Estudo brasileiro aponta melhora do sono e da qualidade de vida com uso prolongado de cannabis rica em THC

Pesquisa realizada em contexto real com 71 pacientes atendidos por associação de cannabis medicinal em Franca (SP) identificou melhores indicadores de qualidade de vida e sono entre usuários de longo prazo de óleo integral rico em THC

Publicado en 18/06/2026

Estudo brasileiro aponta melhora do sono e da qualidade de vida com uso prolongado de cannabis rica em THC
Realizado pela Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), estudo em contexto de vida real acompanhou pacientes em uso de óleos integrais de cannabis ricos em THC e identificou melhora nos indicadores de qualidade de vida e qualidade do sono entre

Quando a médica e pesquisadora Janniny Fernanda Lopes Mendes Figueiredo iniciou, em 2025, um estudo para investigar os efeitos da cannabis medicinal em pacientes com diferentes condições de saúde, a proposta era simples: ouvir quem convive diariamente com a doença e entender como o tratamento impactava sua vida real.

Agora, os resultados começam a responder algumas dessas perguntas.

Conduzida pela Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), sob orientação da doutora e PhD Vanessa de Andrade Royo, a pesquisa avaliou 71 pacientes atendidos pela Associação Flor da Vida, em Franca (SP), que utilizam óleo integral de cannabis rico em THC na proporção 3:1 (THC).

O estudo analisou indicadores de qualidade de vida e qualidade do sono por meio dos questionários internacionalmente validados WHOQOL-BREF e Pittsburgh Sleep Quality Index (PSQI).

Os resultados mostraram que pacientes em uso prolongado da terapia apresentaram desfechos mais favoráveis, especialmente aqueles que utilizavam os óleos há mais de um ano, com destaque para o grupo em tratamento há mais de três anos. Mais de 70% dos participantes relataram melhora na qualidade de vida e no sono.

Uso prolongado chamou a atenção dos pesquisadores

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Pesquisadores da Unimontes conduziram estudo com 71 pacientes em uso de cannabis medicinal | Divulgação

Entre os achados que mais despertaram interesse está a associação entre o tempo de tratamento e os resultados observados. Pacientes com maior tempo de uso apresentaram ganhos mais expressivos nos domínios físico, psicológico e ambiental avaliados pelo WHOQOL-BREF, além de melhores indicadores relacionados ao sono.

Embora o resultado dialogue com um tema frequentemente cercado de controvérsias, Janniny ressalta que os dados devem ser interpretados com cautela. “O que os dados sugerem é uma percepção favorável relatada pelos próprios pacientes em um contexto de uso supervisionado medicamente, com titulação gradual e acompanhamento individualizado”, explica.

Segundo a pesquisadora, o cenário estudado é diferente daquele frequentemente associado aos riscos psiquiátricos atribuídos ao THC. “É fundamental distinguir esse contexto do uso recreativo ou não supervisionado, que é onde a maior parte dos riscos relacionados ao THC crônico foi documentada. Nosso estudo não contradiz a literatura existente. Ele apenas observa que pacientes adultos acompanhados clinicamente relataram percepções subjetivas favoráveis”, afirma.

O tempo de tratamento pode ser uma variável importante

Outro aspecto que chamou a atenção da equipe foi o papel do tempo de exposição aos canabinoides.

A análise estatística apontou que pacientes com menor duração de tratamento apresentaram menor probabilidade de relatar resultados positivos quando comparados aos usuários com mais de três anos de acompanhamento.

Para Janniny, essa observação sugere que a adaptação do organismo ao tratamento pode ter um papel relevante. “Uma hipótese que merece investigação é que o tempo de tratamento reflita um processo de titulação e adaptação fisiológica. O sistema endocanabinoide é altamente dinâmico, e o ajuste fino da dose ao longo do acompanhamento pode ser determinante para que o paciente atinja um ponto de equilíbrio terapêutico”, destaca.

Idosos, autistas e pacientes negros apresentaram resultados mais favoráveis

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A pesquisadora Janniny Figueiredo analisou os efeitos do uso prolongado de cannabis rica em THC | Divulgação

A pesquisa também identificou respostas positivas em alguns grupos específicos. Entre eles estão idosos com mais de 80 anos, crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) níveis 2 e 3 de suporte e pacientes autodeclarados negros.

Segundo a pesquisadora, os resultados observados em idosos podem estar relacionados à forma como diferentes faixas etárias percebem ganhos terapêuticos e convivem com doenças crônicas.

Já em relação ao autismo, os achados acompanham sinais já descritos em estudos preliminares sobre benefícios potenciais da cannabis para comportamento e sono, embora a literatura ainda demande pesquisas mais robustas e padronizadas.

No caso das diferenças observadas entre grupos raciais, Janniny faz um alerta importante: “a interpretação não deve ser biologizante. Os mecanismos mais prováveis são estruturais e psicossociais. Estigma, experiências anteriores com o sistema de saúde, acesso ao cuidado e suporte social podem influenciar a forma como diferentes grupos percebem e relatam seus desfechos terapêuticos”.

Evidências do mundo real ajudam a ampliar o debate científico

Os participantes da pesquisa representavam uma população bastante diversa, incluindo pessoas com doenças neurodegenerativas, transtornos psiquiátricos, condições musculoesqueléticas, câncer e pacientes neurodivergentes.

Entre os diagnósticos mais frequentes estavam Parkinson, Alzheimer, autismo, TDAH, dor crônica e fibromialgia.

Além da análise transversal, o projeto também resultou em três relatos de caso envolvendo uma paciente com endometriose profunda refratária, um paciente com transtorno obsessivo-compulsivo refratário e uma criança com Síndrome de Tourette.

Ao todo, a iniciativa gerou quatro artigos científicos e dois cursos voltados à capacitação de profissionais de saúde para a prescrição de cannabis medicinal.

Para a pesquisadora, o principal legado do trabalho é mostrar que os dados observados em contextos reais merecem atenção da comunidade científica.

“A mensagem não é que o THC seja comprovadamente seguro e eficaz para todas as situações. A mensagem é que existe sinal suficiente de efetividade percebida em contexto real para justificar estudos longitudinais controlados com avaliação pré e pós-tratamento, que são a próxima etapa necessária e urgente nessa agenda de pesquisa”, finaliza.