Educação médica é desafio da cannabis no Brasil

Setor avança com regulação da Anvisa, mas ainda enfrenta barreiras na prescrição clínica e na formação dos profissionais de saúde

Publicada em 09/06/2026

Educação médica é desafio da cannabis no Brasil
Leandro Beltrão, CEO da FarmaUSA, destaca desafios e avanços da cannabis medicinal no Brasil. Foto: Ilustração IA

O mercado de cannabis medicinal no Brasil segue em expansão, impulsionado por avanços regulatórios recentes. No entanto, segundo o CEO da FarmaUSA, Leandro Beltrão, o principal gargalo do setor não está na produção ou na indústria, mas na capacitação da classe médica.

“O ponto que precisa mais de investimento no cenário nacional é a educação médica. É realmente levar informação adequada para que a classe médica tenha conhecimento técnico-científico e prescreva da forma correta”, afirmou.

Apesar do crescimento no número de prescritores, Beltrão destaca que a adesão ainda é limitada. Atualmente, o Brasil conta com cerca de 800 mil médicos ativos, mas apenas uma parcela reduzida atua de forma consistente com cannabis medicinal. “Já tivemos quase 50 mil médicos prescrevendo, mas os que fazem isso de forma contínua, com pacientes mensais, não chegam a 10 mil”, explicou.

Para o executivo, o desafio central é estrutural e passa pela ponta do sistema de saúde. “O maior desafio não é só plantar ou fabricar, é conseguir chegar na farmácia de forma adequada e levar essa educação médica para todo o país”, pontuou.

Nesse contexto, Beltrão avalia positivamente as recentes atualizações da Anvisa, especialmente no que diz respeito ao mercado magistral. Segundo ele, a agência tem atuado de forma estratégica para ampliar o acesso dos pacientes. “A Anvisa está sendo muito assertiva nas atualizações das RDCs. Isso amplia o acesso tanto no mercado farmacêutico convencional quanto no magistral, permitindo que mais pacientes tenham acesso a produtos à base de cannabis”, concluiu.

Com a evolução regulatória e o fortalecimento da cadeia farmacêutica, a tendência é de ampliação do acesso, desde que acompanhada por investimentos robustos em educação médica e formação científica.

 

 

 

Entenda as novas regras da Anvisa para cannabis medicinal

As recentes atualizações regulatórias da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) consolidam um novo marco para o setor de cannabis medicinal no Brasil, com impacto direto sobre cultivo, pesquisa, produção e acesso de pacientes.

As normas foram publicadas no Diário Oficial da União após aprovação na reunião da Diretoria Colegiada (Dicol) realizada em 28 de janeiro de 2026.

Entre os principais destaques, a RDC nº 1.012/2026 e a RDC nº 1.013/2026 regulamentam o cultivo para fins científicos e medicinais. Ambas entram em vigor em 4 de agosto de 2026, estabelecendo critérios de controle, segurança e rastreabilidade.

A RDC nº 1.014/2026 define regras específicas para associações de pacientes sem fins lucrativos, com exigência de monitoramento, qualidade e rastreabilidade, sem autorização para comercialização.

No eixo industrial e de acesso, a RDC nº 1.015/2026, publicada em 2 de fevereiro de 2026 e em vigor desde 4 de fevereiro de 2026, atualiza o marco regulatório de fabricação e importação de produtos de cannabis no Brasil, substituindo a RDC nº 327/2019.

A norma estabelece critérios técnicos mais detalhados para qualidade farmacêutica, boas práticas de fabricação, estudos de estabilidade e evidências científicas. Também amplia o acesso ao incluir novas condições clínicas e permitir diferentes vias de administração.

No contexto do setor magistral, a RDC 1.015 abre caminho para a participação das farmácias de manipulação no ecossistema da cannabis medicinal. A manipulação ainda depende de regulamentação específica futura, mas a Anvisa já sinaliza a inclusão desse canal de forma controlada no sistema farmacêutico.