Brasil pode liderar exportação de cannabis medicinal

Para a CEO da GS1 Brasil, padrões globais de rastreabilidade são o passaporte que falta ao país para conquistar mercados internacionais do setor

Published on 06/17/2026

Brasil pode liderar exportação de cannabis medicinal
Extraído da cannabis, o canabidiol (CBD) tem ganhado espaço na medicina por seus potenciais benefícios terapêuticos. Foto: ilustrativa Canva Pro

O mercado de cannabis medicinal no Brasil vive um momento de expansão acelerada, impulsionado pela recente autorização da Anvisa para a exportação de produtos do setor. Com a abertura para o comércio internacional, cresce também a exigência por rastreabilidade, qualidade e transparência em cada etapa da cadeia produtiva — do cultivo até a dispensação ao paciente.

 

Nesse contexto, os padrões globais da GS1, amplamente utilizados em setores altamente regulados como o de saúde, ganham protagonismo como ferramenta capaz de conectar produtores, distribuidores, reguladores e mercados internacionais em uma linguagem comum de identificação de produtos. Tecnologias como o código GS1 DataMatrix, por exemplo, permitem associar a cada unidade informações como lote, validade e número de série, reforçando o combate à falsificação e a segurança do paciente.

 

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Virginia Vaamonde, CEO da GS1 Brasil, destaca a importância da rastreabilidade no mercado de cannabis medicinal. Foto: Divulgação

Para entender como essas soluções se aplicam à cannabis medicinal — dos desafios de padronização para exportação à parceria entre GS1 e Embrapa voltada ao cultivo rastreável — O Sechat conversou com Virginia Vaamonde, CEO da GS1 Brasil (Associação Brasileira de Automação). Na entrevista a seguir, ela detalha o funcionamento prático da rastreabilidade ao longo da cadeia, o papel dos dados padronizados para o avanço científico do setor e as tendências que devem moldar o mercado nos próximos anos.

 

1. Exportação e interesse da GS1

Como a autorização da Anvisa para exportação impacta a demanda por soluções da GS1 no mercado de cannabis?

A autorização para exportação eleva o nível de exigência em relação à rastreabilidade e à qualidade das informações que acompanham o produto. Em mercados regulados, é fundamental garantir uma identificação única e padronizada em toda a cadeia. E é exatamente nesse ponto que os padrões GS1 agregam valor, permitindo que empresas brasileiras falem a mesma linguagem global e compartilhem dados de forma segura, confiável e interoperável.

Quais são os principais desafios de padronização para empresas brasileiras que desejam exportar cannabis medicinal?

O principal desafio é garantir que o produto possa ser identificado e rastreado de forma consistente desde a origem até o destino. Isso envolve utilizar identificações globais padronizadas, registrar informações regulatórias importantes, como lote, validade, entre outras, além de assegurar a integração dos dados entre diferentes sistemas e países. Em outras palavras, é preciso construir uma rastreabilidade robusta e transparente para atender às exigências dos mercados internacionais.

A GS1 já possui cases ou projetos piloto voltados para exportação de cannabis?

A GS1 já participa de iniciativas e projetos relacionados à rastreabilidade da cannabis em diferentes países. Um exemplo relevante é o trabalho desenvolvido na Argentina, onde os padrões GS1 foram aplicados para apoiar a rastreabilidade do cultivo medicinal de cannabis, permitindo maior controle, transparência e segurança das informações ao longo da cadeia produtiva.

Além do case da Argentina, vemos iniciativas em outros mercados, como Canadá, Estados Unidos e países da Europa, adotando princípios de identificação e rastreabilidade alinhados aos padrões globais. O ponto central é que a GS1 já possui uma infraestrutura utilizada mundialmente nos setores mais regulados da saúde, o que torna seus padrões uma base natural para apoiar a exportação e a rastreabilidade da cannabis medicinal.

 

 

2. Rastreamento da cadeia produtiva

Como funciona, na prática, o sistema de rastreabilidade da GS1 aplicado à cannabis?

Na prática, a GS1 fornece os padrões de identificação que permitem às empresas rastrear seus produtos ao longo de toda a cadeia. Por exemplo, um produto à base de cannabis com fins medicinais pode receber uma identificação única e ser marcado com informações como lote, validade e número de série no código bidimensional GS1 DataMatrix.

À medida que esse produto passa pelo cultivo, processamento, distribuição e dispensação, cada movimentação pode ser registrada pelos sistemas das empresas. Com isso, é possível saber, por exemplo, qual matéria-prima foi utilizada, em qual lote o produto foi fabricado, para qual distribuidor foi enviado e em qual estabelecimento foi dispensado.

