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Como o THC consegue eliminar pesadelos do trauma. Veja

Descubra como um estudo da Charité provou que o THC pode eliminar os pesadelos causados pelo TEPT e devolver a qualidade do sono. Clique e confira!

Como o THC consegue eliminar pesadelos do trauma. Veja
Ilustração de uma pessoa dormindo enquanto sinais de ondas cerebrais e um frasco de medicamento à base de cannabis surgem ao fundo, representando o tratamento com THC para pesadelos e trauma. Imagem gerada por IA
O THC, principal composto psicoativo da cannabis, acaba de ganhar um novo e importante papel no tratamento da saúde mental. Um estudo publicado em 5 de agosto de 2026 na revista científica Nature Medicine revelou que um medicamento à base de THC demonstrou eficácia significativa na redução e até na eliminação de pesadelos recorrentes em pacientes com Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).

 

O que é o TEPT e por que os pesadelos são um problema
 

O Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) é uma condição psiquiátrica que pode se desenvolver após a exposição a eventos traumáticos, como violência, acidentes graves, desastres naturais ou situações de guerra. Entre os sintomas mais debilitantes do TEPT estão os pesadelos recorrentes relacionados ao trauma, que afetam a qualidade do sono e agravam o sofrimento psicológico dos pacientes.


Até recentemente, não existia nenhum medicamento aprovado especificamente para tratar pesadelos relacionados ao trauma na Alemanha, deixando muitos pacientes sem opções terapêuticas eficazes. Antidepressivos e medicamentos para pressão arterial são comumente usados, mas oferecem alívio apenas parcial e geralmente não ajudam especificamente com os pesadelos.


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O estudo da Charité – Universitätsmedizin Berlin
 

Pesquisadores do Hospital Alemão Charité – Universitätsmedizin Berlin conduziram um ensaio clínico multicêntrico, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, considerado o padrão-ouro da pesquisa clínica.


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Metodologia do estudo

 

  • Participantes: 171 adultos diagnosticados com TEPT e pesadelos recorrentes (idade média de 37,9 ± 12,8 anos; 79,3% mulheres)


     

  • Tratamento: Dronabinol (BX-1; $\Delta^9$-tetrahidrocanabinol/THC) ou placebo administrados uma vez ao dia antes de dormir


     

  • Duração: 10 semanas de tratamento contínuo


     

  • Dosagem: Variações entre 2,5 mg e 15 mg por noite


     

  • Design: 87 pacientes foram randomizados para dronabinol e 84 para placebo


     

  • Medida primária: Mudança na pontuação do item B2 da CAPS-IV (Clinician-Administered PTSD Scale for DSM-IV), que avalia frequência e intensidade dos pesadelos


     

O estudo foi conduzido em colaboração com a Clínica Universitária de Psiquiatria do Hospital St. Hedwig da Charité, o Hospital Universitário Eppendorf de Hamburgo e o Instituto Central de Saúde Mental em Mannheim. A empresa farmacêutica Bionorica SE apoiou o trabalho.


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Resultados: redução significativa na frequência e intensidade dos pesadelos

Os resultados publicados na Nature Medicine revelaram dados estatisticamente significativos sobre a eficácia do dronabinol no tratamento de pesadelos relacionados ao trauma.


 

Principais achados

 

  • Diferença entre grupos: Na semana 10, a redução nos escores CAPS-IV B2 foi significativamente maior com dronabinol do que com placebo (diferença entre grupos de -1,50; intervalo de confiança de 95% de -2,28 a -0,71; Cohen's d = 0,65; $P < 0,001$)


     

  • Redução absoluta: No grupo tratado com dronabinol, a carga média de pesadelos diminuiu 3,7 pontos em uma escala de 0 a 8, enquanto no grupo placebo a redução foi de 2,2 pontos


     

  • Eliminação completa dos pesadelos: Mais de um terço (aproximadamente 35-37%) dos pacientes tratados relatou não ter tido nenhum pesadelo após as 10 semanas de tratamento, comparado a 15% no grupo placebo


     

  • Redução de pelo menos 50%: Outros 21% dos pacientes apresentaram redução de pelo menos metade na frequência ou intensidade dos pesadelos


     

  • Melhora subjetiva: Cerca de cinco em cada seis pacientes (aproximadamente 83%) do grupo tratado relataram melhora significativa em seu estado de saúde


     

  • Taxa de resposta: Mais da metade dos participantes respondeu ao tratamento


     

O professor Stefan Röpke, pesquisador responsável pelo projeto no Departamento de Psiquiatria e Neurociências da Charité, destacou que os resultados representam um avanço importante para pacientes que sofrem com esse sintoma particularmente angustiante do TEPT.


 

Como o THC age no cérebro

O dronabinol atua no sistema endocanabinoide, responsável por regular funções como sono, estresse e processamento de memórias emocionais. A hipótese dos pesquisadores é que o medicamento ajuda o cérebro a reduzir a atividade dos sonhos durante o sono REM — as fases intensas de sonho nas quais o cérebro processa experiências e regula emoções — aliviando assim as respostas de estresse noturnas.

