Estudo com 5 mil homens não encontra maior declínio cognitivo associado ao uso de cannabis
Pesquisa acompanhou 5.162 homens dinamarqueses por cerca de 44 anos e não identificou associação entre uso de cannabis. Saiba a maior perda:

Um estudo realizado na Dinamarca e publicado na revista científica Brain and Behavior não encontrou associação entre o uso de cannabis e um maior declínio da função cognitiva entre o início da vida adulta e a meia-idade avançada. A pesquisa acompanhou 5.162 homens por um período médio de 44 anos.
O trabalho, publicado em novembro de 2024, utilizou dados da coorte Danish Aging and Cognition (DanACo). Os participantes realizaram testes de capacidade cognitiva na juventude, durante a avaliação para o serviço militar, e novamente décadas depois.
Na primeira avaliação, os homens tinham, em média, 20 anos. No acompanhamento, a idade média era de 64 anos. A capacidade cognitiva foi avaliada pelo teste de inteligência Børge Prien's Prøve (BPP), aplicado nos dois momentos.
Entre os participantes, 2.028 (39,3%) relataram ter usado cannabis alguma vez na vida, enquanto 3.134 (60,7%) declararam nunca ou quase nunca ter utilizado a substância.
Usuários apresentaram menor queda média de QI
Considerando toda a amostra, a redução média no resultado do teste cognitivo entre as duas avaliações foi de 6,2 pontos de QI.
Entre os homens que nunca haviam usado cannabis, a queda média foi de 6,82 pontos. Já entre aqueles que relataram uso da substância, a redução média foi de 5,29 pontos.
Na análise estatística, o uso de cannabis foi associado a uma diferença de 1,53 ponto de QI na mudança cognitiva no modelo não ajustado. Após o controle de diferentes fatores, incluindo idade, intervalo entre os testes, QI inicial, escolaridade, consumo excessivo de álcool, tabagismo, uso de outras drogas, histórico de transtornos psiquiátricos e comorbidades, a diferença foi de 1,28 ponto.
Os autores, porém, ressaltam que essa diferença foi pequena, equivalente a cerca de 7% de um desvio-padrão, e pode não ter relevância clínica.
Por isso, o resultado não deve ser interpretado como evidência de que o uso de cannabis melhora ou protege a capacidade cognitiva. A própria pesquisa aponta que características dos participantes podem ter contribuído para a associação observada.
Idade de início não foi associada a maior declínio
A pesquisa também analisou se a idade em que os participantes começaram a usar cannabis estava relacionada à perda cognitiva.
Entre os usuários, 51,1% relataram ter iniciado o uso antes dos 18 anos, 43,5% entre 18 e 25 anos e 5,4% depois dos 25 anos.
Os pesquisadores não encontraram associação estatisticamente significativa entre a idade de início do uso e o declínio cognitivo observado ao longo do período analisado.
No modelo totalmente ajustado, aqueles que começaram entre 18 e 25 anos apresentaram uma diferença de 0,45 ponto em relação ao grupo que iniciou depois dos 25 anos, mas o resultado não foi estatisticamente significativo. Entre os que começaram antes dos 18 anos, a diferença foi de 0,95 ponto, também sem significância estatística.
Uso frequente também não apresentou associação significativa
Em uma análise que reuniu 1.114 participantes, os pesquisadores avaliaram ainda os anos de uso frequente de cannabis, definido no estudo como consumo duas vezes por semana ou mais.
Entre esses participantes, 78,3% não haviam apresentado uso frequente, 10,1% tiveram até 10 anos de uso frequente e 11,7% tiveram mais de 10 anos.
Não foram identificadas diferenças estatisticamente significativas no declínio cognitivo entre os grupos de usuários frequentes e aqueles sem uso frequente.
No modelo totalmente ajustado, tanto o grupo com até 10 anos de uso frequente quanto o grupo com mais de 10 anos apresentaram coeficiente de 0,59 ponto em comparação com aqueles sem uso frequente, mas os resultados não foram estatisticamente significativos.
Resultado deve ser interpretado com cautela
Apesar do longo período de acompanhamento, os pesquisadores destacam limitações importantes.
A principal delas foi a baixa taxa de participação na coorte: apenas 14,3% dos homens convidados participaram das avaliações de acompanhamento. Segundo os autores, os participantes apresentavam, em média, maiores resultados nos testes de inteligência, menor morbidade e maior escolaridade do que os homens que não participaram.
Além disso, o estudo foi realizado exclusivamente com homens nascidos entre 1949 e 1961. Dessa forma, os resultados não podem ser automaticamente generalizados para mulheres ou para populações mais jovens.
Outra limitação foi a forma de obtenção das informações sobre cannabis. O uso foi relatado retrospectivamente pelos próprios participantes durante o acompanhamento, o que pode estar sujeito a dificuldades de memória ou subnotificação.
Os pesquisadores também observaram que 27,8% dos usuários de cannabis haviam relatado uso de outras drogas ilícitas. Embora esse e outros fatores tenham sido considerados nas análises, os autores afirmam que não é possível excluir completamente a influência de variáveis não medidas.
Outro aspecto relevante é que 92,4% dos participantes que haviam usado cannabis não tinham utilizado a substância no ano anterior à avaliação de acompanhamento. Segundo os autores, isso pode ter influenciado os resultados, especialmente diante de evidências anteriores de que determinados efeitos cognitivos associados ao uso frequente podem diminuir após períodos prolongados de abstinência.
Estudo não elimina outras evidências sobre cannabis e cognição
Os autores destacam que pesquisas anteriores apresentaram resultados diferentes. Um estudo longitudinal realizado na Nova Zelândia, por exemplo, associou o uso frequente de cannabis a maior declínio de QI, especialmente entre pessoas que iniciaram o consumo durante a adolescência.
Outros estudos longitudinais, entretanto, não identificaram associação entre cannabis e aceleração do declínio cognitivo em adultos.
Para os pesquisadores dinamarqueses, o trabalho contribui para uma área ainda com evidências limitadas sobre os efeitos do uso de cannabis durante várias décadas da vida.
A conclusão do estudo é que, nessa população específica, o uso de cannabis não esteve associado a um maior declínio cognitivo entre o início da vida adulta e a meia-idade avançada. Os pesquisadores ressaltam, contudo, que são necessários novos estudos para determinar se os resultados indicam ausência de efeitos adversos duradouros sobre o declínio cognitivo ou se eventuais efeitos associados ao uso podem ser temporários e desaparecer após períodos prolongados sem consumo.
Fonte: Høeg, K. M. et al. Cannabis Use and Age-Related Changes in Cognitive Function From Early Adulthood to Late Midlife in 5162 Danish Men. Brain and Behavior, 2024. DOI: 10.1002/brb3.70136.
Fonte externa: Estudo publicado na Brain and Behavior
- DOI: 10.1002/brb3.70136
