Cannabis na Argentina: veterinário aposta em novos caminhos
O médico-veterinário Guillermo Genta revela como a cannabis na Argentina vem ganhando espaço e avalia os desafios e o que pode mudar daqui para frente.

Cannabis na Argentina, por Carol Alencar
Há um momento em que a medicina deixa de olhar apenas para a doença e começa a enxergar também quem cuida de quem está doente.
Na casa onde existe um animal, a dor de um cão, um gato ou outro companheiro de quatro patas quase nunca é uma experiência solitária. Ela atravessa a família inteira.
É nesse território, entre ciência, cuidado e regulamentação, que a cannabis na Argentina começa a ganhar um novo capítulo, especialmente dentro da medicina veterinária.
Recentemente, Mendoza avançou com a criação do REPROVET, registro e programa voltado ao acesso à cannabis medicinal para pacientes veterinários.
A iniciativa foi considerada pela RACME/CONICET um avanço significativo para o acesso seguro à cannabis medicinal veterinária.
Mas o que essa mudança representa para quem está dentro dos consultórios? E quais caminhos ainda precisam ser percorridos para que a cannabis na Argentina alcance mais profissionais e famílias?
Para entender os desafios que aparecem depois da regulamentação, a Sechat conversou com exclusividade com Guillermo Genta, médico-veterinário de Mendoza, matrícula provincial 970 e sócio fundador da associação civil Veterinarios Cannábicos Argentinos (VCA).
Com mais de 15 anos de contato com a planta e cerca de sete anos de aprofundamento no estudo da cannabis aplicada aos seus pacientes, Guillermo fala sobre aquilo que considera o maior desafio de Mendoza: transformar uma resolução inédita em uma rede capaz de unir profissionais, pesquisadores, cultivadores, produtores e famílias.
A seguir, ele conta como enxerga esse novo momento da medicina veterinária argentina e os próximos passos para a cannabis na Argentina.
Cannabis na Argentina: “O desafio é colocar o modelo em funcionamento”
Sechat: Mendoza criou um modelo regulado para o uso medicinal da cannabis em animais. Na sua avaliação, quais são os principais avanços e desafios para que ele funcione na prática?
Guillermo: O principal avanço e desafio de Mendoza é colocar o modelo em funcionamento. E, enquanto esse modelo estiver funcionando, o desafio será reunir o maior número possível de participantes em torno da planta de cannabis.
Não se trata apenas do médico-veterinário, da planta e dos tutores dos animais. Também existem pessoas que cultivam com características muito boas, e precisamos mostrar a elas o caminho adequado para integrar uma cadeia voltada à produção de óleos seguros e rastreáveis, com quantificação e tipificação de fitocanabinoides, além das características moleculares e dos compostos associados, como terpenos e flavonoides.
Na cannabis aplicada à medicina veterinária, não estamos falando apenas de CBD. Trata-se de uma terapia baseada na planta de cannabis e em extratos completos da planta.
“Mendoza pode ser uma catapulta”
S: A regulamentação de Mendoza pode ser o primeiro passo para uma regulamentação nacional da cannabis na Argentina para animais?
G: Acredito que sim. Sempre foi um sonho buscar uma regulamentação para pacientes veterinários em qualquer parte do território argentino e fazer com que a cannabis esteja nas mesas dos veterinários de todo o país.
Somos uma organização federal, os Veterinarios Cannábicos Argentinos, da qual sou sócio fundador, e acreditamos que a cannabis deve estar presente em todas as províncias.
Mendoza saiu na frente. A província percebeu a importância dos sujeitos de direito, do acesso à saúde e da igualdade de condições.
Se Mendoza for esse ponto de partida, e acredito que será uma catapulta, poderemos fazer com que a cannabis seja regulamentada em toda a Argentina.
A perspectiva encontra eco no trabalho da RACME/CONICET, que há anos acompanha a situação regulatória da cannabis na medicina veterinária e defende a produção de conhecimento, a rastreabilidade e a construção de marcos específicos para o setor.
