Canabinoides veterinária: editorial reúne 16 estudos
Levantamento "Canabinoides veterinária" ponta doses, farmacocinética e segurança de CBD e CBDA em cães, gatos e cavalos. Leia a análise completa no Sechat.

Um editorial publicado em março sobre ""Canabinoides veterinária" na revista Frontiers in Veterinary Science sintetiza os resultados de 16 estudos recentes sobre o uso de derivados de cannabis em medicina veterinária, consolidando dados de farmacocinética (PK), segurança e eficácia em cães, gatos, cavalos e primatas não humanos. O texto, assinado por Robin Temmerman, reforça que o uso clínico de canabinoides em animais ainda carece de estudos controlados em número suficiente para sustentar boa parte das indicações já praticadas na rotina veterinária.
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O documento situa a discussão no sistema endocanabinoide (SEC), formado pelos endocanabinoides anandamida (AEA) e 2-araquidonoilglicerol (2-AG), pelos receptores CB1 e CB2 e pelas enzimas responsáveis pela síntese e degradação desses compostos. É sobre esse sistema que atuam o ácido tetrahidrocanabinólico (THCA), o ácido canabidiólico (CBDA) e seus derivados, o THC e o CBD — este último, o composto mais estudado em medicina veterinária.
"Canabinoides veterinária" e farmacocinética varia por espécie e formulação
Os dados de PK reunidos no editorial mostram diferenças relevantes entre espécies e entre formulações do mesmo composto.
Em cães, a comparação entre quatro preparações de CBD (óleo, nanoemulsão, solúvel em água e forma semi-sólida) mostrou que as formulações líquidas apresentam maior biodisponibilidade e absorção mais rápida do que a forma semi-sólida. A concentração plasmática máxima (Cmax) foi atingida em até três horas após a administração, com valores entre 92 e 314 μg/L — faixa compatível com outros estudos de PK de CBD em cães em doses semelhantes. Outro estudo citado no editorial não encontrou diferença nos parâmetros farmacocinéticos entre a via oral e a transmucosa, sugerindo que o CBD é deglutido e absorvido no trato gastrointestinal, e não pela mucosa oral.
Uma formulação lipossomal de CBD administrada por via subcutânea produziu concentrações plasmáticas detectáveis por até seis semanas, com Cmax mediana de 45,2 ng/mL (variação de 17,8–72,5 ng/mL), Tmax de 4 dias (2–14 dias) e meia-vida de 12,4 dias (7,7–42,6 dias) — um perfil de longa duração que pode favorecer a adesão do tutor ao tratamento.
Em gatos, um extrato herbal de cannabis na proporção 1:20 (THC:CBD) mostrou absorção rápida, com pico plasmático entre duas e três horas, e aumento dose-proporcional das concentrações. O editorial chama atenção para um dado clinicamente relevante: a biodisponibilidade do CBD em gatos parece ser menor do que em cães recebendo o mesmo extrato, o que pode refletir tanto diferenças metabólicas entre espécies quanto a dificuldade prática de administração oral em felinos.
Em equinos, estudo com desenho cross-over e doses de 2 mg/kg e 8 mg/kg de óleo de cânhamo rico em CBD/CBDA, administrado por sonda nasogástrica, mostrou que a CBDA apresenta biodisponibilidade maior do que o CBD, com absorção em padrão bifásico. Os valores de Cmax relatados foram: CBD e CBDA na dose de 2 mg/kg — 5,2 e 36,95 ng/mL, respectivamente; CBD e CBDA na dose de 8 mg/kg — 40,35 e 353,56 ng/mL. A meia-vida de eliminação foi curta ou não calculável por falta de pontos quantificáveis, o que aponta para a necessidade de doses frequentes para manter níveis terapêuticos. Outro estudo com cavalos, usando um modelo farmacocinético populacional (popPK) de três compartimentos, relatou Cmax média de 12,17 ng/mL com dose de 3 mg/kg e identificou metabolização extensa do CBD, com amplo volume de distribuição tecidual.
Em primatas não humanos (macacos cynomolgus), a administração oral de óleo de cânhamo rico em CBD/CBDA em doses de 4 e 8 mg/kg mostrou Cmax de CBDA cerca de 30 vezes maior que a de CBD (456,75 ng/mL vs. 15,98 ng/mL). Os autores concluem que a dosagem única diária, nos níveis testados, é insuficiente para manter concentrações séricas estáveis de CBD.
"Canabinoides veterinária" e eficácia clínica: resultados mistos
Na avaliação de dor pós-operatória após osteotomia niveladora do platô tibial (TPLO) em cães, um produto à base de CBD/CBDA (2–2,5 mg/kg por via oral a cada 12 horas, por quatro semanas) não mostrou impacto significativo sobre escore de dor, sustentação de peso, claudicação ou cicatrização óssea precoce em ensaio clínico randomizado, controlado por placebo e cego. Houve, no entanto, associação entre o uso do produto e redução da ansiedade pós-operatória, além de aumento da fosfatase alcalina (ALP) e redução de eosinófilos — achados que reforçam a necessidade de monitoramento laboratorial.
