Imposto sobre cannabis pode gerar bilhões nos Estados Unidos
Imposto sobre cannabis pode gerar até US$ 111,3 bilhões nos EUA em dez anos, segundo estudo da Universidade Yale. Confira!
O imposto sobre cannabis entrou no radar fiscal dos Estados Unidos com um número difícil de ignorar: US$ 111,3 bilhões em dez anos. Essa é a estimativa do Budget Lab, centro de pesquisa da Universidade Yale, caso o governo federal legalize a substância e todos os estados que ainda não permitem seu uso também adotem a legalização.
O cálculo, porém, do imposto sobre cannabis, esconde uma questão que vai muito além dos bilhões projetados. Para arrecadar, seria necessário saber com precisão quanto THC existe em cada produto vendido. E pesquisas recentes mostram que essa informação nem sempre corresponde ao que está, de fato, dentro da embalagem.
É aí que a discussão deixa de ser apenas econômica. Entre números, rótulos e laboratórios, a proposta de Yale coloca sobre a mesa uma pergunta essencial para o futuro do mercado regulado: como transformar potência em imposto quando a própria medição ainda enfrenta dificuldades?
Neste artigo você vai ver:
- Quanto o imposto sobre cannabis poderia arrecadar nos EUA;
- Como funcionaria a cobrança baseada no imposto sobre cannabis;
- Por que a precisão dos rótulos virou um problema;
- O que pesquisas realizadas no Colorado descobriram;
- Como o modelo foi testado e rejeitado no estado;
- O que ainda pode mudar nas projeções de Yale.
Quanto o imposto sobre cannabis poderia arrecadar?
O Budget Lab divulgou a análise em 17 de agosto e estimou que uma cobrança federal de US$ 0,00625 por miligrama de THC poderia gerar aproximadamente US$ 57,9 bilhões em dez anos, considerando a legalização federal e a manutenção das atuais políticas estaduais.
Em um segundo cenário, no qual todos os estados também legalizassem a cannabis para uso medicinal e adulto, a arrecadação projetada praticamente dobraria, chegando a US$ 111,3 bilhões no mesmo período.
A proposta de imposto sobre cannabis não considera um imposto convencional sobre o preço final do produto. Em vez disso, a cobrança seria vinculada à quantidade de THC.
Na prática, quanto maior a concentração do principal componente psicoativo da cannabis, maior seria o imposto.
Segundo o modelo, a taxa equivaleria a aproximadamente US$ 1,31 por grama de flor seca. Considerando um preço médio de US$ 8,59 por grama, o impacto seria de cerca de 15% no valor pago pelo consumidor.
A lógica se aproxima do modelo utilizado nos Estados Unidos para produtos como bebidas alcoólicas e tabaco, nos quais determinados tributos são calculados a partir da quantidade ou potência da substância, e não apenas pelo preço de venda.
Para os pesquisadores de Yale, essa estrutura poderia fazer com que a arrecadação acompanhasse o consumo efetivo do componente psicoativo, além de permanecer relativamente estável mesmo quando os preços de mercado oscilassem.
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THC e cannabis: por que a potência virou um problema?
A ideia parece simples no papel. Mas existe uma espécie de ponto cego no cálculo: o número estampado na embalagem precisa ser confiável.
E esse é justamente um dos maiores desafios apontados pela reportagem da Forbes e pelas pesquisas científicas utilizadas como referência para a discussão.
Um estudo publicado em 2025 na revista Scientific Reports analisou 277 produtos de cannabis, entre flores e concentrados, adquiridos em 52 dispensários do Colorado. Os pesquisadores compararam a potência declarada nos rótulos com a quantidade de THC encontrada por análises laboratoriais.
Os resultados chamaram atenção.
Entre os produtos de flor, apenas 56,7% estavam dentro da margem de precisão de ±15% adotada pelo estudo. Já entre os concentrados, o índice chegou a 96%.
Outro dado ajuda a dimensionar a diferença: algumas flores apresentavam no rótulo até 39% de THC, enquanto a maior concentração efetivamente observada pelos pesquisadores foi de 33%.
A pesquisa também identificou uma tendência importante: quando havia diferença, a concentração declarada frequentemente era superior à encontrada em laboratório.
Para consumidores e pacientes, a questão não é meramente tributária.
A informação sobre potência pode influenciar escolhas, percepção de efeito e, no caso de produtos utilizados com finalidade terapêutica, a compreensão sobre a quantidade de THC presente na formulação.
A professora associada da Universidade do Colorado Boulder e coautora sênior do estudo, Cinnamon Bidwell, destacou que, enquanto a ciência continua avançando na compreensão dos efeitos da cannabis, a informação sobre a quantidade de THC deveria ser confiável.
Imposto sobre cannabis: rótulos de cannabis podem alterar o valor do imposto
Existe ainda uma questão econômica por trás da diferença entre o THC declarado e o THC real.
Um outro estudo publicado em 2025 no International Journal of Drug Policy analisou 710.588 produtos de flores vendidos em 3.693 dispensários de 30 estados americanos. A pesquisa encontrou uma relação positiva entre o preço e a concentração de THC indicada no produto que, consequentemente ativam o imposto sobre cannabis.
A elasticidade-preço do THC foi estimada em 0,17. Em termos simples, produtos apresentados como mais potentes tendem a alcançar preços maiores.
Isso cria um incentivo econômico para que uma concentração elevada seja valorizada comercialmente.
Um produto rotulado como tendo 30% de THC pode custar mais do que outro apresentado com 20%. Mas, se a informação do rótulo estiver superestimada, surge uma distorção que pode afetar tanto o consumidor quanto a própria arrecadação.
Com um imposto baseado na potência, a lógica mudaria.
