Psicodélicos

Ciência psicodélica: quem fica de fora dos estudos?

Ciência psicodélica ainda inclui poucas comunidades racializadas em pesquisas, levantando um alerta sobre diversidade, acesso e representatividade na área.

Ciência psicodélica: quem fica de fora dos estudos?
Ciência psicodélica ainda apresenta baixa participação de comunidades racializadas em pesquisas clínicas com psicodélicos | CanvaPro

A ciência psicodélica começa a olhar para uma ausência difícil de ignorar: as comunidades racializadas ainda participam pouco das pesquisas que podem definir o futuro dos tratamentos com psicodélicos. 

Uma revisão de 27 estudos clínicos realizados nos Estados Unidos encontrou participação comunitária em apenas três deles, o equivalente a 11,1%.

O dado não fala apenas sobre quem aparece, ou não, nas amostras. Ele levanta uma pergunta mais profunda sobre quem ajuda a construir as perguntas, desenhar os estudos e decidir quais cuidados fazem sentido para diferentes comunidades.

O trabalho sobre ciência psicodélica analisou pesquisas com psilocibina, MDMA e LSD realizadas nos Estados Unidos ao longo da última década. Os autores avaliaram se os estudos adotavam estratégias de pesquisa com participação efetiva das comunidades.

O resultado foi considerado preocupante pelos pesquisadores: somente três dos 27 estudos analisados utilizaram alguma forma de community-engaged research (CEnR), metodologia que busca aproximar pesquisadores e comunidades desde as etapas iniciais do desenvolvimento de uma pesquisa.

E mesmo nesses casos, a participação ficou restrita à consulta comunitária, uma das formas menos profundas de envolvimento.

Neste artigo você vai ver:

  • Por que comunidades racializadas estão sub-representadas nos estudos com psicodélicos;
  • O que revelou a revisão de 27 ensaios clínicos nos Estados Unidos;
  • Por que participação comunitária vai além de diversificar voluntários;
  • Como a formação de facilitadores tenta incorporar diversidade e humildade cultural;
  • Quais caminhos os pesquisadores sobre ciência psicodélica apontam para uma ciência mais inclusiva.

Ciência psicodélica precisa incluir comunidades desde o início

Durante muito tempo, discutir diversidade em pesquisa significava observar quem chegava à etapa final dos estudos. Mas a revisão sobre a ciência psicodélica mostra que o problema pode começar muito antes.

A escolha do local de recrutamento, os horários das sessões, os custos envolvidos, a relação entre instituições e comunidades e até a definição das perguntas de pesquisa podem influenciar quem se sente incluído, ou afastado, de um estudo.

Nesse sentido, a ciência psicodélica não enfrenta apenas um problema de representatividade numérica. Existe também uma questão de participação nas decisões que produzem o conhecimento.

Os autores ressaltam que não é possível afirmar, a partir da revisão, que a criminalização das drogas seja, sozinha, responsável pela menor participação de pessoas racializadas. 

A desconfiança em relação às instituições e o histórico da chamada guerra às drogas fazem parte desse contexto, mas precisam ser considerados ao lado de outras barreiras.

Entre os obstáculos estão:

  • locais de recrutamento pouco acessíveis;
  • custos associados à participação;
  • horários incompatíveis com a rotina dos voluntários;
  • distância entre centros de pesquisa e comunidades;
  • histórico de desconfiança em relação às instituições;
  • ausência de organizações comunitárias no planejamento dos estudos.

A questão ganha ainda mais peso porque pessoas racializadas podem enfrentar desigualdades de saúde que tornam fundamental uma representação adequada nos estudos clínicos.

Uma pesquisa que não alcança diferentes grupos pode produzir evidências importantes, mas deixar dúvidas sobre até que ponto seus resultados refletem a diversidade da população que, futuramente, poderá buscar esses tratamentos.

SAIBA MAIS: Novo dossiê da MAPS coloca a ibogaína no centro do debate científico mundial

 

Pesquisas com psicodélicos ainda têm baixa diversidade

A revisão sobre ciência psicodélica identificou outro dado importante: pessoas brancas representavam mais de 70% dos participantes dos estudos analisados, enquanto correspondiam a 57,1% da população dos Estados Unidos, segundo dados do Census Bureau citados pelos pesquisadores.

A diferença ajuda a dimensionar o tamanho do desafio.

Mais do que aumentar a quantidade de participantes racializados, os autores defendem uma mudança na forma como os estudos são concebidos.

A proposta é incorporar práticas de participação comunitária capazes de aproximar pesquisadores, instituições e organizações locais. Isso significa ouvir as comunidades não apenas quando chega o momento de convidar voluntários, mas também quando decisões importantes ainda estão sendo tomadas.

Entre as recomendações estão:

  1. Mapear e envolver atores locais que tenham relação direta com as comunidades;
  2. Utilizar redes de universidades e hospitais já estabelecidas;
  3. Construir pesquisas e estratégias de recrutamento em conjunto com as comunidades;
  4. Reservar recursos específicos para a participação comunitária;
  5. Avaliar continuamente a influência dessa participação sobre o estudo.

Na prática, a proposta muda o lugar ocupado pelas comunidades: de potenciais participantes para parceiras na construção da pesquisa.

