Cannabis e anestesia: o que muda antes de uma cirurgia
Revisão científica mostra como a cannabis e anestesia podem estar associadas, a resposta a medicamentos e os cuidados antes e depois de procedimentos.

Uma informação que pode parecer pequena antes de uma cirurgia pode fazer diferença no cuidado. Uma revisão científica publicada em 2026 mostra que cannabis e anestesia podem exigir atenção especial, principalmente em relação à dose de medicamentos, aos efeitos cardiovasculares e respiratórios e ao controle da dor após o procedimento.
Publicado na revista Anesthesia Progress, o trabalho revisou evidências sobre farmacologia, efeitos fisiológicos e cuidados perioperatórios relacionados ao uso de cannabis.
A conclusão sobre cannabis e anestesia não significa que toda pessoa que utiliza cannabis terá complicações durante uma cirurgia. O alerta é para a importância de informar a equipe médica sobre o uso antes do procedimento.
Cannabis e anestesia: por que o uso importa?
A cannabis contém diferentes fitocanabinoides, entre eles o THC e o CBD. Essas substâncias interagem com o sistema endocanabinoide e podem produzir efeitos em diferentes sistemas do organismo.
Segundo a revisão, essas alterações podem ser relevantes durante o período perioperatório, que envolve o antes, o durante e o depois de uma cirurgia.
Outro ponto importante é a diversidade dos produtos disponíveis. Concentrações de THC e CBD, formas de consumo e frequência de uso podem variar bastante.
Por isso, para a equipe de anestesia, não basta saber apenas se o paciente utiliza cannabis. Também pode ser relevante conhecer quanto, com que frequência, de que forma e quando ocorreu o último uso.
Cannabis medicinal também deve ser informada?
Sim. O uso terapêutico também faz parte do histórico clínico e deve ser comunicado ao profissional responsável.
Saber qual produto é utilizado, sua concentração, frequência e via de administração ajuda a equipe a avaliar possíveis interações e planejar o procedimento de forma individualizada.
O fato de a cannabis ser utilizada com finalidade medicinal não elimina seus efeitos farmacológicos no organismo.
SAIBA MAIS: Cannabis medicinal e interação com medicamentos
Cannabis e anestesia: pode haver alteração na dose?
Uma das questões discutidas pela revisão é a possível necessidade de doses maiores de propofol em pessoas que utilizam cannabis.
Os autores citam estudos que encontraram associação entre o uso de cannabis e maior necessidade desse anestésico. Entre as possíveis explicações estão alterações relacionadas aos receptores do sistema endocanabinoide e ao metabolismo de medicamentos.
Isso, porém, não significa que exista uma dose adicional padrão para usuários de cannabis.
A quantidade de anestésico depende de fatores como idade, peso, condição clínica, tipo de procedimento, medicamentos utilizados e resposta individual.
Por isso, os resultados não devem ser aplicados automaticamente a todos os pacientes.
Efeitos cardiovasculares e respiratórios merecem atenção
A revisão também descreve possíveis efeitos cardiovasculares e respiratórios associados ao uso de cannabis.
Essas informações podem ser relevantes durante a avaliação pré-operatória, especialmente porque a anestesia e a sedação também interferem em funções cardiovasculares e respiratórias.
O histórico de uso, portanto, pode ajudar o anestesiologista a compreender melhor o contexto clínico do paciente.
A decisão sobre realizar, adiar ou modificar um procedimento depende da avaliação individual e das características de cada caso.
E a dor depois da cirurgia?
O controle da dor é outro ponto abordado pelos pesquisadores.
A revisão aponta que usuários crônicos de cannabis podem apresentar maior percepção de dor no período pós-operatório. O trabalho também discute possíveis alterações na resposta a medicamentos como opioides, cetamina e gabapentinoides.
Isso não significa que esses medicamentos deixarão de funcionar ou que todo usuário precisará de doses maiores.
A questão é que o histórico de uso pode ser considerado na elaboração da estratégia para controle da dor e no acompanhamento após o procedimento.
SAIBA MAIS: O que estudos científicos dizem sobre cannabis e dor
O que o paciente deve contar ao anestesiologista?
Para quem utiliza cannabis e tem uma cirurgia ou procedimento ambulatorial marcado, a recomendação prática é informar a equipe de saúde.
Durante a avaliação pré-anestésica, pode ser importante mencionar:
- Qual produto de cannabis é utilizado;
- Se contém THC, CBD ou ambos;
- Frequência de uso;
- Forma de administração;
- Quando ocorreu o último consumo;
- Outros medicamentos ou substâncias utilizados;
- Histórico de reações anteriores a anestésicos.
Essas informações ajudam o profissional a construir uma avaliação mais completa.
Também é importante que o paciente não interrompa medicamentos ou tratamentos por conta própria. Qualquer mudança antes de uma cirurgia deve ser discutida com a equipe responsável.
O que a ciência ainda precisa descobrir?
Embora existam evidências sobre possíveis efeitos da cannabis durante o período perioperatório, ainda há lacunas importantes.
Os estudos disponíveis apresentam diferenças nos produtos utilizados, padrões de consumo, características dos pacientes e tipos de procedimentos avaliados.
Uma pesquisa sobre procedimentos eletivos, por exemplo, não encontrou diferenças nos requisitos anestésicos, complicações ou tempo de recuperação entre usuários e não usuários de cannabis. Já outro estudo identificou maior necessidade de propofol entre usuários durante procedimentos endoscópicos, sem diferença significativa no tempo de recuperação.
Esses resultados aparentemente diferentes mostram por que não é possível estabelecer uma única resposta para todos os pacientes.
A revisão publicada em Anesthesia Progress reforça a necessidade de pesquisas adicionais para desenvolver recomendações perioperatórias mais precisas.
Informação também faz parte do cuidado
Quando uma cirurgia se aproxima, cada detalhe do histórico do paciente pode ajudar a equipe a tomar decisões mais seguras e individualizadas.
No caso da cannabis, a ciência já identifica possíveis impactos sobre anestésicos, medicamentos utilizados no controle da dor e respostas cardiovasculares e respiratórias. Ao mesmo tempo, ainda existem questões que precisam de mais evidências.
Por isso, conversar abertamente com o anestesiologista é parte importante da preparação para um procedimento.
Mais do que estabelecer uma regra sobre cannabis e anestesia, a literatura científica reforça a importância de uma avaliação individualizada, baseada no histórico e nas necessidades de cada paciente.
