Cânhamo: pesquisa revela benefício surpreendente para cães
Preocupado com seu pet? Nova pesquisa com cânhamo acompanhou 24 cães por 3 meses e revelou como sementes da planta ajudam no microbioma canino.

Cânhamo é foco de pesquisa publicada na revista científica Veterinary Sciences acompanhou 24 cães por três meses e mostrou que subproduto e óleo de semente de cânhamo modulam a flora intestinal canina de formas distintas — sem comprometer a estabilidade do ecossistema microbiano.
Um estudo científico foi conduzido por pesquisadores da Universidade Kasetsart, na Tailândia. para investigar os benefícios do cânhamo na saúde de cães. . A pesquisa trouxe novas evidências sobre os efeitos do cânhamo industrial (Cannabis sativa L.) na saúde intestinal de cães. O trabalho foi publicado em 29 de maio de 2026 no periódico Veterinary Sciences. Ao todo, 24 cães saudáveis foram acompanhados por 90 dias. O objetivo era avaliar como diferentes formulações à base de semente de cânhamo afetam a microbiota fecal. Esse conjunto de microrganismos habita o trato gastrointestinal. Ele desempenha papel central na imunidade e no metabolismo dos animais.
O que o estudo avaliou
Os 24 cães eram todos adultos e saudáveis. Pesavam entre 15 kg e 20 kg. Foram divididos aleatoriamente em três grupos de oito animais:
- Grupo controle (FC): dieta basal, sem qualquer adição de cânhamo.
- Grupo subproduto de cânhamo (FB): dieta com 11% de subproduto da semente de cânhamo. Trata-se de uma torta rica em fibras, incorporada à formulação da ração.
- Grupo óleo de cânhamo (FO): dieta com revestimento de 2% de óleo de semente de cânhamo. O óleo foi aplicado por spray durante o resfriamento da ração.
Todos os animais receberam uma dieta basal nutricionalmente equilibrada. O teor de proteína foi semelhante entre os grupos, entre 26% e 27%. Amostras fecais foram coletadas nos dias 0, 30 e 90. Elas foram analisadas por sequenciamento genético (16S rRNA). Essa técnica identifica e quantifica as famílias e os gêneros de bactérias presentes no intestino.
Óleo de cânhamo aumentou a diversidade bacteriana
Um dos achados centrais foi este: o grupo que recebeu óleo de cânhamo (FO) teve o aumento mais expressivo na riqueza de espécies bacterianas. O índice Chao1 mede essa riqueza. Ele saltou de 1.374,38 no dia 0 para 1.879,36 no dia 90 nesse grupo. Foi um crescimento maior do que nos grupos controle e subproduto.
O índice de Shannon avalia diversidade e equilíbrio da comunidade microbiana. Ele também cresceu mais no grupo FO. Foi de 2,69 para 3,31 ao longo dos 90 dias. Já o índice de Simpson não mudou de forma relevante entre os grupos. Ficou entre 0,09 e 0,15 durante todo o período.
Segundo os pesquisadores, esse efeito pode estar ligado ao alto teor de ácidos graxos poli-insaturados do óleo de cânhamo. Esses ácidos graxos abririam novos nichos metabólicos. Eles sustentariam populações bacterianas menos dominantes. Mas o estudo faz uma ressalva: a composição exata de ácidos graxos das dietas não foi quantificada. Isso limita conclusões definitivas sobre o mecanismo exato.
Subproduto de cânhamo favoreceu bactérias fermentadoras de fibra
O óleo se destacou pelo aumento de diversidade. Já o subproduto de cânhamo (FB) teve outro efeito. Ele é mais rico em fibra insolúvel. Promoveu o crescimento de bactérias do filo Actinobacteriota. O destaque foi o gênero Collinsella. Ele atingiu a maior abundância relativa entre os três grupos: 17,5%.
O Collinsella é um gênero fermentador de carboidratos. A ciência o associa à conversão de fibras alimentares em ácidos graxos de cadeia curta (AGCC). Esses compostos trazem benefícios metabólicos. O grupo FB também teve mais estabilidade na composição de certas bactérias ao longo dos 90 dias. Isso incluiu Collinsella, HT002, Slackia e Peptoclostridium. A análise diferencial de abundância (DESeq2) confirmou esse padrão.
