes e na análise de dados reais de prescrições (real-world data), metodologia que permite observar tendências na prática clínica, mas não estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre a cannabis medicinal e os desfechos observados.
Ainda assim, os dados reforçam uma discussão crescente na literatura científica sobre o potencial da cannabis medicinal como terapia complementar em determinadas condições clínicas, especialmente nos casos em que pacientes fazem uso simultâneo de múltiplos medicamentos e convivem com efeitos adversos associados aos tratamentos convencionais.