“Não estamos falando apenas de CBD” - cannabis na Argentina
S: O que diferencia, na sua visão, a cannabis veterinária de uma abordagem baseada apenas em uma molécula isolada?
G: Considero muito importante tirar a planta de cannabis e seus extratos da escuridão em que estiveram durante tantos anos.
Na cannabis aplicada à medicina veterinária, não estamos falando apenas de CBD. Entendemos que a terapia também envolve diversos outros fitocanabinoides.
Podemos citar THC, CBG, CBC, THCB e CBN. Por isso, a terapia com cannabis na medicina veterinária é ampla e baseada em extratos completos da planta.
S: E onde entra a individualização do tratamento?
G: A padronização é o paciente, não o produto que entregamos.
É o paciente que nos dirá até onde podemos chegar, o que podemos fazer com as ferramentas terapêuticas disponíveis e qual é o impacto positivo obtido.
A medicina mudou muito. Ela já não é tão baseada em uma bula, mas adaptada ao que o paciente necessita e à resposta terapêutica que apresenta.
Preparados artesanais ainda são realidade quando se fala de cannabis na Argentina
S: A pesquisa da RACME/CONICET mostrou uma forte presença de preparados artesanais entre veterinários e tutores argentinos. Isso representa necessariamente um risco?
G: Não considero que a presença de preparados artesanais entre veterinários e tutores argentinos signifique, necessariamente, falta de padronização ou risco para os pacientes veterinários.
A maioria dos pacientes tratados na Argentina há mais de 15 anos utiliza preparados artesanais. Antes, ninguém oferecia resina ou extratos da planta. Os próprios veterinários faziam isso.
A indústria traz a padronização, mas cannabis não é apenas padronização. Cannabis não é uma receita, um protocolo rígido ou uma bula.
É uma medicina que entra em um paciente veterinário, interage com seu próprio sistema e, dependendo de uma série de características, produz determinadas respostas.
Os dados da RACME ajudam a dimensionar esse cenário. Em levantamento nacional, 88% dos médicos-veterinários participantes relataram prescrever preparados de origem artesanal, enquanto 70% disseram prescrever produtos analisados. O óleo também apareceu como a apresentação mais utilizada.
Mas o próprio CONICET ressalta que ainda existe uma quantidade limitada de estudos científicos sobre cannabis de espectro completo em pacientes veterinários.
“Ser artesanal não significa algo ruim”
S: Então como garantir segurança nesse cenário?
G: Ser artesanal não significa algo ruim. Não significa estar fora de um processo consciente de produção de medicamentos.
Os preparados artesanais podem ser quantificados, medidos e rastreados, assim como a indústria pretende fazer no futuro com seus laboratórios.
O ato médico precisa ser extremamente importante. Não podemos normalizar terapias sem acompanhamento médico profissional.
S: O que você considera indispensável para um tratamento seguro?
G: O acesso seguro existe quando há um médico no processo, que saiba qual quantificação utilizar, faça os exames pertinentes e trabalhe com uma rede consciente: uma rede de profissionais, de quantificação e de rastreabilidade.
Hoje existe rastreabilidade. Podemos saber de onde vem o produto, se existem metais pesados e qual é a concentração de fitocanabinoides.
Quando uma terapia funciona e sabemos a que ela responde, fica muito mais fácil reproduzir esse resultado ao longo do tempo. Podemos conhecer o tipo químico, a concentração e a proporção que funcionaram bem para aquele paciente.
Quais animais podem receber cannabis medicinal?
S: Em quais condições clínicas você observa maior potencial terapêutico dos canabinoides?
G: Os pacientes veterinários apresentam respostas muito importantes ao uso da cannabis como parte do acompanhamento de dores crônicas, transtornos neurológicos e cognitivos e em tratamentos oncológicos, especialmente nos cuidados de fim de vida.
Existem pacientes que estão realmente morrendo e precisam ter conforto nesse processo. É preciso acompanhá-los para que tenham um bom morrer, e cannabis pode ser uma grande aliada.
S: E no câncer?
G: No acompanhamento oncológico, seria muito importante continuar pesquisando.