Já o óleo de cânhamo (FO) teve outro perfil. Ele aumentou a abundância da família Lactobacillaceae. O destaque foi o gênero Ligilactobacillus. Essa bactéria produz ácido lático. Tem propriedades probióticas bem documentadas. Está associada ao suporte da integridade da barreira intestinal.
Nenhum impacto negativo na saúde dos animais
Nenhum dos 24 cães teve diarreia durante o estudo. Não houve alterações significativas no escore fecal. O peso corporal se manteve estável. Os parâmetros hematológicos e bioquímicos do sangue também ficaram dentro da normalidade. Para os autores, isso reforça uma hipótese: as duas formulações de cânhamo podem ser usadas com segurança na alimentação canina, como ingredientes funcionais.
A análise de betadiversidade mede a variação da composição microbiana entre amostras. Ela trouxe outro dado relevante. Em todos os grupos, houve convergência das comunidades microbianas ao longo do tempo. A variação entre indivíduos diminuiu até o dia 90. Isso é sinal de que o ecossistema intestinal caminhou para um novo equilíbrio.
Os pesquisadores identificaram ainda um núcleo de 19 gêneros bacterianos. Eles estavam presentes em todas as amostras analisadas. Isso sugere uma microbiota "central" relativamente estável na espécie canina. Ela se mantém mesmo diante de diferentes intervenções dietéticas.
Limitações reconhecidas pelos autores
O próprio estudo lista limitações importantes. O tamanho amostral foi de oito cães por grupo. Esse número foi calculado apenas para o desfecho primário: a diversidade alfa. Não foi pensado para a análise de abundância diferencial de centenas de táxons bacterianos. Por isso, os achados nesse nível devem ser vistos como exploratórios. Eles geram hipóteses, mas não são resultados confirmatórios.
Há outro ponto de atenção. As formulações à base de cânhamo diferiam da dieta controle em mais de um aspecto. Não era só a presença do ingrediente. A composição de macronutrientes também mudava, em fibra e gordura. Por isso, os autores fazem uma ressalva: as alterações na microbiota não podem ser atribuídas só ao cânhamo. As variações nutricionais também tiveram peso.
Por fim, uma limitação técnica. O sequenciamento 16S rRNA mostra a composição microbiana. Mas não traz informações funcionais diretas. Não mede, por exemplo, a produção real de ácidos graxos de cadeia curta. Também não avalia marcadores inflamatórios. Isso exigiria métodos complementares.
Conclusão dos pesquisadores
Os autores chegam a uma conclusão central. A suplementação com subproduto e óleo de semente de cânhamo modula a microbiota fecal canina. Mas o faz de forma específica para cada formulação. O subproduto rico em fibra favorece bactérias fermentadoras, como o Collinsella. Já o óleo estimula maior riqueza bacteriana geral. Também favorece o crescimento de lactobacilos benéficos.
Em ambos os casos, um ponto se manteve: a estabilidade ecológica do intestino foi preservada. Isso aponta para um potencial de uso seguro do cânhamo na nutrição de cães. Ainda assim, os autores fazem uma ressalva final. São necessários estudos futuros com dietas nutricionalmente equiparadas. Eles ajudariam a confirmar os mecanismos específicos por trás desses efeitos.
Ficha técnica do estudo
- Título original: Longitudinal Assessment of the Canine Fecal Microbiota in Response to Dietary Hempseed By-Product and Oil: A 90-Day Nutritional Intervention Study
- Autores: Jutamat Klinsoda, Sasithorn Limsuwan, Witchayaporn Sornard, Pattarawadee Thamsatit e Natthasit Tansakul
- Instituição: Faculdade de Medicina Veterinária, Universidade Kasetsart, Bangkok, Tailândia
- Publicação: Veterinary Sciences, 2026, 13(6), 534
- DOI / link do estudo:aqui.