 
É importante destacar que o efeito do tratamento se dirigiu especificamente aos pesadelos e à qualidade do sono, não alterando de forma conclusiva a gravidade geral do TEPT ou depressões concomitantes. Isso significa que o dronabinol não substitui a psicoterapia ou outros tratamentos para o transtorno como um todo, mas oferece alívio para um sintoma particularmente debilitante.


 

Segurança e tolerabilidade do tratamento

Um dos aspectos mais relevantes do estudo foi o perfil de segurança do dronabinol.


 

Eventos adversos observados

  • Eventos adversos gerais: Ocorreram em 78 pacientes (89,7%) recebendo dronabinol e 64 (77,1%) recebendo placebo


     

  • Descontinuação por eventos adversos: Cinco pacientes (5,7%) no grupo dronabinol e seis (7,2%) no grupo placebo interromperam o tratamento devido a eventos adversos


     

  • Eventos adversos graves: Ocorreram em sete pacientes (8,0%) recebendo dronabinol e em nenhum recebendo placebo


     

  • Efeitos adversos mais comuns: Tontura, dores de cabeça e aumento do apetite, todos de intensidade leve a moderada, ocorreram com maior frequência no grupo dronabinol


     

  • Sem sintomas de abstinência: Após a interrupção do tratamento, os pesquisadores não observaram sinais de dependência ou sintomas de abstinência


     

Os autores ressaltam que o tratamento não corresponde ao uso da cannabis fumada ou de produtos vendidos sem controle de qualidade, reforçando a importância do uso de medicamentos farmacêuticos com dosagens controladas e acompanhamento médico.
 
 
Com ação comprovada no sistema endocanabinoide, o THC se consolida na cannabis medicinal por seu poderoso efeito no alívio de dores crônicas, distúrbios do sono e sintomas severos do TEPT.

 

Limitações e próximos passos da pesquisa

Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores destacam algumas limitações e questões que ainda precisam ser investigadas:


 

  • Duração do efeito: Permanece em aberto se o benefício persiste além das 10 semanas de tratamento ou se desenvolve um efeito de tolerância com o uso prolongado


     

  • Estudos de longo prazo: Os autores defendem a realização de novas pesquisas para avaliar os efeitos do tratamento em períodos mais extensos


     

  • Aprovação regulatória: Não há aprovação específica para essa indicação na Alemanha, embora a prescrição seja possível em casos individuais a critério médico desde a lei "Cannabis para fins médicos" de 2017


     

O estudo está registrado no ClinicalTrials.gov sob o número NCT04448808.

 

Cannabis medicinal no contexto do TEPT

Este estudo se soma a evidências crescentes sobre o potencial terapêutico dos canabinoides no manejo do TEPT. Pesquisas anteriores já haviam sugerido que os canabinoides podem ajudar a amenizar sintomas como ansiedade, distúrbios do sono e episódios recorrentes de pesadelos.


 

Medicamentos à base de cannabis já são utilizados no tratamento da dor, especialmente quando terapias padrão não funcionam bem o suficiente ou causam efeitos colaterais intoleráveis. Na Alemanha, o acesso tornou-se mais fácil após a entrada em vigor da lei "Cannabis para fins médicos" em 2017, que expandiu o uso médico e científico de canabinoides derivados de plantas ou produzidos sinteticamente.


 

O que isso significa para pacientes com TEPT

Os resultados deste estudo oferecem esperança para milhões de pessoas que sofrem com pesadelos relacionados ao trauma em todo o mundo. Para pacientes que não respondem aos tratamentos convencionais ou que buscam alternativas terapêuticas, o dronabinol pode representar uma opção válida quando prescrita e acompanhada por profissionais de saúde qualificados.


 

No entanto, é fundamental que os pacientes entendam que:


 

  • O medicamento trata especificamente os pesadelos, não o TEPT como um todo


     

  • A psicoterapia continua sendo essencial para o tratamento do transtorno


     

  • O uso deve ser sempre supervisionado por médicos, com dosagens controladas


     

  • Produtos de cannabis sem regulamentação não oferecem as mesmas garantias de segurança e eficácia


     

Perspectivas futuras

Os novos dados fortalecem o argumento para o uso de canabinoides no manejo de sintomas específicos do TEPT e podem influenciar futuras decisões regulatórias sobre aprovação de medicamentos à base de THC para essa indicação. Enquanto isso, a pesquisa continua, com estudos em andamento para avaliar efeitos de longo prazo e potenciais aplicações em outras populações de pacientes.


 

Os próximos passos dos pesquisadores incluem determinar se o uso do canabinoide também é eficaz e seguro a longo prazo ou se desenvolve um efeito de tolerância ao longo do tempo.


 

Referência do Estudo: Roepke S, Schoofs N, Priebe K, et al. Dronabinol for nightmares in post-traumatic stress disorder: a randomized controlled trial. Nature Medicine. 2026 Aug 5. doi: 10.1038/s41591-026-04546-9.


 

Registro do Ensaio Clínico: ClinicalTrials.gov: NCT04448808


 

Fontes: Charité – Universitätsmedizin Berlin, Comunicado de Imprensa de 05.08.2026; Nature Medicine; PubMed (PMID: 42557458)


 

Apoio: O estudo foi apoiado pela empresa farmacêutica Bionorica SE.