Flores inaladas de cannabis avançam no Brasil e podem redefinir tratamentos médicos

Em entrevista, Alexandre Machado, presidente da ABECMED, detalha o potencial terapêutico, os desafios regulatórios e o avanço do uso inalado de cannabis no país

Published on 06/16/2026

Flores inaladas de cannabis avançam no Brasil e podem redefinir tratamentos médicos
Alexandre Machado, presidente da ABECMED, destaca os benefícios terapêuticos das flores de cannabis inaladas

O uso medicinal da cannabis no Brasil está entrando em uma nova fase — e ela passa diretamente pelas flores inaladas. Enquanto a regulamentação ainda evolui, a prática clínica e a demanda dos pacientes avançam rapidamente, consolidando uma tendência que já domina mercados internacionais.

À frente desse movimento está a Associação Brasileira de Estudos Canábicos (ABECMED), entidade sem fins lucrativos dedicada a garantir acesso seguro e responsável aos tratamentos com cannabis. Em entrevista à reportagem, o presidente da associação, Alexandre Machado, traça um panorama técnico e estratégico sobre o uso de flores inaladas — uma via que pode transformar a forma como pacientes lidam com dor, insônia e doenças complexas.

 

Potencial de mercado é “imensurável”

 

Segundo Machado, o mercado de flores de cannabis para uso inalado no Brasil tem um potencial praticamente impossível de medir neste momento.

“É imensurável a proporção de pacientes que irão aderir a esse tratamento”, afirma.

Ele destaca que, em países como Austrália, Alemanha, Tailândia e Estados Unidos, a via inalatória já se consolidou como a principal forma de administração medicinal.

No Brasil, apesar das incertezas regulatórias, houve avanço com a RDC 1.015/26 da Anvisa, que reconhece a via inalatória sob prescrição médica e autoriza o uso por vaporização. Ainda assim, a norma é alvo de críticas.

Machado questiona especialmente as restrições ao uso de THC acima de 0,2% para determinados grupos, classificando a medida como sem base científica sólida — sobretudo considerando que idosos e crianças estão entre os pacientes que mais se beneficiam do tratamento, segundo dados da associação.

 

Vaporização é mais segura, mas acesso ainda é limitado

 

O uso inalado das flores se divide em duas formas principais: vaporização e combustão.

A vaporização é considerada a mais segura, pois aquece a planta sem queima, liberando canabinoides e terpenos em forma de vapor. Com controle de temperatura entre cerca de 160°C e 200°C, o paciente consegue modular os compostos liberados, acessando diferentes efeitos terapêuticos.

Estudos internacionais reforçam os benefícios:

  • Redução de até 99% na exposição a toxinas
  • Melhora significativa na saúde respiratória
  • Alta eficiência na absorção de canabinoides

 

Apesar disso, o acesso ainda é um desafio. Vaporizadores certificados, comuns em outros países, enfrentam barreiras regulatórias no Brasil e muitas vezes são confundidos com dispositivos prejudiciais à saúde, como vapes de óleo.

Já a combustão — feita por cigarros ou outros dispositivos — continua sendo a forma mais popular, principalmente pelo custo mais baixo e efeito imediato mais intenso, embora apresente riscos à saúde respiratória.

 

Indicações clínicas vão de dor crônica a cuidados paliativos

 

De acordo com dados da ABECMED, a via inalatória é especialmente indicada para casos em que a rapidez de ação é essencial.

Entre as principais aplicações estão:

  • Dores crônicas e neuropáticas
  • Insônia
  • Pacientes em quimioterapia
  • Redução de danos e tratamento de dependências
  • Doenças neurodegenerativas
  • Cuidados paliativos

 

O perfil mais comum é de pacientes refratários — aqueles que já tentaram diversos tratamentos sem sucesso.

A associação também observa respostas expressivas em idosos, crianças neurodivergentes e até animais, que apresentam melhora rápida com o uso da cannabis.

 

Evidências apontam melhora na qualidade de vida

 

Embora o Brasil ainda desenvolva sua base científica, estudos internacionais já demonstram eficácia do uso inalado.

Pacientes com múltiplas comorbidades, especialmente com dor crônica, apresentam melhor resposta com essa via. Outras condições com melhora incluem fibromialgia, ansiedade, insônia e sintomas associados à quimioterapia.

Do ponto de vista farmacológico, a absorção pulmonar permite que os canabinoides cheguem rapidamente à corrente sanguínea, com efeitos imediatos — e, em alguns casos, até superiores aos da cannabis fumada, exigindo atenção à dosagem.

 

Efeito imediato e menor impacto no fígado

 

Alexandre explica que entre os principais benefícios das flores inaladas está a ação rápida. Diferente da via oral, os compostos não passam pelo fígado, chegando diretamente à corrente sanguínea pelos pulmões.

Isso permite:

  • Alívio imediato em crises
  • Menor sobrecarga hepática
  • Maior controle da dose
  • Uso de um produto menos processado

 

A chamada “dose de resgate” é um dos diferenciais, especialmente em situações de dor aguda.

O acompanhamento médico, no entanto, é essencial. O ajuste da dosagem deve ser feito de forma contínua, principalmente no início do tratamento.

 

Rigor no cultivo e controle de qualidade

 

Segundo o presidente, a ABECMED adota um modelo rigoroso de produção e controle de qualidade das flores.

O processo inclui:

  • Seleção genética com origem definida
  • Cultivo em diferentes ambientes controlados
  • Rastreabilidade completa por planta
  • Testes laboratoriais independentes por lote

 

"As plantas são clonadas a partir de espécies estabilizadas, garantindo padronização de efeitos e perfil químico. A embalagem também é projetada para preservar os terpenos, compostos essenciais para o efeito terapêutico", explicou.

A associação destaca ainda que possui autorização judicial definitiva para atuação, sendo uma das pioneiras no país nesse modelo.

 

Genéticas e o papel do “efeito comitiva”

 

A escolha das variedades de cannabis é um dos fatores mais importantes no tratamento.

Segundo Machado, há diferenças regionais claras no Brasil: enquanto pacientes do Sudeste tendem a preferir perfis mais sedativos, no Norte e Nordeste há maior demanda por efeitos energéticos.

Entre as genéticas citadas estão:

  • 24K e La Fanta: perfil mais energético
  • Ozzy (família OG): efeito relaxante

 

A eficácia terapêutica não depende apenas do THC ou CBD isolados, mas da combinação de compostos presentes na planta — o chamado “efeito comitiva”, que potencializa os resultados.

 

O desafio regulatório ainda limita o avanço

 

Apesar dos avanços recentes, o Brasil ainda enfrenta entraves importantes para consolidar o uso de flores inaladas.

Questões como acesso a equipamentos, definição de limites de THC e maior clareza regulatória seguem como desafios.

Para a ABECMED, o avanço depende de ciência, educação médica e atualização das normas com base em evidências.

O movimento, no entanto, já está em curso.

Alexandre diz que as flores inaladas deixaram de ser tendência — e passaram a ocupar um papel central no futuro da cannabis medicinal.