Já a formulação lipossomal de CBD de longa ação demonstrou eficácia na redução da dor e melhora da qualidade de vida em cães com osteoartrite, com poucos eventos adversos — resultado que o próprio editorial recomenda interpretar com cautela, por se tratar de estudo não cego e sem grupo placebo.
Em epilepsia idiopática refratária em cães, ensaios clínicos mostraram redução na frequência e na gravidade das crises convulsivas com uso de CBD, sustentando seu papel como terapia adjuvante.
Nas condições dermatológicas, os resultados divergem conforme a condição tratada: um relato de caso descreveu eficácia de óleo de cannabis rico em CBD (espectro completo) no manejo do lúpus eritematoso discoide em um cão de dois anos, mas um ensaio comparando óleo de CBD de espectro completo com óleo de oliva (controle negativo) em dermatite atópica canina não encontrou vantagem terapêutica do canabinoide, avaliada por prurido, escore CADESI-4 e histopatologia cutânea.
"Canabinoides veterinária" e segurança: perfil favorável, com pontos de atenção laboratorial
O editorial descreve o CBD como geralmente bem tolerado nas espécies avaliadas, mas destaca sinais laboratoriais recorrentes que merecem monitoramento clínico.
Em cães, um estudo de 90 dias com dose repetida (mais 14 dias de recuperação) em beagles saudáveis, randomizado e controlado, não registrou sonolência, eventos adversos ou eventos adversos graves, mas identificou alterações em parâmetros bioquímicos como ALT, ALP e GGT — consideradas, pelos autores, sem relevância clínica. O aumento de ALP também apareceu no estudo de dor pós-TPLO citado acima, o que sugere um padrão a ser observado em protocolos de acompanhamento.
Em gatos, um estudo de tolerância de seis meses com dose diária de 4 mg/kg de destilado de CBD (livre de THC) não encontrou diferenças clinicamente significativas em bioquímica e hematologia frente a placebo.
Em equinos, tanto o extrato de cânhamo rico em CBD/CBDA quanto uma pasta oral de CBD (avaliada em estudo de escalonamento de dose de 0,2 a 3,0 mg/kg e em protocolo de dose múltipla a cada 12 horas por 15 dias) foram bem tolerados, sem efeitos neurológicos, comportamentais ou gastrointestinais significativos, e sem impacto relevante sobre frequência cardíaca, sedação ou cortisol sanguíneo matinal.
Ficha técnica "Canabinoides veterinária": doses e parâmetros farmacocinéticos citados no editorial
| Espécie | Composto / dose | Cmax | Tmax | Meia-vida |
|---|---|---|---|---|
| Cão (formulação lipossomal SC) | CBD | 45,2 ng/mL (17,8–72,5) | 4 dias (2–14) | 12,4 dias (7,7–42,6) |
| Cão (formulações líquidas VO) | CBD | 92–314 μg/L | até 3 h | — |
| Cavalo (2 mg/kg, sonda nasogástrica) | CBD / CBDA | 5,2 / 36,95 ng/mL | — | curta / não calculável |
| Cavalo (8 mg/kg, sonda nasogástrica) | CBD / CBDA | 40,35 / 353,56 ng/mL | — | curta / não calculável |
| Cavalo (3 mg/kg) | CBD | 12,17 ng/mL | — | — |
| Macaco cynomolgus (4–8 mg/kg VO) | CBD / CBDA | 15,98 / 456,75 ng/mL | — | — |
| Cão (dor pós-TPLO) | CBD/CBDA | 2–2,5 mg/kg VO a cada 12 h, 4 semanas | — | — |
| Gato (tolerância) | CBD (distillate) | 4 mg/kg/dia, 6 meses | — | — |
| Cavalo (escalonamento) | CBD (pasta oral) | 0,2 / 1,0 / 3,0 mg/kg | — | — |
Para o editorial, o avanço do uso terapêutico de canabinoides veterinária traz, ao mesmo tempo, novas ferramentas clínicas e desafios regulatórios e científicos — o que reforça a necessidade de mais pesquisa para sustentar indicações com segurança.
O que ainda falta esclarecer
O editorial elenca quatro frentes prioritárias para pesquisa futura: segurança em uso prolongado e efeitos cumulativos; otimização de posologia e formulação para maximizar exposição terapêutica com menor toxicidade; elucidação dos mecanismos de ação farmacodinâmica, incluindo efeitos off-target; e estudos comparativos entre espécies, dada a variabilidade interespécies observada na farmacocinética.
Para o médico-veterinário que já prescreve ou é procurado por tutores interessados em canabinoides, a mensagem central do editorial é dupla: há evidência crescente de segurança relativa em curto e médio prazo nas espécies estudadas, mas a eficácia terapêutica permanece indicação-dependente — positiva em epilepsia refratária e em alguns protocolos de dor crônica, neutra ou não comprovada em dermatite atópica e em dor pós-operatória aguda em TPLO.
Fonte: Temmerman R. Editorial: Use of cannabis derivatives in veterinary medicine. Front. Vet. Sci. 12:1539422 (2025). doi: 10.3389/fvets.2025.1539422 | "Canabinoides veterinária"
