Estudo traça perfil da prescrição de cannabis no Brasil
Estudo com 333 médicos identifica concentração de prescrição de cannabis na prática privada, presença relevante de importados e associações. Veja tudo.

A capacitação profissional, o local de atuação dos médicos e as condições de acesso dos pacientes estão entre os principais fatores associados à prescrição de cannabis no Brasil. É o que aponta uma pesquisa nacional com 333 médicos, publicada em 31 de agosto de 2026 na revista científica Pharmacoepidemiology, sobre a dispensação dos produtos à base de cannabis.
Além de descrever o perfil dos prescritores, o estudo conduzido por pesquisadores da USP e da UFF apresenta dados sobre origem dos produtos, participação das associações, composições mais utilizadas, indicações clínicas e faixas etárias atendidas.
Para empresas, os resultados oferecem sinais sobre demanda, canais de acesso e necessidades ainda não atendidas. Para médicos e outros profissionais de saúde, o trabalho evidencia a importância da capacitação, mas não fornece protocolos, doses ou comprovação de eficácia para condições específicas.
A pesquisa foi realizada por meio de questionário on-line entre setembro de 2024 e março de 2025. Participaram Caroline Taira Takara, Beatriz Inacio Gonçalves, Taynna Tatiane Pereira, Tácio de Mendonça Lima, Samara Jamile Mendes, Gabriel Rocha Martins, André Rolim Baby e Marília Berlofa Visacri.
Capacitação apresenta a associação mais forte
Dos 333 médicos incluídos na análise, 305, ou 91,6% da amostra, declararam prescrever produtos derivados de cannabis. Outros 28, equivalentes a 8,4%, disseram não prescrever.
O percentual não significa que 91,6% dos médicos brasileiros prescrevam cannabis. A pesquisa empregou recrutamento aberto e amostragem por conveniência, o que pode ter atraído profissionais que já apresentavam maior interesse ou experiência no tema.
Entre os prescritores, 76,1% afirmaram ter recebido capacitação específica. No grupo de não prescritores, apenas um médico relatou possuir esse tipo de formação, embora ainda não tivesse iniciado a prática.
Na análise ajustada, a capacitação foi o fator mais fortemente associado à prescrição. A razão de chances foi de 100,73, com intervalo de confiança de 95% entre 12,77 e 794,72 e valor de p inferior a 0,001.
O intervalo de confiança muito amplo demonstra, entretanto, uma incerteza considerável sobre a magnitude do resultado. O desequilíbrio entre o número de prescritores e não prescritores capacitados também exige cautela. O estudo identifica uma associação estatística, mas não comprova que a capacitação, isoladamente, leve o médico a começar a prescrever.
Falta de conhecimento ainda limita a entrada de médicos
Entre os 28 médicos que não prescreviam, 46,5% apontaram a falta de conhecimento ou de formação específica como principal motivo.
Outros 25% disseram que a terapia não fazia parte de sua especialidade ou prática profissional; 14,3% mencionaram o perfil dos pacientes ou a inviabilidade econômica; 7,1% citaram falta de evidências científicas ou de respaldo jurídico; e 7,1% apresentaram outras justificativas.
Para o mercado, os dados indicam demanda potencial por educação médica continuada, materiais técnico-científicos e suporte à decisão clínica. Esse movimento, porém, exige separação clara entre formação profissional e promoção comercial.
Cursos ou ações de relacionamento não substituem evidências clínicas, avaliação individualizada nem independência na prescrição. Empresas que atuam nessa frente também precisam observar as restrições sanitárias aplicáveis à publicidade e à comunicação dirigida aos profissionais de saúde.
Consultório privado concentra prescritores
O consultório particular era o principal ambiente de atuação de 67,9% dos prescritores participantes. Entre os médicos que não prescreviam, o serviço público apareceu como o local de trabalho mais frequente.
Após o ajuste estatístico, médicos com atuação predominante no setor público apresentaram menor chance de prescrever do que os profissionais da prática privada. A razão de chances ajustada foi de 0,23. Entre os médicos vinculados principalmente a planos de saúde, o índice foi de 0,17.
Esses resultados correspondem, respectivamente, a uma redução estimada de 77% e 83% nas chances de prescrição em comparação com a prática privada, dentro da amostra analisada. Eles não demonstram, contudo, que o tipo de vínculo profissional seja a causa direta dessa diferença.
