Como contar sobre a cannabis com a família sem medo?
Entrevistamos a psicóloga Letícia Larangeira, do @psicocannabisbrasil para saber como contar sobre a cannabis para família e amigos. Confira!

Em uma sociedade ainda atravessada pelo preconceito e pela desinformação, descobrir como contar sobre a cannabis pode significar mais do que revelar uma escolha ou uma forma de tratamento. Pode ser também uma tentativa de construir um espaço de confiança onde antes existia medo.
O tema foi abordado pelo portal El Planteo, que reuniu orientações para quem deseja conversar sobre cannabis com familiares e amigos. Entre as recomendações estão ouvir as preocupações do outro, compartilhar informações confiáveis e evitar transformar o diálogo em uma disputa para convencer alguém.
Mas, na vida real, como essa conversa acontece?
Para entender os sentimentos envolvidos nesse processo, o Sechat conversou com exclusividade com Letícia Larangeira Carvalho, psicóloga canábica de São Paulo.
O medo de falar também é construído pelo preconceito
Para Letícia, compreender como contar sobre a cannabis exige olhar primeiro para o contexto em que essa conversa acontece.

“Viver em um país que ainda criminaliza o cultivo de uma planta com reconhecido uso medicinal, que persegue, mata e encarcera pessoas envolvidas em seu acesso e que, em diferentes situações, dificulta ou impede a atuação de associações de pacientes, enquanto, por outro lado, já comercializa dezenas de produtos à base de cannabis nas farmácias, é, por si só, uma experiência assustadora e profundamente contraditória”, afirma.
Segundo a psicóloga, essa contradição mostra que a discussão não envolve apenas a planta, mas também quem consegue acessá-la, em quais condições e a que custo.
Os efeitos do proibicionismo, explica, não atingem todas as pessoas da mesma maneira e recaem de forma especialmente violenta sobre populações negras e periféricas.
Para pacientes que utilizam cannabis medicinal, esse cenário pode transformar uma possibilidade de cuidado em motivo de medo, estigma e insegurança.
Mas o receio de falar não está apenas nas consequências externas. Ele também pode morar dentro de cada pessoa.
“A proibição não está somente ‘fora’, nas leis, na repressão e no estigma: ela também pode estar ‘dentro’, na maneira como sentimos, julgamos e interpretamos o uso de cannabis, inclusive quando somos nós mesmos que fazemos uso.”
É por isso que uma pessoa pode ter medo de ser considerada “problemática”, dependente ou irresponsável ao revelar seu uso. Em algumas situações, surgem ainda preocupações relacionadas ao trabalho, aos filhos, à segurança ou à possibilidade de rompimento de vínculos.
Na clínica psicocanábica, Letícia considera importante compreender de onde esses medos vêm e quais deles estão relacionados a experiências concretas ou foram aprendidos socialmente.
“Nosso desafio é pensar em como podemos construir condições e espaços seguros para que a pessoa fale sobre seu uso sem precisar esconder, mentir ou se envergonhar de uma prática que, para ela, pode estar relacionada ao cuidado e à qualidade de vida.”
Antes de convencer, é preciso compreender
Não existe uma fórmula única para como contar sobre a cannabis. Afinal, cada família tem uma história, valores, experiências e conhecimentos diferentes sobre o assunto.
Por isso, Letícia defende o que chama de uma espécie de “cartografia” dos interesses e das relações daquela família com a cannabis.
“Considero importante cartografar esse contexto: compreender como aquela família se relaciona com o tema, quais são seus medos, preconceitos, curiosidades e possibilidades de diálogo, para então construir uma estratégia que faça sentido para aquele grupo.”
Na prática, isso significa observar quem está do outro lado da conversa. O que desperta curiosidade? Quais são os medos? Que tipo de informação aquela pessoa estaria mais aberta a receber?
A própria história da psicóloga com o pai ajuda a traduzir essa ideia.
A história de Letícia com o pai mostra outro caminho
Letícia conta que o pai era bastante preconceituoso em relação à cannabis, mas tinha grande interesse por esportes. Em vez de iniciar uma conversa diretamente sobre o preconceito, ela encontrou nesse interesse uma possibilidade de aproximação.
“Meu pai era muito preconceituoso e gostava muito de esportes. Então comecei assim: compartilhando com ele notícias, artigos sobre CBD e esporte, relatos dos esportistas que usavam. Fui abrindo o caminho.”
A estratégia foi criando, aos poucos, um repertório diferente daquele construído pelo imaginário proibicionista. E esse caminho ganhou uma importância ainda maior em 2022, quando o pai recebeu um diagnóstico de câncer.
“Quando, em 2022, ele teve câncer, foi muito mais fácil dialogar sobre a necessidade do tratamento para além do próprio preconceito”, conta.
Segundo Letícia, o pai aceitou o tratamento com cannabis, seguiu o protocolo indicado e apresentou uma evolução clínica que, de acordo com seu relato, surpreendeu os médicos que o acompanhavam.
“Meu pai aceitou o tratamento, fez o protocolo correto, teve um desempenho inacreditável para os médicos que o acompanhavam. Não emagreceu durante as terríveis 30 sessões de quimioterapia e radioterapia, operou e hoje está em remissão total.”
O relato pessoal da psicóloga não deve ser interpretado como comprovação de que a cannabis, isoladamente, tenha provocado a remissão do câncer. A história ilustra, sobretudo, a importância de construir pontes de diálogo antes que uma situação de saúde exija uma conversa ainda mais delicada.
Para Letícia, como contar sobre a cannabis pode começar justamente pelo que aproxima, e não necessariamente pelo que divide.
“É muito importante partir do interesse e da necessidade da própria pessoa.”
Informação pode abrir espaço para o diálogo
Quando existe preconceito ou falta de informação, buscar fontes confiáveis pode ajudar a mudar o tom da conversa.
Conhecer evidências científicas, relatos de pacientes e diferentes possibilidades terapêuticas pode ampliar o repertório de familiares e amigos. Mas, para Letícia, a informação deve funcionar como uma ponte — e não como uma arma.
“Não é preciso chegar à conversa com a família tentando convencer ninguém. Às vezes, o mais importante é perguntar: o que essa pessoa precisa que sua família compreenda? O que ela teme? Que tipo de apoio gostaria de receber?”
A psicóloga também sugere filmes e documentários que podem ajudar a iniciar esse diálogo, como Ilegal: A vida não espera (2014), Dirijo: A maconha antes da proibição (2008), The Scientist (2015) e Weed the People (2018).
A proposta é permitir que novas informações encontrem espaço para ser ouvidas.
“Ver depoimentos de outros pacientes e familiares também pode ser importante, porque permite reconhecer outras experiências possíveis para além daquelas produzidas pelo imaginário proibicionista.”
Nesse processo, como contar sobre a cannabis deixa de ser uma busca pela frase perfeita e passa a envolver escuta, contexto e respeito pelo tempo de cada pessoa.
“Para isso, precisamos criar espaços em que a escuta possa acontecer com respeito, abertura e cuidado, porque, antes de tudo, é de saúde que estamos falando.”
E quando a família reage mal?
Nem toda conversa termina como imaginamos. Às vezes, depois de descobrir como contar sobre a cannabis, a pessoa encontra justamente aquilo que mais temia: julgamento, raiva, silêncio ou rejeição.
Nesses momentos, preservar a saúde emocional também precisa ser prioridade.
“Uma reação negativa da família pode ser muito dolorosa. Por isso, buscar o acompanhamento de uma psicóloga que tenha conhecimento sobre cannabis pode ser muito importante”, orienta Letícia.
Ela ressalta ainda que nem todo apoio é, necessariamente, acolhedor.
“Quando quem acolhe também reproduz preconceitos e desinformação, pode acabar aumentando a culpa, a vergonha, a ansiedade e o sofrimento de quem está buscando cuidado.”
Por isso, não é necessário responder imediatamente a todos os questionamentos ou tentar desconstruir décadas de preconceito em uma única conversa.
Algumas pessoas precisarão de tempo para elaborar o que ouviram. Outras talvez nunca concordem completamente. E preservar um vínculo familiar não significa aceitar violência, desrespeito ou deslegitimação.
“Preservar o vínculo com a família não significa abrir mão dos próprios limites, nem aceitar violência, desrespeito ou deslegitimação.”
No fim, saber como contar sobre a cannabis talvez tenha menos relação com encontrar as palavras perfeitas e mais com criar condições para que elas possam ser ouvidas.
Porque algumas conversas não mudam opiniões imediatamente. Mas podem abrir uma fresta. E, por ela, entrar informação, escuta e, quem sabe, um pouco mais de compreensão.