O papel da GS1 é garantir que todos os participantes utilizem uma linguagem comum para identificar produtos, localização e compartilhar informações. Isso traz mais visibilidade, segurança e eficiência para a rastreabilidade em toda a cadeia.

O rastreamento cobre toda a cadeia, desde cultivo, processamento, distribuição até o varejo?

Os padrões GS1 foram desenvolvidos para conectar todos os elos da cadeia. Eles permitem que informações sobre o produto sejam identificadas e compartilhadas de forma padronizada entre produtores, fabricantes, distribuidores e dispensadores. Isso cria as condições necessárias para uma rastreabilidade mais eficiente e confiável ao longo de toda a jornada do produto.

Quais dados são capturados em cada etapa da cadeia?

Os principais dados capturados ao longo da cadeia são aqueles que permitem identificar de forma única o produto e acompanhar seu histórico, localização e movimentação. Entre eles estão o identificador do produto (GTIN – Global Trade Item Number), número de lote, prazo de validade e, quando aplicável, o número de série da unidade. Dependendo do processo e dos requisitos regulatórios, também podem ser acrescentadas outras informações.

O sistema é totalmente automatizado? Quais tecnologias estão envolvidas?

Os padrões GS1 possibilitam a automação, mas isso depende da infraestrutura de cada empresa. Na prática, tecnologias como códigos de barras bidimensionais, como GS1 DataMatrix, QR Code padrão GS1 e a tecnologia de leitura por RFID, permitem capturar informações de forma automática ao longo da cadeia. O resultado é mais agilidade nos processos, menos erros de registro e maior confiabilidade das informações compartilhadas entre os diferentes participantes.

Como a rastreabilidade ajuda no cumprimento das exigências regulatórias da Anvisa e de mercados internacionais?

A rastreabilidade é uma ferramenta fundamental para a conformidade regulatória. Ela permite identificar rapidamente a origem e o destino de cada produto, facilita processos de recall, ajuda no combate à falsificação e oferece evidências concretas de controle e segurança. Em um mercado altamente regulado como o da cannabis medicinal, isso é essencial tanto para atender às exigências da Anvisa quanto para acessar mercados internacionais.

 

 

3. Parceria com a Embrapa

Existe um projeto em andamento entre GS1 e Embrapa voltado para cannabis? Em que estágio ele está?

Estamos em uma fase inicial de aproximação e construção de conhecimento sobre o tema. Recentemente, estivemos no Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (INTA), na Argentina, junto à EMBRAPA para conhecer de perto a experiência de rastreabilidade aplicada ao cultivo medicinal de cannabis. Esse projeto contou com o apoio fundamental da GS1 Argentina, que compartilhou sua experiência na utilização de padrões GS1 para fazer o controle de toda a operação.

A iniciativa permitiu compreender como a rastreabilidade vem sendo aplicada na prática em um projeto de referência internacional e identificar aprendizados que podem contribuir para atender às exigências da ANVISA. Nesse contexto, a GS1 Brasil está à disposição para apoiar a EMBRAPA na conformidade regulatória em todos os seus processos.

Qual é o objetivo dessa parceria: pesquisa agrícola, padronização genética, controle de qualidade ou outro foco?

A parceria busca estabelecer uma base estruturada e confiável de dados que permita acompanhar todas as etapas do processo (do cultivo ao produto, incluindo as atividades de pesquisa). O objetivo é garantir que cada evento, procedimento e resultado possa ser registrado, relacionado e consultado de forma segura ao longo do tempo.

Essa abordagem fortalece a rastreabilidade, amplia a capacidade de controle, apoia a conformidade regulatória e melhora a qualidade das informações disponíveis para tomada de decisão. Além disso, a construção de um histórico consistente de dados cria condições para que pesquisas sejam revisitadas, comparadas e aprimoradas continuamente, contribuindo para avanços no cultivo, na geração de conhecimento científico e no desenvolvimento de melhores práticas para o setor.

Como a rastreabilidade pode contribuir para o desenvolvimento científico da cannabis no Brasil?

A rastreabilidade contribui para a ciência porque ajuda a garantir a qualidade e a confiabilidade dos dados. Com informações padronizadas sobre origem e processos produtivos, pesquisadores conseguem comparar resultados com mais segurança e reproduzir estudos de forma mais consistente. Em um mercado em evolução como o da cannabis, dados confiáveis são fundamentais para gerar conhecimento e apoiar a inovação.

 

 

4. Mercado interno vs. mercado internacional

Quais são as principais diferenças nas exigências de rastreabilidade entre o mercado interno e o externo?

Os mercados internacionais tendem a exigir um nível maior de rastreabilidade e padronização das informações. Em muitos casos, é necessário demonstrar com precisão a origem, a movimentação e as características do produto ao longo da cadeia. Por isso, a capacidade de identificar produtos de forma única e compartilhar dados de maneira padronizada torna-se um diferencial importante para empresas que desejam exportar e atender às exigências regulatórias de diferentes países.

