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Cannabis na veterinária: Argentina aposta em uso controlado

Cannabis na veterinária ganha novas regras em Mendoza, na Argentina, com controle sobre prescrição, cultivo, produção e acompanhamento dos tratamentos.

Cannabis na veterinária: Argentina aposta em uso controlado
Cannabis na veterinária ganha regulamentação em Mendoza, na Argentina, com controle de prescrição, cultivo, qualidade e acompanhamento dos tratamentos. | CanvaPro

Quando um animal sente dor, envelhece ou enfrenta uma doença difícil de tratar, quem cuida dele também procura caminhos que possam trazer mais conforto. Na Argentina, essa busca acaba de ganhar um novo capítulo: Mendoza criou um programa específico para regulamentar o uso medicinal de cannabis na veterinária, estabelecendo regras para prescrição, cultivo, produção e acompanhamento dos tratamentos.

A iniciativa coloca os pacientes veterinários no centro de uma discussão que já vinha crescendo entre profissionais, pesquisadores e tutores: como garantir que uma terapia que desperta interesse na medicina animal seja utilizada com segurança, controle e acompanhamento adequado?

Neste artigo você vai ver:

  • O que é o programa REPROVET;
  • Como funciona a nova regulamentação de cannabis na veterinária de Mendoza;
  • Quem poderá prescrever cannabis para animais;
  • Quais controles serão exigidos para os produtos;
  • O que muda para tutores de cães, gatos e outros animais;
  • Por que a medida pode influenciar outras províncias argentinas;
  • O que ainda não significa que os produtos estejam disponíveis comercialmente.

Cannabis na veterinária: o que mudou na Argentina?

A mudança aconteceu em Mendoza, província argentina que criou o Registro e Programa de Acesso a Cannabis Medicinal para Pacientes Veterinários (REPROVET).

A medida foi estabelecida pela Resolução 150/2026 e criou uma estrutura provincial para organizar o acesso a derivados de cannabis na veterinária. O programa prevê supervisão profissional, registro dos pacientes, controle dos produtos e acompanhamento clínico.

O ponto central é que o tutor do animal não poderá simplesmente solicitar o registro por conta própria. O processo deverá ser conduzido por um médico-veterinário matriculado em Mendoza e habilitado como prescritor dentro do programa.

Para cada paciente, a documentação deverá incluir informações como:

  • história clínica;
  • diagnóstico;
  • exames complementares;
  • consentimento informado;
  • formulação utilizada;
  • concentração;
  • dose;
  • via de administração;
  • acompanhamento da evolução clínica.

A nova norma do uso da cannabis na veterinária também exige formação específica em medicina cannabinoide veterinária para os profissionais autorizados a prescrever.

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Cannabis medicinal para animais terá controle de qualidade

Um dos pontos mais relevantes da nova regulamentação da cannabis na veterinária é a preocupação com a composição dos produtos.

Os derivados destinados aos pacientes veterinários deverão passar por análises em laboratórios acreditados. O objetivo é verificar a composição dos lotes e as condições de segurança antes que esses preparados sejam utilizados nos animais.

A exigência ganha importância porque pesquisas e levantamentos realizados na própria Argentina apontam que ainda existe utilização de preparados artesanais.

Pesquisa relata uso da cannabis na veterinária e cita preferências 

Uma pesquisa da Comissão de Veterinária da Rede de Cannabis e seus Usos Medicinais e Industriais do CONICET (RACME), realizada com tutores e médicos-veterinários, recebeu 433 respostas.

Entre os veterinários participantes, 80% afirmaram indicar preparados à base de cannabis para cães e gatos. Entre os tutores entrevistados, o óleo de cannabis foi a apresentação mais citada, escolhida por 88%.

Outro dado chama atenção: produtos de origem artesanal foram apontados por 82% dos tutores e 88% dos médicos-veterinários participantes da pesquisa.

Os números não significam que esses preparados sejam necessariamente eficazes ou seguros. Eles mostram, porém, a dimensão de uma prática que já acontece e ajudam a explicar por que padronização, análise laboratorial e rastreabilidade aparecem como pontos centrais da nova regulamentação da cannabis na veterinária.

Como funciona o REPROVET para cães, gatos e outros animais?

O programa não foi criado exclusivamente para cães e gatos.

A regulamentação da cannabis na veterinária contempla diferentes espécies animais que apresentem patologias consideradas passíveis de tratamento com cannabis medicinal. O acesso, porém, depende da avaliação individual feita pelo médico-veterinário.

Isso significa que não existe uma indicação automática baseada apenas na espécie ou na doença.

O tratamento deverá considerar as características de cada paciente, incluindo diagnóstico, histórico clínico, evolução e resposta à terapia.

O médico-veterinário também assume papel central no acompanhamento. A norma determina o registro das informações clínicas e do tratamento na plataforma oficial, permitindo acompanhar o que foi prescrito, em qual dose e quais foram os resultados observados.

Essa estrutura também pode contribuir para a produção de dados sobre o uso terapêutico de cannabis em animais, uma área que ainda busca ampliar sua base de evidências científicas.

Cannabis na veterinária: quem poderá cultivar em Mendoza?

Segundo divulgação do portal Cañamo, a regulamentação criou ainda uma figura específica: o médico-veterinário cultivador.

Profissionais habilitados poderão receber autorização para realizar atividades relacionadas ao cultivo e à obtenção de derivados destinados exclusivamente ao uso terapêutico veterinário.

