"Se tiver pena de morte, vão deixar de cultivar maconha?" questiona advogado Emílio Figueiredo, da Reforma Drogas

"Se tiver pena de morte, vão deixar de cultivar maconha?" questiona advogado Emílio Figueiredo, da Reforma Drogas

O advogado Emílio Figueiredo é fundador da Rede Jurídica pela Reforma da Política de Drogas, um coletivo de juristas que busca facilitar o acesso à Justiça para pessoas atingidas pela proibição das drogas, sobretudo pacientes de cannabis medicinal. Ele participa ativamente de manifestações e congressos sobre o tema. No domingo (30), palestrou no 2º Seminário Internacional Cannabis Medicinal - um olhar para o futuro, quando mais uma vez fez fortes críticas a essa política. Para o jurista, mesmo que houvesse pena de morte no Brasil para quem planta maconha, as pessoas continuariam cultivando.

Figueiredo participou do painel "Consulta pública e a regulamentação que precisamos" junto com o ex-diretor da Anvisa Ivo Bucaresky e o fundador da Associação de Apoio à Pesquisa e a Pacientes de Maconha Medicinal (Apepi) Marcos Langebach. A mesa foi mediada por Tarso Araújo, diretor do documentário Ilegal.

O jornalista iniciou o debate apresentado a proposta da Anvisa para o plantio de cannabis medicinal no Brasil. Ele criticou o texto por, entre outras questões, não incluir o cultivo externo nem as associações. Ivo Bucaresky ponderou que, "politicamente, só se consegue passar uma pauta dessas se houve uma segurança rígida".

O ex-diretor citou dois casos em que o Congresso passou por cima da agência: quando a Câmara derrubou a proibição dos remédios anorexígenos para emagrecer e quando o Senado aprovou o uso da fosfoetanolamina, a "pílula do câncer", antes mesmo da sua regulação na Anvisa.

"Então pode vir um decreto legislativo e regredir tudo", alertou.

Ele também afirmou que, mesmo com todas essas exigências, os setores conservadores da sociedade estão se organizando contra a regulação.

Marcos Langebach pediu mais pressão política da sociedade para regular o cultivo particular e o associativo. Para ele, a proposta deve seguir quatro pilares: plantio individual, associativo, por empresas e pesquisas. "O autocultivo é fundamental em qualquer modelo de regulamentação", sustenta.

Já o advogado Emílio Figueiredo defendeu que a regulamentação da cannabis no Brasil venha com um aspecto social. Ele questionou até quando a política pública sobre drogas vai ser baseada no "medo":

"A gente acaba embargando várias formas de uso, de crescimento social porque a gente tem medo. O fato social já está aí, as associações, o cultivo doméstico. Se a Anvisa não permitir, as associações vão parar de cultivar? Se não regular, vão deixar de cultivar? Se tiver pena de morte, vão deixar de cultivar?"

Com um auditório lotado, o painel teve intensa participação do público, que reagiu com espanto à última pergunta do advogado. Sem um consenso na plateia, Emílio respondeu: "acho que não. Na Indonésia tem pena de morte para tráfico e as pessoas traficam!".

O 2º Seminário Internacional Cannabis Medicinal - um olhar para o futuro reuniu palestrantes de sete países no Istituto Europeo de Design, na Urca.

Foto: Reprodução/Apepi