Existem informações obtidas em estudos in vitro sobre células cancerígenas e sobre CBD e THC. Mas entendo que a cannabis é um grande paliativo e que, atualmente, ainda não podemos atribuir a ela uma ação curativa.
Acredito que seja uma importante ferramenta para aliviar os sinais e sintomas das doenças enfrentadas pelos nossos pacientes.
A ressalva é importante: resultados observados em estudos laboratoriais, como pesquisas in vitro, não equivalem à comprovação de eficácia clínica em animais. É justamente nesse espaço entre a experiência clínica e a evidência científica que novas pesquisas precisam avançar.
“Encontrei respostas que não havia encontrado”
S: Em que momento da sua trajetória profissional você percebeu que a cannabis poderia fazer diferença na vida dos animais?
G: Conheço a planta há mais de 15 anos e, há cerca de sete anos, comecei a despertar para a necessidade de compreender melhor a cannabis e sua relação com meus pacientes.
Foi então que encontrei muitas respostas que não havia encontrado na farmacologia convencional.
Encontrei um grande aliado, uma ferramenta a mais.
Uma ferramenta que posso utilizar quando as demais não são suficientes, buscando aliviar o sofrimento dos meus pacientes. É uma grande ferramenta que encontrei.
Entre o consultório e a família
S: O que mais o move nessa causa: os resultados observados nos animais, o alívio das famílias ou a possibilidade de construir uma nova forma de cuidar?
G: As três coisas me movem.
Os resultados são muito interessantes. Encontrei respostas que não havia encontrado com outras terapias.
Mas também é muito importante o alívio da família. É muito interessante ver os pacientes retornarem para casa com uma planta, com um ou mais fitocanabinoides administrados em óleo, e perceber o alívio dos tutores.
É perceber que uma planta que permaneceu na escuridão durante muitos anos pode trazer respostas positivas para dentro de casa.
E construir um caminho para a cannabis e a medicina veterinária também é algo muito mobilizador.
“Nossos pacientes são sujeitos de direitos”
S: Que futuro você imagina para a cannabis veterinária na Argentina?
G: É preciso que o ato administrativo, o ato médico e a decisão humanitária despertem para essa realidade e reconheçam que cannabis, na Argentina, também é uma questão de saúde.
Saúde é um direito. Nossos pacientes são sujeitos de direito.
Se houver um marco legal coerente, amplo e de impacto positivo para nossas famílias multiespécies e para nossos pacientes, vamos apoiá-lo. Preferimos ter um marco regulatório a não ter nenhum.
Uma nova página para a medicina veterinária
A entrevista com Genta Guillermo mostra que a regulamentação de Mendoza não encerra uma discussão. Ela abre uma nova.
O REPROVET cria um caminho institucional para o acesso à cannabis medicinal veterinária, mas a consolidação desse modelo dependerá de profissionais capacitados, controle de qualidade, rastreabilidade e, sobretudo, mais pesquisa.
A experiência argentina também nasce de uma realidade que já existia antes das normas: veterinários, tutores e famílias que buscavam alternativas terapêuticas para animais com dor e outras condições. A pesquisa da RACME/CONICET mostra justamente a dimensão desse movimento e a predominância histórica dos preparados artesanais no país.
Para Guillermo, o futuro da cannabis na Argentina passa pela construção de uma rede que reúna ciência, profissionais, produtores e famílias. Mais do que ampliar o acesso, a proposta é criar caminhos seguros para que a terapia seja acompanhada de conhecimento e responsabilidade.
O veterinário olha para além da regulamentação.
Olha para o animal que volta para casa. Para o tutor que respira um pouco mais aliviado. Para a família que ganha mais uma possibilidade de cuidado.
E talvez seja essa a imagem que melhor traduza o momento argentino: uma porta que finalmente se abriu, mas que ainda exige conhecimento, responsabilidade e ciência para que se possa atravessá-la com segurança.
“Cannabis é saúde. Saúde é um direito. E nossos pacientes são sujeitos de direitos.”
Guillermo Genta é médico-veterinário da província de Mendoza, Argentina, matrícula provincial 970, e sócio fundador da associação civil Veterinarios Cannábicos Argentinos.