Diversidade também aparece na formação de facilitadores

Outro estudo analisou 13 organizações dos Estados Unidos que oferecem formação para facilitadores de terapias psicodélicas.

O levantamento encontrou conteúdos relacionados a diversidade, equidade, inclusão e justiça, além de temas como humildade cultural, desigualdade, colonialidade, guerra às drogas, acesso e inclusão.

A formação também aborda aspectos como autonomia do paciente, ética, segurança, consentimento e relações de poder, elementos considerados importantes para profissionais que acompanham experiências psicodélicas.

Mas há uma ressalva.

Os programas são bastante heterogêneos e ainda não existem padrões compartilhados para toda a área. Os pesquisadores também identificaram limitações de tempo e recursos, que dificultam o aprofundamento de determinados conteúdos.

O estudo entrevistou representantes de 13 programas entre dezembro de 2024 e abril de 2025. Dos 20 programas inicialmente contatados, 13 aceitaram participar.

Entre os conteúdos considerados relevantes estavam:

  • humildade cultural;
  • autorreflexão;
  • respeito à autonomia;
  • competência relacional;
  • compreensão dos contextos históricos dos psicodélicos;
  • desigualdades sociais;
  • colonialidade;
  • trauma coletivo;
  • diversidade e justiça social.

Ainda assim, os autores observaram que alguns programas não tinham tempo ou recursos suficientes para trabalhar determinados aspectos de maneira aprofundada.

Essa diferença entre reconhecer a importância da diversidade e conseguir incorporá-la efetivamente revela um dos dilemas atuais do campo.

Por que a inclusão importa para os tratamentos psicodélicos?

A discussão não é apenas acadêmica.

A pesquisa psicodélica vive um momento de expansão científica e clínica, com estudos investigando substâncias como psilocibina e MDMA em diferentes condições de saúde mental. À medida que esse conhecimento avança, cresce também a necessidade de compreender para quem os resultados são realmente aplicáveis.

Uma ciência psicodélica mais diversa pode ajudar a identificar experiências, necessidades e barreiras que talvez permaneçam invisíveis quando determinados grupos aparecem pouco nas pesquisas.

Também pode contribuir para o desenvolvimento de formas de cuidado culturalmente mais sensíveis.

Isso não significa presumir que todas as pessoas de um determinado grupo tenham as mesmas experiências. Pelo contrário: significa reconhecer que contexto social, histórico, cultural e econômico pode influenciar a relação de uma pessoa com a saúde, com instituições e com tratamentos.

O estudo sobre formação de facilitadores reforça justamente essa dimensão. Os pesquisadores destacam que competências relacionadas à diversidade não devem ser reduzidas a conteúdos teóricos. Em alguns programas, a própria composição diversa das turmas é vista como uma oportunidade de aprendizagem, permitindo que profissionais convivam com pessoas de diferentes origens culturais, religiosas e demográficas.

O desafio é mudar quem produz o conhecimento

Existe uma frase silenciosa por trás dos números: não basta estudar comunidades historicamente excluídas. É preciso permitir que elas também tenham voz na construção do conhecimento.

Essa talvez seja a principal contribuição da revisão.

Quando apenas pesquisadores e instituições definem as perguntas, os métodos e as formas de recrutamento, existe o risco de reproduzir justamente as desigualdades que a pesquisa pretende compreender.

A participação comunitária pode ajudar a aproximar a ciência das experiências concretas das pessoas.

Isso envolve ouvir organizações locais, compreender obstáculos cotidianos, adaptar estratégias de recrutamento e criar mecanismos para que a participação tenha consequências reais sobre as decisões da pesquisa.

No caso dos psicodélicos, essa discussão ganha uma camada adicional. Muitas dessas substâncias possuem histórias que ultrapassam os laboratórios e se conectam a tradições culturais, espirituais e indígenas. O estudo sobre formação de facilitadores, por exemplo, reconhece que algumas linhagens tradicionais e indígenas não estão representadas nos modelos comerciais de treinamento analisados e que esse conhecimento demandaria investigações próprias.

É uma lembrança importante: a história dos psicodélicos não começou nos centros de pesquisa contemporâneos.

Uma ciência mais inclusiva ainda está sendo construída

Os resultados não significam que toda pesquisa psicodélica seja inadequada ou que seus resultados devam ser descartados. A revisão não estabelece uma relação causal entre a ausência de participação comunitária e a sub-representação racial.

O que ela faz é apontar uma lacuna que merece ser enfrentada.

A ciência psicodélica está crescendo, mas ainda carrega perguntas sobre quem participa, quem é ouvido e quem permanece do lado de fora.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das tarefas mais importantes para os próximos anos: fazer com que inovação científica e inclusão caminhem juntas.

Porque ampliar o conhecimento não deveria significar apenas descobrir novas possibilidades terapêuticas. Deveria significar também garantir que diferentes pessoas possam se reconhecer como parte dessa descoberta.

Afinal, uma ciência que pretende cuidar de pessoas precisa, antes de tudo, aprender a escutá-las.

Fonte: Cañamo — matéria que repercutiu os estudos sobre inclusão racial na ciência psicodélica