O Brasil está preparado, em termos de infraestrutura e tecnologia, para atender padrões globais?

O Brasil já utiliza os mesmos padrões globais de identificação e rastreabilidade adotados em diversos países. A tecnologia e o conhecimento necessários estão disponíveis e são amplamente utilizados em setores como saúde. O principal desafio é ampliar a adoção desses padrões de forma integrada entre todos os participantes da cadeia, garantindo conformidade com as exigências dos mercados internacionais.

Pequenos produtores e associações conseguem acessar essas soluções ou ainda é algo restrito a grandes players?

Os padrões GS1 foram desenvolvidos para serem utilizados por organizações de diferentes portes e segmentos, desde pequenos produtores e associações até grandes indústrias e multinacionais. Como se trata de padrões globais de identificação e compartilhamento de dados, eles são escaláveis e podem ser implementados de acordo com a realidade e a necessidade de cada operação.

Na prática, o que muda não é o padrão utilizado, mas o nível de automação e a complexidade dos processos adotados por cada organização.

O aspecto mais importante é que todos utilizem uma linguagem comum. Isso permite que organizações de diferentes tamanhos participem da mesma cadeia de valor, compartilhem informações de forma padronizada e atendam com mais facilidade aos requisitos de mercado e regulatórios.

 

 

5. Soluções da GS1 para cannabis

Quais são as principais soluções que a GS1 oferece hoje para o setor de cannabis?

A GS1 oferece padrões globais de identificação e compartilhamento de dados que podem ser aplicados ao setor de cannabis. Eles permitem identificar produtos, locais e unidades logísticas, além de capturar informações por meio de códigos bidimensionais, como o GS1 DataMatrix. O resultado é uma cadeia mais conectada, com informações padronizadas, maior rastreabilidade e mais eficiência, inclusive quando falamos da segurança do paciente, que é um dos principais objetivos das regulamentações.

Como códigos de barras, QR Codes e padrões GS1 se aplicam a produtos à base de cannabis?

Com a utilização de códigos bidimensionais, como o GS1 DataMatrix e QR Code padrão GS1, é possível associar informações importantes ao produto, como lote, validade e, quando aplicável, número de série, além do código do produto (GTIN). Isso facilita a captura automática de dados ao longo da cadeia.

Existe uma solução específica ou adaptada para produtos farmacêuticos ou controlados?

Os padrões da GS1 são globais e amplamente utilizados em setores altamente regulados, como o setor farmacêutico. Por serem globais e interoperáveis, esses padrões podem ser aplicados também aos produtos à base de cannabis medicinal.

 

 

6. DataMatrix e identidade digital

O que é o código DataMatrix e como ele difere do código de barras tradicional?

O GS1 DataMatrix é um código bidimensional capaz de armazenar muito mais informações em um espaço menor do que um código de barras linear tradicional. Enquanto o código de barras convencional normalmente identifica apenas o produto (aqui no Brasil ele tem uma sequência de 13 dígitos), o GS1 DataMatrix pode reunir diversas informações de um produto. Por isso, ele é amplamente utilizado em setores que exigem maior controle.

Por que o DataMatrix é considerado mais adequado para o setor farmacêutico e de cannabis?

Porque esses setores exigem elevados níveis de controle e o GS1 DataMatrix possibilita a codificação de informações críticas em um espaço reduzido da embalagem, permitindo a identificação única de cada unidade e a captura automatizada de dados ao longo de toda a cadeia de suprimentos. Essa capacidade fortalece a rastreabilidade de ponta a ponta e contribui para a segurança do paciente. Por isso, o GS1 DataMatrix é amplamente adotado em programas de rastreabilidade de medicamentos e outros produtos regulados em diversos mercados ao redor do mundo.

Quais informações podem ser armazenadas nesse tipo de código?

O DataMatrix pode armazenar diferentes informações estruturadas. Entre as mais utilizadas estão o GTIN, que identifica o produto, o GLN (Global Location Number), que identifica uma localização, o número do lote, a data de validade e o número de série, quando aplicável. Dependendo da aplicação e dos requisitos regulatórios, outros identificadores padronizados da GS1 também podem ser incorporados.

Como ele contribui para rastreabilidade, combate à falsificação e segurança do paciente?

O GS1 DataMatrix permite que cada produto seja identificado de forma única por meio da associação de vários dados, possibilitando visibilidade sobre a origem, movimentação e destino dos produtos.