Um percentual de THC declarado acima do real deixaria de representar apenas uma vantagem comercial potencial. Ele também poderia aumentar a carga tributária incidente sobre o produto.
Essa inversão é uma das razões pelas quais a proposta desperta interesse entre formuladores de políticas públicas.
Mas também explica por que a discussão sobre fiscalização é tão importante.
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O que aconteceu com o modelo no Colorado?
A discussão não ficou apenas no campo teórico.
O Colorado chegou a analisar uma estrutura semelhante por meio do Projeto de Lei do Senado 26-161, apresentado em abril de 2026. A proposta previa mudanças na fiscalização dos laboratórios e uma reformulação da tributação estadual.
Entre as medidas de imposto sobre cannabis estava a substituição de uma taxa de venda de 15% por um imposto baseado na potência, cobrado por miligrama de THC. O texto também previa mudanças na tributação do comércio atacadista.
O projeto, entretanto, encontrou resistência.
Fabricantes de concentrados argumentaram que a nova estrutura poderia comprometer suas margens de lucro. Grupos ligados à segurança pública defenderam, por outro lado, limites de potência.
A associação comercial do setor se posicionou contra a proposta, enquanto o governador do Colorado, Jared Polis, alertou para possíveis efeitos de uma regulamentação excessiva.
Em 28 de abril, a Comissão de Finanças do Senado estadual votou 8 a 0 pelo arquivamento por tempo indeterminado.
O episódio mostra que transformar potência em unidade tributária não é apenas uma questão matemática.
É também uma decisão política, econômica e regulatória.
Laboratórios também enfrentam desafios
Se o imposto depende da potência, os laboratórios passam a ocupar um lugar ainda mais importante na cadeia.
A própria Forbes relatou que uma experiência conduzida pela fabricante de comestíveis Ripple encontrou diferenças de até 38% entre resultados apresentados por laboratórios licenciados do Colorado para amostras idênticas.
Em uma das comparações, a mesma amostra de flor recebeu resultados entre 15,8% e 22,8% de THC.
Isso significa que não basta definir uma taxa por miligrama.
Também é preciso estabelecer quem mede, como mede, com qual método e dentro de qual margem de erro.
O estudo publicado na Scientific Reports reforça essa necessidade ao defender verificações independentes e cegas dos rótulos e procedimentos de testagem.
A Califórnia, por exemplo, já adotou medidas contra laboratórios. Desde dezembro de 2023, o Departamento de Controle de Cannabis do estado cassou licenças de quatro estabelecimentos em casos relacionados à inflação dos índices de potência, segundo documentos obtidos pelo MJBizDaily.
Uma proposta bilionária, mas cheia de incertezas
Apesar do impacto do número de US$ 111,3 bilhões, o próprio Budget Lab faz uma ressalva importante: a projeção possui um grau incomum de incerteza.
Isso acontece porque a cannabis continua ilegal no âmbito federal, enquanto diferentes estados adotam regras próprias.
De acordo com a análise, cerca de 75% do mercado total, estimado em US$ 100 bilhões com base em dados da Whitney Economics, estaria na economia informal.
Quanto dessa atividade migraria para o mercado formal depois de uma eventual legalização federal é uma das variáveis capazes de alterar significativamente a arrecadação.
Além disso, Yale não incluiu na estimativa algumas possíveis fontes adicionais de receita.
Entre elas estão impostos sobre a renda e contribuições previdenciárias decorrentes da formalização da força de trabalho do setor.
Outro ponto é a Seção 280E do código tributário americano. Atualmente, a regra impede empresas envolvidas com determinadas substâncias controladas de deduzirem diversas despesas operacionais. Em um cenário de legalização federal, essa restrição poderia deixar de existir, mas o impacto também não foi incorporado ao cálculo.
O que ainda precisa ser resolvido?
Antes que bilhões possam deixar de ser uma projeção e se transformar em receita, alguns pontos precisam ser respondidos:
- Como garantir a precisão dos testes de THC?
- Qual será a margem de erro aceitável?
- Quem será responsável pela fiscalização?
- Como evitar diferenças entre laboratórios?
- Como a tributação afetará o preço final?
- Quanto do mercado informal migrará para o mercado regulado?
Essas perguntas são especialmente relevantes porque a tributação pode criar novos incentivos econômicos dentro de uma indústria que ainda atravessa um processo de amadurecimento regulatório.
O futuro da tributação da cannabis
A proposta do Budget Lab não significa que os Estados Unidos estejam prestes a implementar esse imposto.
Trata-se de uma simulação econômica baseada em cenários hipotéticos de legalização. O estudo considera uma eventual legalização federal para uso medicinal e adulto e, em um cenário mais amplo, a legalização também nos estados restantes.
Ainda assim, o estudo ajuda a iluminar uma transformação que já acontece diante dos olhos do mundo.
A cannabis deixou de ser discutida apenas sob a perspectiva da saúde, da segurança pública ou da legislação. Cada vez mais, também aparece nas conversas sobre arrecadação, empregos, indústria, comércio e políticas fiscais.
E talvez seja justamente aí que esteja a parte mais delicada dessa história.
Porque, quando uma planta passa a carregar bilhões em potencial tributário, cada miligrama ganha peso.
No caso do THC, esse peso começa literalmente no rótulo.
Fontes e referências
- The Budget Lab at Yale University. Federal tax implications of legalizing marijuana. Publicado em 17 de agosto de 2026 e atualizado em 18 de agosto de 2026.
- Forbes Brasil. Javier Hasse. Imposto Sobre Cannabis Pode Gerar US$ 111,3 Bilhões nos EUA. Publicado em 24 de agosto de 2026.
- University of Colorado Boulder. Can cannabis labels be trusted? Study shows it depends on what you're buying. 2025.