Na perspectiva de negócios, a concentração no mercado privado sugere que o acesso permanece ligado à capacidade de pagamento por consulta, acompanhamento e produto. Para empresas, isso aponta simultaneamente um mercado já estabelecido no atendimento particular e um espaço ainda pouco desenvolvido na saúde suplementar e no sistema público.
A expansão para esses segmentos depende de fatores que vão além da geração de demanda, como avaliação de tecnologias em saúde, evidências de custo-efetividade, protocolos assistenciais, previsibilidade regulatória e mecanismos de incorporação e reembolso.
Importados predominam entre as marcas mencionadas
Entre os 305 prescritores, 35,4% mencionaram produtos importados, 14,8% citaram produtos nacionais e 40,7% relataram produtos fornecidos por associações de pacientes. As categorias foram construídas a partir das respostas abertas que permitiram identificar a origem ou o fornecedor.
Quando a análise considerou especificamente as marcas comerciais citadas, 75,8% eram importadas e 24,2% nacionais. Ao todo, os participantes mencionaram 44 marcas importadas e oito nacionais.
Esses percentuais não representam participação de mercado, faturamento, número de unidades vendidas nem volume total de prescrições. Eles mostram a diversidade e a frequência das marcas lembradas pelos médicos da amostra.
Ainda assim, a presença de 44 marcas estrangeiras sinaliza um ambiente competitivo fragmentado e uma dependência relevante da importação durante o período pesquisado. Para empresas nacionais, os dados indicam oportunidades relacionadas a preço, disponibilidade, prazo de entrega, assistência ao paciente e geração de evidências locais.
Para companhias estrangeiras, o resultado demonstra reconhecimento entre prescritores, mas também revela concorrência elevada e a necessidade de diferenciação baseada em qualidade, rastreabilidade, composição, estabilidade, documentação técnica e suporte farmacovigilante.
Associações permanecem como canal relevante
As associações foram citadas por 40,7% dos prescritores. A Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança (Abrace) apareceu em 92 respostas, equivalente a 30,2% dos 305 prescritores.
Na sequência foram mencionadas Apepi, por 24 participantes; Maria Flor, por 20; Aliança Medicinal, por 13; e Santa Gaia, por 11.
A presença das associações mostra que o mercado brasileiro não se organiza apenas entre produtos vendidos em farmácias e itens importados diretamente pelos pacientes. O modelo associativo constitui uma terceira via relevante de acesso, com características próprias de produção, assistência e relacionamento com prescritores e pacientes.
Como a coleta ocorreu antes das mudanças regulatórias de 2026, o levantamento também funciona como uma linha de base para acompanhar os efeitos do novo ambiente de supervisão das associações e da estruturação da produção nacional.
Saúde mental, neurologia e dor concentram indicações
Os transtornos mentais e comportamentais responderam por 37,4% das indicações relatadas. Em seguida apareceram as doenças do sistema nervoso, com 31,4%, e os sintomas e sinais clínicos gerais, categoria que incluiu dor crônica ou inespecífica, com 16,1%.
Para empresas, essas áreas representam segmentos de demanda relevantes. Para os profissionais de saúde, porém, a frequência de prescrição não deve ser confundida com força da evidência científica.
O estudo descreve o que os médicos participantes afirmaram prescrever. Ele não avaliou a eficácia dos produtos para cada condição, não comparou cannabis com tratamentos convencionais e não estabeleceu relação entre indicação, dose e desfecho clínico.
Assim, o fato de transtornos mentais aparecerem como a categoria mais citada não significa que existam evidências igualmente robustas para todas as condições incluídas nesse grupo. A decisão terapêutica deve considerar separadamente cada diagnóstico, produto, proporção entre canabinoides, via de administração, risco de interação e perfil do paciente.
CBD lidera, mas composições são heterogêneas
As composições mais mencionadas foram:
Óleos e extratos apareceram como as formas farmacêuticas mais citadas. As vias sublingual e oral também estiveram entre as mais informadas.
Apesar disso, somente 36 respostas, correspondentes a 11,8% dos prescritores, relacionaram claramente a composição do produto à indicação clínica. Diversas respostas não apresentaram concentração, proporção entre canabinoides, dose, via ou forma farmacêutica completa.
