Cérebro em formação e telas: pesquisa revela elo entre redes sociais, impulsividade e cannabis na adolescência
Pesquisa com 1.766 jovens australianos aponta associação entre uso frequente de redes sociais, comportamentos externalizantes e maior probabilidade de consumo de cannabis na adolescência

A geração que cresceu deslizando telas, compartilhando vídeos e construindo relações no ambiente digital pode estar enfrentando desafios que vão além do tempo de conexão. Um novo estudo australiano sugere que o uso frequente de redes sociais durante a adolescência está associado a uma maior probabilidade de consumo de cannabis nos anos seguintes, especialmente entre jovens que apresentam comportamentos impulsivos e maior propensão a assumir riscos.
A pesquisa analisou dados de 1.766 participantes australianos e encontrou uma associação significativa entre a frequência de uso das redes sociais e o consumo de cannabis ao final da adolescência.
O tema ganha relevância em uma geração que passa cada vez mais tempo conectada. Segundo os pesquisadores, adolescentes que utilizavam redes sociais com maior frequência apresentaram quase três vezes mais chances de relatar uso de cannabis quando comparados aos que acessavam essas plataformas com menor intensidade.
O que acontece no cérebro durante a adolescência?
Os resultados dialogam com um tema que o Sechat já abordou na reportagem "Córtex em construção: o que pais precisam saber sobre cannabis e adolescência".
Na matéria, o psiquiatra e neurocientista José Diogo Ribeiro de Souza explicou que o córtex pré-frontal, região responsável pelo planejamento, controle dos impulsos, tomada de decisões e avaliação de consequências, continua em desenvolvimento até o início da vida adulta.
Em outras palavras, o cérebro adolescente ainda está aprendendo a equilibrar emoções, recompensas e escolhas. É justamente nesse período que experiências sociais, hábitos e estímulos ambientais exercem forte influência sobre a formação de conexões neurais.
A nova pesquisa acrescenta um elemento importante a essa discussão: além das influências familiares, escolares e sociais tradicionalmente estudadas, o ambiente digital também pode desempenhar um papel relevante na construção de comportamentos durante essa fase da vida.
Comportamentos impulsivos ajudam a explicar a relação
Um dos principais achados do estudo foi a identificação dos chamados comportamentos externalizantes como mediadores da relação entre redes sociais e consumo de cannabis.
Nesse grupo estão características como impulsividade, hiperatividade, dificuldades de conduta e maior tendência a comportamentos de risco.
Segundo os autores, adolescentes com uso mais frequente de redes sociais apresentaram níveis mais elevados desses comportamentos, que por sua vez estiveram associados a uma maior probabilidade de consumo de cannabis.
Já fatores classificados como internalizantes, como sintomas emocionais e dificuldades de relacionamento social, não demonstraram influência significativa na associação observada.
A geração hiperconectada sob o olhar da ciência
A adolescência atual é muito diferente daquela vivida pelas gerações anteriores. Smartphones, algoritmos, vídeos curtos e notificações constantes passaram a fazer parte da rotina diária de milhões de jovens em todo o mundo.
Embora as redes sociais ofereçam oportunidades de aprendizado, socialização e acesso à informação, pesquisadores têm buscado compreender como a exposição intensa a esses ambientes digitais pode influenciar comportamentos relacionados à saúde.
Segundo os autores do estudo, os resultados indicam uma relação gradual: quanto maior a frequência de uso das redes sociais, maior a probabilidade estimada de consumo de cannabis. Da mesma forma, a redução da exposição às plataformas esteve associada a menores índices previstos de uso da substância.
O que os pesquisadores concluíram
Para os autores, os achados reforçam a importância de estratégias que promovam o uso consciente das tecnologias digitais durante a adolescência.
A pesquisa destaca que iniciativas voltadas à alfabetização digital, ao fortalecimento de habilidades socioemocionais e ao acompanhamento familiar podem contribuir para reduzir fatores associados ao consumo de substâncias entre jovens.
Mais do que estabelecer uma relação simples entre telas e cannabis, o estudo sugere que o comportamento adolescente é resultado de uma combinação complexa de fatores biológicos, emocionais e sociais.
Enquanto o córtex pré-frontal continua sua construção, a nova geração navega por um universo digital sem precedentes. Compreender como esses ambientes interagem com o desenvolvimento cerebral pode ajudar famílias, educadores e profissionais de saúde a identificar fatores de risco e promover escolhas mais conscientes ao longo dessa fase decisiva da vida.