Essa capacidade facilita a localização rápida de lotes específicos, o que torna os processos de recall mais eficientes, além de apoiar mecanismos de verificação e autenticação, contribuindo para a identificação de produtos suspeitos ou potencialmente falsificados. Além disso, ao promover o compartilhamento de dados confiáveis entre os atores da cadeia de suprimentos, fortalece a transparência da cadeia e reduz riscos associados ao uso de produtos irregulares. E tudo isso aumenta a segurança do paciente que receberá um produto com histórico confiável.

 

 

7. Importância da rastreabilidade no mercado de cannabis

Por que a rastreabilidade é crítica para o desenvolvimento sustentável do mercado de cannabis?

A rastreabilidade é um dos pilares para o desenvolvimento sustentável de qualquer mercado regulado. No caso da cannabis medicinal, ela permite registrar e acompanhar informações sobre produtos e processos ao longo da cadeia. Isso é especialmente importante em um setor que precisa demonstrar conformidade regulatória, qualidade e segurança para ganhar escala e credibilidade. Quanto maior a capacidade de rastrear informações de forma consistente, maior a confiança de todos os envolvidos no ecossistema.

Como ela impacta a confiança do paciente, dos médicos e dos reguladores?

A rastreabilidade aumenta a confiança porque permite acessar informações mais precisas sobre a origem e o histórico do produto. Para os reguladores, ela fortalece a capacidade de fiscalização e monitoramento. Para os profissionais de saúde, contribui para uma maior transparência das informações disponíveis. E para os pacientes, representa mais segurança ao saber que existem mecanismos para identificar, localizar e verificar produtos ao longo da cadeia de fornecimento.

É possível falar em um padrão global de rastreabilidade para cannabis?

Embora cada país possua sua própria regulamentação, a necessidade de rastrear produtos de forma segura e confiável é algo comum aos países que trabalham com cannabis medicinal. Por isso, mais do que um modelo regulatório único, existe uma crescente convergência em torno de padrões globais de identificação e troca de dados. Os padrões GS1 contribuem para essa harmonização entre os diferentes elos da cadeia.

Quais riscos existem para empresas que não adotarem sistemas robustos de rastreio?

Empresas com baixa capacidade de rastreabilidade podem enfrentar dificuldades para atender requisitos regulatórios, realizar investigações de desvios de qualidade, conduzir recalls de forma eficiente e compartilhar informações com parceiros comerciais e autoridades. Além disso, em mercados cada vez mais exigentes, a falta de processos estruturados de identificação e rastreamento pode representar uma barreira para o crescimento, para a participação em cadeias globais de fornecimento e para o acesso a novos mercados.

 

 

8. Futuro e tendências

Quais são as principais tendências tecnológicas em rastreabilidade para os próximos anos?

Uma das principais tendências é a ampliação da visibilidade dos dados ao longo da cadeia de suprimentos. Estamos vendo uma evolução da simples identificação de produtos para o compartilhamento estruturado de eventos e informações entre diferentes organizações. Tecnologias de captura automática de dados, como o GS1 DataMatrix, QR Code padrão GS1 e RFID, devem ganhar cada vez mais relevância para permitir a escalabilidade em cadeias cada vez mais complexas e globalizadas.

Blockchain, IoT e inteligência artificial já fazem parte das soluções da GS1?

O papel da GS1 é fornecer os padrões globais que permitem que essas tecnologias utilizem dados consistentes e interoperáveis.

Na prática, tecnologias emergentes dependem de uma identificação confiável de produtos, locais e eventos para gerar valor. Por isso, os padrões GS1 são frequentemente utilizados como base em projetos que envolvem blockchain, sensores conectados, IoT e análise avançada de dados. Ou seja, a GS1 atua como a camada de padronização que possibilita a integração entre diferentes tecnologias e participantes da cadeia.

Como a GS1 enxerga o Brasil no cenário global da cannabis medicinal?

O Brasil possui atributos importantes para se consolidar como um protagonista no desenvolvimento do mercado de cannabis medicinal. O país conta com uma sólida experiência em setores altamente regulados, como o de saúde, além de uma comunidade científica reconhecida e uma crescente maturidade em temas relacionados à qualidade, rastreabilidade e conformidade regulatória.

Do ponto de vista da GS1, o Brasil já dispõe de padrões globais de identificação e compartilhamento de dados amplamente utilizados em diversos segmentos da economia. Isso cria uma base importante para o desenvolvimento de cadeias mais alinhadas às melhores práticas internacionais, por exemplo.

À medida que o mercado evolui, a capacidade de identificar produtos de forma única, compartilhar informações confiáveis e garantir rastreabilidade ao longo da cadeia tende a se tornar um diferencial competitivo cada vez mais relevante. E o Brasil já possui os elementos necessários para acompanhar essa evolução e se conectar aos mercados mais exigentes do mundo.