Para o prescritor, essa ausência impede concluir qual formulação foi utilizada, em que dose e para qual desfecho. O estudo também não apresenta protocolos de titulação, doses iniciais, doses de manutenção, duração do tratamento, frequência de eventos adversos ou interações medicamentosas.
Para empresas, a baixa associação entre composição e indicação expõe uma lacuna competitiva importante. Produtos acompanhados de documentação técnica consistente, certificado de análise verificável, dados de estabilidade, padronização por lote e evidências clínicas relacionadas à formulação podem oferecer maior segurança ao prescritor.
Essa diferenciação deve ser sustentada por dados e não apenas por alegações de marketing.
Idosos são o grupo mais mencionado
Pacientes com 60 anos ou mais foram a faixa etária mais citada: 83,6% dos prescritores disseram atender pessoas desse grupo. Em seguida apareceram as faixas de 50 a 59 anos, com 82%, e de 40 a 49 anos, com 81%.
Os participantes podiam selecionar mais de uma faixa etária. Portanto, esses números não representam a distribuição percentual do total de pacientes e não permitem calcular o tamanho de cada segmento no mercado brasileiro.
O predomínio de pacientes mais velhos merece atenção clínica. Essa população apresenta maior probabilidade de polifarmácia, alterações na função hepática e renal, risco de quedas e maior sensibilidade a efeitos adversos. A prescrição exige análise de interações, acompanhamento da resposta terapêutica e monitoramento de sintomas cognitivos, cardiovasculares e motores.
Do ponto de vista comercial, o resultado indica demanda potencial entre adultos mais velhos, mas também aumenta a responsabilidade das empresas na produção de informações farmacológicas, mecanismos de rastreabilidade e materiais de uso seguro.
Efeitos em até 30 dias não comprovam eficácia
Aproximadamente 66,9% dos médicos relataram observar efeitos terapêuticos em até 30 dias. O dado foi baseado na percepção dos participantes e não em escalas clínicas padronizadas, prontuários auditados ou comparação com grupos de controle.
Não foram informados, de maneira sistemática, o tipo de melhora, a intensidade do efeito, a dose utilizada, a duração da resposta ou os eventos adversos observados.
Por isso, o resultado não comprova que os produtos sejam eficazes em até 30 dias nem permite recomendar um período universal para avaliação. O tempo de resposta pode variar conforme diagnóstico, composição, dose, via de administração, tratamentos concomitantes e características individuais.
Para prescritores, esse é um dado sobre prática clínica relatada, não um protocolo terapêutico. Para empresas e investidores, também não deve ser empregado como alegação de eficácia ou promessa comercial.
O que a pesquisa indica para o setor
Os resultados apontam cinco sinais relevantes para empresas e profissionais:
- Capacitação é uma barreira estrutural: a falta de formação aparece como o principal motivo para a não prescrição.
- O mercado permanece concentrado no atendimento privado: a expansão para planos de saúde e SUS dependerá de evidências clínicas, econômicas e regulatórias.
- Importados mantêm alta visibilidade competitiva: 75,8% das marcas identificadas eram estrangeiras, embora o dado não represente participação de mercado.
- Associações integram a cadeia de acesso: 40,7% dos prescritores mencionaram produtos associativos.
- Falta padronização nas informações clínicas: apenas 11,8% relacionaram claramente composição e indicação, enquanto dose e desfechos permaneceram pouco detalhados.
O estudo mostra um setor com demanda clínica e diversidade de fornecedores, mas ainda marcado por desigualdade de acesso, heterogeneidade dos produtos e escassez de informações padronizadas.
Limitações impedem extrapolações nacionais
A pesquisa utilizou amostragem não probabilística e recrutamento on-line aberto. Médicos interessados em cannabis podem ter apresentado maior disposição para participar, produzindo viés de seleção.
O trabalho também se baseou em informações declaradas pelos próprios participantes, não calculou uma taxa geral de resposta e contou com somente 28 não prescritores. Médicos da Região Norte ficaram sub-representados.
O desenho transversal identifica associações em determinado período, mas não permite estabelecer causalidade nem acompanhar mudanças ao longo do tempo.
Os resultados devem, portanto, ser interpretados como um retrato exploratório dos participantes — e não como estimativa definitiva do universo de médicos, pacientes, prescrições ou vendas de cannabis medicinal no Brasil.
