Ciência & Tecnologia

Estudo clínico vai avaliar CBD para ansiedade em 60 pacientes

Pesquisa brasileira acompanhará adultos com transtorno de ansiedade generalizada por oito semanas; protocolo está registrado no ClinicalTrials.gov

Estudo clínico vai avaliar CBD para ansiedade em 60 pacientes
Estudo clínico brasileiro vai avaliar produto de CBD em pacientes com transtorno de ansiedade generalizada. Imagem ilustrativa

A Lidera Health, a Associação Pan-Americana Multidisciplinar de Endocanabinologia (APMC) e a norte-americana Canna River anunciaram um estudo clínico brasileiro com 60 adultos diagnosticados com transtorno de ansiedade generalizada. A pesquisa avaliará, durante oito semanas, o uso do CannaRiver CBD Calm, um óleo de amplo espectro à base de canabinoides, com acompanhamento remoto e registro no ClinicalTrials.

O estudo ainda não iniciou o recrutamento dos participantes. Segundo o registro público, a previsão é que a pesquisa comece em novembro de 2026. O protocolo prevê acompanhamento até a 12ª semana e está descrito como um estudo intervencional, aberto, de grupo único e sem grupo placebo ou comparador. 

 

Como será o estudo com CBD para ansiedade

 

A pesquisa terá como objetivo principal avaliar a mudança na pontuação da escala GAD-7, instrumento utilizado para medir a intensidade dos sintomas do transtorno de ansiedade generalizada, entre o início do acompanhamento e a oitava semana.

Também serão observados indicadores relacionados à qualidade do sono, bem-estar psicológico, adesão ao tratamento, tolerabilidade e segurança. O protocolo prevê avaliações nas semanas 2, 4, 6, 8 e 12. 

De acordo com o registro do estudo, os participantes receberão o CannaRiver CBD Calm por via oral ou sublingual, em dose protocolar de 0,5 mL aproximadamente a cada 12 horas durante oito semanas. A formulação descrita no registro é de amplo espectro e contém CBD, CBN e CBG. 

A pesquisa terá uma amostra de 60 participantes adultos, com idade prevista entre 18 e 65 anos. Entre os critérios de inclusão estão diagnóstico clínico confirmado de transtorno de ansiedade generalizada e pontuação mínima de 10 na escala GAD-7 no período de avaliação. 

 

Estudo não terá grupo placebo

 

O desenho da pesquisa é um ponto importante para a interpretação dos resultados. Todos os participantes receberão a intervenção avaliada, sem grupo placebo ou grupo de comparação.

Com isso, eventuais mudanças observadas ao longo do acompanhamento poderão ser descritas, mas o próprio protocolo estabelece que o desenho não permite determinar que uma eventual melhora tenha sido causada exclusivamente pelo produto. O registro classifica os resultados como descritivos e geradores de hipóteses. 

O estudo está registrado no ClinicalTrials.gov, plataforma pública de registro de pesquisas clínicas. O cadastro informa a APMC como responsável pelo estudo, José Wilson N. V. Andrade como pesquisador principal e a Lidera Health Tecnologia Ltda. e a Canna River LLC DBA River Botanicals como colaboradores. 

Segundo as informações fornecidas pelas instituições, o protocolo também está em submissão ao sistema brasileiro de ética em pesquisa, formado pelos Comitês de Ética em Pesquisa (CEP) e pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (CONEP).

 

Relação com a importação pela RDC 660

 

A pesquisa envolve um produto utilizado no Brasil por meio do mecanismo de importação excepcional previsto na RDC 660/2022. A norma permite que pessoas físicas importem produtos derivados de Cannabis para uso próprio mediante prescrição de profissional legalmente habilitado e autorização da Anvisa. (Serviços e Informações do Brasil)

A própria Anvisa ressalta que esses produtos não possuem registro sanitário na Agência e que sua importação ocorre de forma excepcional para tratamento individual. A autorização não significa que a Anvisa tenha avaliado previamente a eficácia, a qualidade ou a segurança de cada produto importado. 

A regulamentação também estabelece que a importação pela RDC 660 é destinada ao uso próprio do paciente e não permite a comercialização do produto no território brasileiro por pessoas jurídicas. 

Segundo o release divulgado pelas instituições responsáveis pelo estudo, a Canna River teve 33.621 pedidos de importação em 2025, de um total de 196.407 pedidos, com base em dados da Anvisa obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação. O dado foi apresentado pelas empresas como indicativo de que a marca teve o maior número de pedidos de importação naquele ano.

A informação sobre a liderança da marca nos pedidos de 2025 consta do material fornecido para divulgação da pesquisa, mas não foi localizada, na consulta realizada para esta reportagem, em uma base pública da Anvisa que permita verificar diretamente a classificação por marca. Por isso, o dado é atribuído ao levantamento citado pelas instituições.

 

Pesquisa busca produzir dados sobre uso de produto importado

 

Para Robson Ribeiro, CEO da Lidera Health, o estudo pretende gerar dados clínicos a partir do uso de produtos que já fazem parte da rotina de pacientes brasileiros.

“Nosso objetivo é que o médico prescreva com a mesma segurança com que prescreve qualquer outro tratamento, e isso se constrói com dado.”

Já José Wilson Nunes Vieira de Andrade, presidente da APMC e pesquisador responsável, afirma que a participação da associação busca ampliar a responsabilidade das entidades médicas na produção de evidências sobre tratamentos utilizados no país.

Wes Boatman, CEO da Canna River, afirmou que a empresa pretende submeter o produto a uma avaliação ética independente e publicar os resultados, independentemente de serem favoráveis ou não.

As três declarações foram fornecidas no release divulgado pelas instituições envolvidas e aprovadas, segundo o material encaminhado ao Sechat.

 

O que o estudo poderá responder

 

A pesquisa poderá fornecer dados sobre a evolução dos sintomas de ansiedade, sono, bem-estar e segurança durante o período de acompanhamento. No entanto, seu desenho não permitirá estabelecer uma relação causal entre o uso do produto e eventuais mudanças observadas.

A ausência de grupo controle e o número limitado de participantes são aspectos que deverão ser considerados na interpretação dos resultados. O próprio registro classifica a pesquisa como não randomizada e de grupo único. 

A iniciativa ocorre em um cenário no qual diferentes estudos vêm investigando a relação entre canabinoides e sintomas de ansiedade. Revisões e pesquisas clínicas anteriores já avaliaram CBD e outros canabinoides, mas os resultados variam conforme a formulação, dose, população estudada e desenho metodológico.

Um estudo publicado em setembro de 2026, por exemplo, observou redução de sintomas de ansiedade em uma pequena amostra de pacientes que utilizavam uma formulação de óleo full-spectrum rica em CBD, mas os próprios pesquisadores apontaram limitações relacionadas ao caráter observacional e ao tamanho da amostra. 

O registro do novo estudo prevê início estimado em novembro de 2026, conclusão da avaliação primária em março de 2027 e encerramento completo em abril de 2027. 

 

Leia tambem: