CBD altera regulação gênica em células de câncer de próstata
Veja: estudo pré-clínico identificou mudanças epigenéticas e maior redução da viabilidade celular quando o canabidiol foi associado a terapias-alvo e hormonal

Um estudo publicado na revista Biomedicine & Pharmacotherapy identificou que o canabidiol (CBD) modificou a regulação de genes relacionados ao ciclo celular e alterou mecanismos epigenéticos em modelos celulares de câncer de próstata. Nos experimentos, o composto também ampliou os efeitos de alguns agentes direcionados e de uma terapia hormonal.
A pesquisa foi conduzida por cientistas da University College Dublin e da University College Cork, na Irlanda. Joanne Cosgrave assina como primeira autora, enquanto Antoinette S. Perry é a autora correspondente. O artigo foi publicado on-line em 3 de setembro de 2026 e pode ser consultado também no PubMed.
Os resultados são pré-clínicos e foram obtidos exclusivamente em células cultivadas em laboratório. Portanto, não demonstram que o CBD seja eficaz ou seguro para tratar pacientes com câncer de próstata.
Pesquisa avaliou três tipos de células tumorais
Os pesquisadores utilizaram três linhagens humanas de câncer de próstata: LNCaP, sensível aos andrógenos, e PC3 e DU145, consideradas independentes desses hormônios.
As células foram tratadas com diferentes concentrações de CBD. A equipe avaliou a viabilidade celular pelo ensaio MTT, as alterações na expressão gênica por sequenciamento de RNA e qRT-PCR e os efeitos epigenéticos por uma plataforma de análise de metilação do DNA.
A epigenética envolve mecanismos capazes de regular a atividade dos genes sem alterar a sequência do DNA. Entre esses mecanismos está a metilação, processo químico que pode aumentar ou reduzir a expressão de determinados genes.
O CBD provocou alterações substanciais na metilação do DNA das células LNCaP, mas o mesmo padrão não foi observado nas linhagens PC3 e DU145. Segundo informações detalhadas pelo Marijuana Herald, centenas de milhares de locais de metilação foram significativamente modificados nas células dependentes de hormônios, com eventos de hipermetilação ocorrendo mais de duas vezes mais frequentemente que os de hipometilação.
CBD modificou milhares de genes
Alterações na expressão gênica foram identificadas nas três linhagens. Conforme os dados divulgados pelo Marijuana Herald com base no estudo, o tratamento afetou 353 genes nas células DU145, 3.337 nas PC3 e 5.468 nas LNCaP.
Entre as vias mais consistentemente reduzidas estavam aquelas relacionadas à replicação do DNA, à divisão celular e à progressão do ciclo celular. Reguladores importantes desse processo, como CDK1 e CDK2, tiveram sua expressão diminuída.
Os pesquisadores também observaram redução da expressão da proteína EZH2 nas três linhagens. Essa proteína participa da regulação epigenética e está associada à progressão do câncer de próstata. Apesar da mudança na expressão, a atividade catalítica da EZH2 não apresentou alteração, segundo o resumo científico do artigo.
Nas células LNCaP, o CBD também diminuiu a expressão de genes controlados pela sinalização do receptor de andrógeno, incluindo KLK3, KLK2 e TMPRSS2. O gene KLK3 é responsável pela produção do antígeno prostático específico, conhecido como PSA.
Combinações ampliaram redução da viabilidade celular
Outra etapa da pesquisa avaliou o CBD em associação com diferentes agentes utilizados ou investigados no contexto do câncer de próstata.
Nas células PC3, a combinação do CBD com o GSK126, um inibidor experimental da EZH2, reduziu a viabilidade celular em mais 16,35% em comparação com o GSK126 isoladamente.
Nas células DU145 portadoras de uma mutação no gene BRCA1, a associação com talazoparib, um inibidor da enzima PARP, produziu uma redução adicional de 24% em relação ao medicamento utilizado sozinho.
O efeito mais expressivo foi observado nas células LNCaP tratadas com CBD e enzalutamida, medicamento que bloqueia a sinalização do receptor de andrógeno.
A combinação de 9,79 micromolares de CBD com 14,02 micromolares de enzalutamida reduziu a viabilidade celular para aproximadamente 23% do nível observado no grupo de controle não tratado. Em comparação com a enzalutamida isolada, a redução foi de 54%. Os pesquisadores classificaram essa interação como sinérgica.
Esses percentuais foram apresentados na reportagem do Marijuana Herald, que divulgou o estudo. As informações sobre autoria, metodologia e conclusões foram conferidas pela Sechat no registro científico original.
Resultado não representa indicação clínica
Embora os achados indiquem uma possível ação complementar do CBD, o trabalho não envolveu animais nem pacientes. Experimentos realizados em linhagens celulares são uma etapa inicial da investigação científica e não permitem estabelecer doses terapêuticas, segurança, interações medicamentosas ou eficácia clínica.
As concentrações utilizadas em laboratório também não podem ser convertidas diretamente em doses para uso humano. Além disso, o CBD pode interferir no metabolismo de medicamentos, inclusive tratamentos oncológicos, o que exige avaliação médica individualizada.
Na conclusão, os autores afirmam que os efeitos observados podem estar relacionados à interrupção da progressão do ciclo celular e à modulação epigenética. Para os pesquisadores, os resultados justificam novas investigações sobre o CBD, especialmente em associação com terapias direcionadas.
Até que estudos em animais e ensaios clínicos controlados sejam realizados, o canabidiol não deve ser apresentado como tratamento comprovado contra o câncer de próstata nem utilizado em substituição às terapias recomendadas pelo oncologista.
