Cadela é resgatada após suspeita de intoxicação por cannabis durante trilha no Reino Unido
Labrador precisou ser retirada de maca da montanha mais alta do Reino Unido após apresentar sinais neurológicos. Especialista explica por que casos de ingestão acidental de derivados da cannabis exigem atendimento veterinário imediato

A cadela Tokyo, uma labradora de cinco anos, precisou ser resgatada após passar mal durante uma trilha no Ben Nevis, a montanha mais alta do Reino Unido. O animal perdeu a capacidade de caminhar durante o percurso e precisou ser retirado da montanha em uma maca pela equipe de resgate de Lochaber.
Segundo a tutora, Christina Bluhme, veterinários suspeitam que Tokyo tenha ingerido um produto contendo cannabis deixado na trilha. Após receber atendimento em uma clínica veterinária, a cadela se recuperou completamente e recebeu alta no dia seguinte.
O caso ganhou repercussão na imprensa britânica e chamou atenção para os riscos do descarte inadequado de substâncias em áreas de uso público, como parques e trilhas, onde podem ser encontradas por animais durante passeios.
Embora o desfecho tenha sido positivo, especialistas alertam que toda suspeita de intoxicação deve ser tratada como uma emergência veterinária.

De acordo com a médica-veterinária Caroline Campagnone, presidente da Comissão Nacional de Endocanabinologia Veterinária do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV), os sinais descritos no caso são compatíveis com uma intoxicação por derivados de Cannabis sativa, mas as informações divulgadas até o momento não permitem identificar exatamente qual substância foi ingerida.
"Se o animal ingeriu uma flor in natura, o principal canabinoide presente seria o THCA, não o THC. Por outro lado, se ingeriu um cigarro parcialmente consumido, um extrato, um comestível ou outro produto já submetido ao aquecimento, a exposição ao THC pode ter sido maior. Sem a identificação do material ingerido, não é possível afirmar qual fitocanabinoide foi o responsável pelos sinais clínicos", explica.
Segundo a especialista, quando há exposição ao THC, é comum que os cães apresentem alterações neurológicas devido à elevada concentração de receptores CB1 no sistema nervoso central.
"É comum observar ataxia, sonolência, desorientação e alterações da marcha. Também vale lembrar que alterações neurológicas semelhantes podem ocorrer em diversas outras intoxicações e doenças. Por isso, o diagnóstico definitivo depende da avaliação do médico-veterinário e do material ingerido."
Caroline ressalta que, na maior parte dos casos, os sinais clínicos provocados pelos fitocanabinoides são leves a moderados, reversíveis e autolimitantes, desaparecendo à medida que o organismo metaboliza a substância. Ainda assim, recomenda que todo animal seja avaliado por um médico-veterinário para monitorar possíveis complicações e receber tratamento de suporte quando necessário.
Nem sempre o problema é apenas a cannabis
A médica-veterinária explica que a gravidade da intoxicação depende de fatores como o tipo de produto ingerido, a concentração de fitocanabinoides, a quantidade consumida, além do porte, da idade e da condição clínica do animal.
Ela destaca ainda que, em muitos casos, os maiores riscos estão associados a outros ingredientes presentes em produtos destinados ao consumo humano.
"Em muitos casos, os maiores riscos não estão relacionados apenas aos fitocanabinoides, mas aos demais componentes presentes nos produtos destinados ao consumo humano, por exemplo, o chocolate em um comestível de cannabis."
Embora a mortalidade seja considerada incomum, Caroline alerta que intoxicações graves podem ocorrer, especialmente após a ingestão de produtos altamente concentrados ou quando surgem complicações secundárias, como depressão respiratória, hipotermia, convulsões ou aspiração pulmonar após episódios de vômito.
"Toda suspeita de intoxicação deve ser encarada como uma emergência veterinária."
O que fazer se o animal ingerir cannabis?
Ao suspeitar que um cão tenha ingerido cannabis ou algum produto derivado da planta, a orientação é procurar atendimento veterinário imediatamente.
Se possível, o responsável deve informar qual produto foi ingerido, a quantidade estimada, o horário da exposição e levar a embalagem ou qualquer material que possa auxiliar na identificação da substância.
Caroline também orienta que algumas medidas caseiras podem agravar o quadro.
"O responsável não deve tentar induzir o vômito por conta própria, nem oferecer leite, óleo, alimentos ou outros produtos na tentativa de 'neutralizar' a intoxicação. Induzir o vômito pode aumentar o risco de aspiração pulmonar e agravar o quadro."
Intoxicação acidental é diferente da cannabis medicinal veterinária
A especialista ressalta que episódios de intoxicação acidental não devem ser confundidos com o uso terapêutico de produtos à base de cannabis na medicina veterinária.
Segundo ela, a intoxicação ocorre quando há exposição sem controle de dose, geralmente envolvendo produtos destinados ao uso humano ou materiais encontrados no ambiente. Já o tratamento veterinário é realizado de forma planejada, com avaliação clínica, definição da formulação adequada, dose individualizada e acompanhamento profissional.
"Associar uma intoxicação acidental ao uso terapêutico da cannabis é um equívoco. É semelhante a confundir uma intoxicação por um anti-inflamatório ingerido de forma acidental com o uso seguro desse mesmo medicamento quando prescrito corretamente por um médico-veterinário. O que determina a segurança é a indicação clínica, a qualidade do produto, a dose, a via de administração e o acompanhamento profissional."