Associações civis e fundações voltadas à proteção e ao cuidado animal também poderão solicitar autorização, desde que cumpram as exigências estabelecidas pela província.

Mas há uma diferença importante: a autorização não significa liberdade para produção comercial.

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Os cultivos terão limites relacionados ao número de pacientes, volume produzido, quantidade de plantas, destino dos preparados, biosegurança e período de validade da autorização.

Além disso, os derivados produzidos deverão ser destinados aos pacientes animais registrados no programa.

O tutor também não poderá utilizar essa regulamentação para cultivar cannabis por conta própria.

A lógica estabelecida pelo governo de Mendoza é de controle de toda a cadeia: quem cultiva, quem produz, quem prescreve e quem recebe o tratamento.

 

O que a regulamentação muda para os tutores?

O tutor responsável poderá receber um certificado oficial relacionado ao animal que estiver em tratamento. Esse documento permitirá a posse e a administração dos preparados prescritos, dentro das condições estabelecidas pelo programa.

A autorização é individual e vinculada ao tratamento.

Isso significa que o certificado não funciona como uma autorização genérica para utilizar derivados de cannabis em outros animais ou para outras finalidades.

Também não permite que o tutor cultive cannabis dentro desse regime.

A medida, portanto, procura afastar a ideia de que o acesso à terapia seja uma questão de simplesmente adquirir um óleo e administrar em casa.

A proposta é transformar o tratamento em um processo acompanhado por profissional habilitado, com produto identificado, dose definida e registro da evolução do paciente.

Quais doenças podem receber tratamento?

O uso medicinal de cannabis em animais ainda é uma área em desenvolvimento e não deve ser apresentado como substituto universal para terapias veterinárias convencionais.

Em entrevista ao jornal El Sol, o médico-veterinário Guillermo Genta afirmou que a proposta não é substituir tratamentos tradicionais, mas utilizar a cannabis como uma ferramenta terapêutica adicional em situações selecionadas.

Entre os quadros citados pelo especialista estão:

  • dor crônica;
  • epilepsia refratária;
  • doenças neurológicas;
  • processos oncológicos;
  • alterações cognitivas relacionadas ao envelhecimento;
  • cuidados de pacientes em fases avançadas de doenças.

Genta também mencionou situações em que animais apresentam outras condições de saúde que dificultam o uso de determinados medicamentos convencionais.

A decisão, contudo, deve ser individualizada. A existência de interesse científico ou de relatos de uso não significa que qualquer animal com determinada doença tenha indicação automática para receber cannabis.

Por que a medida de Mendoza é relevante?

A importância da regulamentação não está apenas na autorização do uso.

Ela está na tentativa de criar regras para uma prática que já vinha acontecendo.

Durante anos, profissionais argentinos interessados na medicina cannabinoide veterinária lidaram com um cenário de incerteza regulatória. 

Um trabalho apresentado em congresso sobre o uso de preparados de cannabis na medicina veterinária argentina destacou justamente a ausência de regulamentação nacional específica para produtos comerciais destinados aos animais.

 

Uma mudança que pode ultrapassar Mendoza

A experiência da província pode se tornar uma referência para outras regiões argentinas que discutem como lidar com o uso medicinal de cannabis em animais.

Para os defensores da regulamentação, criar regras significa também produzir dados.

Quanto mais informações forem registradas sobre formulações, doses, respostas clínicas e efeitos adversos, maior poderá ser a capacidade de pesquisadores e profissionais avaliarem o que funciona, para quais pacientes e em quais condições.

É justamente nesse ponto que a regulamentação encontra a ciência.

Mais do que abrir uma porta, Mendoza criou uma moldura para que essa porta tenha limites, acompanhamento e responsabilidade.

Cannabis na veterinária ainda exige acompanhamento profissional

A nova regra argentina não deve ser interpretada como uma autorização para automedicação dos animais.

Produtos à base de cannabis podem apresentar diferentes concentrações e perfis de canabinoides, e a resposta pode variar de acordo com espécie, peso, condição clínica, formulação e outros medicamentos utilizados pelo paciente.

Por isso, a utilização terapêutica deve ser discutida com um médico-veterinário.

Também é importante diferenciar pesquisa, relato clínico, uso terapêutico regulamentado e medicamento aprovado para comercialização. Uma formulação estudada em laboratório ou em pesquisa clínica não se transforma automaticamente em medicamento disponível no mercado.

A própria regulamentação de Mendoza estabelece mecanismos de controle justamente para reduzir incertezas sobre composição e origem dos produtos.

No fim, a discussão volta para uma questão bastante simples, e profundamente humana: quando um animal precisa de cuidado, informação e segurança também fazem parte do tratamento.

A Argentina, ao menos em Mendoza, decidiu colocar essa ideia dentro da lei.

Fontes e referências

  • Cáñamo — “Cannabis veterinario en Argentina bajo control provincial”, publicado em 13 de agosto de 2026.
  • Governo de Mendoza / Boletín Oficial — Resolução que regulamenta o programa REPROVET e estabelece regras para prescrição, cultivo, produção e rastreabilidade.
  • CONICET/RACME — Pesquisa sobre o uso de cannabis medicinal em animais na Argentina, com 433 respostas de tutores e médicos-veterinários.
  • El Sol Mendoza — Cobertura sobre a criação do REPROVET, com declarações de profissionais e autoridades locais.
  • Vet Market — Análise da criação do primeiro registro argentino específico para pacientes veterinários.