Estudo multicêntrico com cannabis para fibromialgia é travado no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos (GRU)
Pesquisa multicêntrica com cannabis para fibromialgia tem insumos retidos em Guarulhos e aguarda liberação da Anvisa após mais de um mês.
Published on 06/12/2026

Um dos estudos científicos mais relevantes já desenhados no Brasil para avaliar o uso de cannabis medicinal no tratamento da fibromialgia está com sua execução interrompida por entraves regulatórios. A pesquisa aguarda liberação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) após a carga com o insumo importado permanecer retida há mais de um mês no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos (GRU).
O ensaio clínico, considerado o primeiro multicêntrico do tipo no país e descrito como o maior do mundo dentro desse modelo, é conduzido em parceria entre a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e a Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste).
Com metodologia robusta — duplo-cego, randomizado e controlado por placebo — o estudo foi estruturado para avaliar, ao longo de seis meses, os efeitos da cannabis medicinal em 150 mulheres diagnosticadas com fibromialgia, com idades entre 18 e 60 anos. A condução ocorre simultaneamente em três centros de pesquisa.
Para garantir precisão e rastreabilidade dos resultados, os pesquisadores optaram por utilizar um óleo formulado com quatro canabinoides isolados e associados, importado do Uruguai. A composição inclui concentrações previamente quantificadas de canabidiol (CBD), tetrahidrocanabinol (THC), canabigerol (CBG) e canabinol (CBN), com doses rigorosamente controladas — o que permite uma análise detalhada da ação individual e combinada de cada composto.
Apesar de já contar com financiamento da Fundação Araucária e do NAPI Cannabis do Paraná, além de toda a estrutura operacional definida, o estudo segue paralisado. A carga contendo 715 frascos do insumo permanece retida, impactando diretamente o cronograma da pesquisa e o início do tratamento de mais de 100 pacientes já recrutados.
Segundo Francisney Nascimento, coordenador geral do estudo, o impasse estaria relacionado à implementação de um novo sistema que integra procedimentos da Anvisa e da Receita Federal.

“Não conseguimos apoio das instituições para destravar o desembaraço da carga. Nosso grupo realizou recentemente outra importação também oriunda do Uruguai, iniciada depois, que já foi recebida pela universidade. Da Anvisa, recebemos a orientação de realizar um procedimento dentro do novo sistema, mas ele não está disponível no nosso login. Também não conseguimos contato por telefone, apenas por e-mail, o que dificulta muito a resolução. Assim, nossos 715 frascos seguem travados e mais de 100 pacientes aguardam o início do tratamento”, afirma.
Procurada pela reportagem, a Anvisa foi informada sobre o caso assim que a notícia foi publicada, sendo assim, aguardamos um posicionamento oficial da agência nacional de regulação.

