O trabalho revolucionário do Padre Ticão por justiça social tem que continuar

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Autores do artigo destacam que o Padre Ticão (foto) estava sendo perseguido há algum tempo por levar suas posições a favor da regulamentação da Cannabis para uso medicinal no Brasil para dentro da sua igreja (Foto: Divulgação/Apepi)

Por Margarete Brito, Marcos Lins e Livia Freitas*

Padre Ticão morreu na noite de sexta-feira (1º), após ser internado, na quarta-feira (30), no hospital Santa Marcelina, por uma crise de hipertensão. Ele era cardíaco e vinha passando por um momento conturbado de perseguições políticas e ameaças por ser um padre humanista abordando a questão polêmica da Cannabis medicinal em sua a sua liturgia.

Há tanto tempo na região, o padre ficou conhecido pelas lutas que encabeça ao lado do povo, notadamente as causas sociais de moradia e saúde. Ele deixa sua paróquia órfã de um trabalho de acolhimento de pessoas que buscavam ajuda para diversas questões que não encontravam em outros lugares, como saúde, educação, falta de moradia

Historicamente, embora o movimento religioso socialista dentro da igreja católica sempre tenha sido um movimento minoritário, foi de grande importância, principalmente para o desenvolvimento social e democrático, no combate aos grupos fascistas e na redemocratização em países como Portugal e Brasil, além de trazer à tona a discussão da relação entre a Igreja, os trabalhadores e o socialismo cristão. 

Nesse contexto, o Padre Ticão teve uma longa trajetória no sacerdócio: foram 42 anos, dos quais 38 à frente da igreja de São Francisco de Assis, localizada em Ermelino Matarazzo, na Zona Leste de São Paulo. Há tanto tempo na região, o padre ficou conhecido pelas lutas que encabeça ao lado do povo, notadamente as causas sociais de moradia e saúde. Ele deixa sua paróquia órfã de um trabalho de acolhimento de pessoas que buscavam ajuda para diversas questões que não encontravam em outros lugares, como saúde, educação, falta de moradia. Sua última vitória foi a construção de uma escola técnica no lugar onde seria construído um presídio na Zona Leste de SP. 

Além de ser um padre ativo, ele tinha muita escuta, não ficava na superfície dos problemas sociais da sua paróquia e por isso acabou incomodando a hierarquia católica paulista mais conservadora com questões como remédios à base de Cannabis

Além de ser um padre ativo, ele tinha muita escuta, não ficava na superfície dos problemas sociais da sua paróquia e por isso acabou incomodando a hierarquia católica paulista mais conservadora com questões como remédios à base de Cannabis.

O Padre Ticão faz parte de um grupo da igreja católica considerado mais progressista, assim como seu amigo, o padre Júlio Lancelotti, que é conhecido pela polêmica em ajudar moradores de rua com ações contrárias às políticas consideradas higienistas.

Como demonstra o vídeo (https://www.rainhamaria.com.br/Pagina/25799/A-erva-santa-do-padre-Ticao-Missa-da-Maconha-Como-e-que-e-) , o padre Ticão estava sendo perseguido há algum tempo por levar suas posições a favor da regulamentação da Cannabis para uso medicinal no Brasil para dentro da sua igreja. Além de cursos de capacitação, ele realizou no dia 06 de dezembro uma missa com relatos de pacientes que recebem os benefícios do uso de remédios à base de Cannabis, com uma simbólica distribuição de sementes.

O padre Ticão estava sendo perseguido há algum tempo por levar suas posições a favor da regulamentação da Cannabis para uso medicinal no Brasil para dentro da sua igreja

Ele, assim como Gandhi e Martin Luther king, era a favor da desobediência civil pacífica, e suas posições nas defesas dos mais pobres, necessitados e nas defesas das causas sociais, como o da Cannabis medicinal, demonstram quanto suas atitudes eram revolucionárias.

Em tempos sombrios como esse, em que precisamos de mais padres humanistas, a perda do Padre Ticão é irreparável e, assim como a comunidade da Zona Leste, todos os brasileiros esperamos que haja substitutos com a sensibilidade e a coragem para dar continuidade aos trabalhos que ele vinha desenvolvendo.

Em tempos sombrios como esse, em que precisamos de mais padres humanistas, a perda do Padre Ticão é irreparável e, assim como a comunidade da Zona Leste, todos os brasileiros esperamos que haja substitutos com a sensibilidade e a coragem para dar continuidade aos trabalhos que ele vinha desenvolvendo

Padres como Ticão e Júlio Lancelotti, ao criticarem o modelo de organização socioeconômica que valoriza princípios opostos ao cristianismo como o individualismo, acabam sendo perseguidos por tirar uma ala conservadora da zona de conforto.

*Margarete Brito, Marcos Lins e Livia Freitas integram a Apepi (Associação de Apoio à Pesquisa e Pacientes de Cannabis Medicinal)

As opiniões veiculadas nesse artigo são pessoais e inteira responsabilidade de seus autores.

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