Maternidade psicodélica: Amanda, ancestralidade e futuro
De Garanhus para o mundo, Amanda Pietra debate a maternidade psicodélica e a força feminina, e se une ao coletivo Hijas del Sur para live ao vivo. Confira.

Há mulheres que chegam para ocupar um espaço. E há aquelas que, ao chegar, começam a abrir caminhos. Amanda Pietra parece pertencer ao segundo grupo, principalmente quando o assunto é maternidade psicodélica.

Aos 29 anos, a pernambucana de Garanhuns carrega uma trajetória que não cabe facilmente em uma única definição. Fotógrafa, mochileira há 7 anos, criadora de conteúdo, mãe em construção e pesquisadora inquieta das chamadas medicinas ancestrais, ela fez da própria busca uma maneira de conversar com milhares de pessoas.
Hoje, seus conteúdos circulam por temas que ainda provocam dúvidas, preconceitos e curiosidade: cannabis, ayahuasca, cogumelos, psicodélicos, espiritualidade, sexualidade feminina e as relações entre corpo, natureza e conhecimento. É tudo isso mesmo!
Maternidade psicodélica na tela do celular e a transformação na vida da nordestina do agreste pernambucano
Foi assim que vídeos com perguntas como “O que significa ser uma mãe psicodélica?” e conteúdos como “Curiosidades sobre a erva” encontraram espaço nas redes e ajudaram Amanda a construir uma comunidade que já reúne mais de 90 mil seguidores em seus dois perfis. Ela tem outro caso perca um.
Mas talvez a história mais interessante não esteja nos números, mas sim, no caminho que veio antes deles.
Hoje, vivendo na França e grávida de oito meses, ela atravessa uma nova experiência: a maternidade. Mas não qualquer maternidade. Em suas redes, ela vem falando sobre o que chama de maternidade psicodélica, conceito que reúne suas experiências, estudos e as perguntas que surgem diante da chegada de um novo ser.
Neste artigo você vai ver:
- O significado da maternidade psicodélica
- A transição da fotografia para os conteúdos sobre cannabis medicinal
- A simplificação dos psicodélicos e plantas medicinais
- A relação entre cannabis, psicodélicos e o pertencimento
- O mercado do óleo de cannabis e a mercantilização ancestral
- Tecnologia, ancestralidade e o futuro dos saberes
- Retornos, raízes e a força feminina nas plantas
Identidade nordestina, o Brasil como Jardim do Éden e a roda de conversa
O que significa a junção maternidade psicodélica?
“Quando eu ouvi falar sobre isso, a primeira coisa que pensei foi: mãe e psicodelia são duas palavras muito delicadas”, disse exclusivamente ao Sechat ao explicar o significado de maternidade psicodélica, expressão que ganhou espaço em seus conteúdos e que, para ela, nasceu justamente do encontro entre dois universos cercados de julgamentos.
De um lado, os psicodélicos, que ainda carregam um tanto de preconceitos e falta de informação. Do outro, a figura da mãe, um arquétipo que Amanda considera “muito cristalizado” e “engessado”.
Durante a gestação, ela percebeu que o corpo da mulher deixa de ser visto como exclusivamente seu. “As pessoas tocam sua barriga, dizem o que você tem ou não que fazer. O seu corpo deixa de ser seu”, afirmou.
A maternidade como complemento de um estudo interno e que faça exercer o dom natural da vida

Para Amanda, juntar essas duas palavras, maternidade psicodélica, é justamente uma maneira de questionar essas ideias prontas. Ela não queria que a gravidez significasse abrir mão da mulher que existia antes dela.
“Eu acho que é sobre a gente entender que a mãe não deixa de ser mulher. Tudo que eu sou, tudo que eu vivi, tudo que existe anteriormente ao título de mãe vai continuar existindo”, reforçou.
É nesse ponto que sua experiência pessoal se transforma em uma discussão maior. Para ela, ser a maternidade psicodélica significa:
Manter a autonomia: reconhecer que uma mulher continua tendo história, espiritualidade, desejos, conhecimentos e escolhas depois que se torna mãe.
Integrar dimensões: entender que todas essas vivências anteriores continuam participando ativamente da construção da maternidade.
Superar o preconceito: não se trata simplesmente de associar a maternidade psicodélica ao consumo de substâncias, mas de resgatar o direito de existir por inteiro.
Maternidade psicodélica e as lacunas do preconceito
Ela acredita que o debate sobre maternidade, gestação, puerpério e psicodélicos ainda é atravessado por lacunas de conhecimento e que os relatos de mulheres podem ajudar a formular novas perguntas.
“Eu acho que é sobre isso também, assim, que tenho visto nos comentários do meu último vídeo: são relatos de mães”, apontou.
Ela conhece mulheres que viveram experiências relacionadas ao Daime (doutrina a qual é fardada) durante a maternidade e crianças que hoje são adultas.
Para Amanda, essas histórias não substituem a ciência, mas podem ajudar a ampliar o diálogo. A proposta é sair do “não pode” e chegar ao “como funciona?”.
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Como uma fotógrafa virou criadora de conteúdo sobre maternidade psicodélica e medicinas ancestrais?

Antes dos vídeos sobre maternidade psicodélica, havia a fotografia. Amanda já registrava histórias e desenvolvia trabalhos relacionados a mulheres e rituais. Um deles, “Elas em Elos”, chegou a ser publicado pelo El País. Foi a partir desses encontros que a câmera começou a ganhar outra função.
Em uma parceria com a marca voltada ao bem-estar feminino XapaXana, Amanda passou a falar abertamente sobre o uso da cannabis medicinal, a sexualidade feminina e suas próprias experiências com diferentes medicinas da terra.
Depois vieram as viagens:
Percursos: esteve em países como: Peru, Uruguai, Europa e comunidades indígenas.
Vivências: encontros marcantes com mulheres e tradições locais.
Linguagem: registro direto daquilo que estava vivendo e tentando compreender.
O conteúdo surgiu como extensão dessa busca. “Aprender para ensinar virou, na prática, o meu método de trabalho para conectar pessoas”, revelou.
Amanda pesquisa, conversa, observa e depois tenta traduzir tudo isso para uma linguagem simples e acessível na tela do celular.
Por que falar sobre psicodélicos de um jeito simples?
Porque, para Amanda, informação também pode ser uma forma de abrir portas. Ela conta que começou a produzir vídeos a partir das próprias inquietações: gestação, espiritualidade, experiências pessoais e o preconceito que ainda existe em torno das substâncias psicodélicas.
Seu objetivo é colocar diferentes formas de conhecimento na mesma conversa:
A experiência vivida: o sentir individual e o relato em primeira pessoa.
Os estudos científicos: evidências e pesquisas que embasam o tema.
Os conhecimentos ancestrais: a sabedoria dos povos tradicionais.
A internet como conhecimento empírico do transformar social

A criadora de conteúdo sobre maternidade psicodélica procura simplificar conceitos científicos sem transformar assuntos complexos em respostas prontas.
É essa combinação que aparece nos conteúdos que ganharam repercussão nas redes.
A pergunta deixa de ser apenas “o que é essa substância?” e passa a ser: o que a história, a cultura e a relação com a natureza também podem ensinar sobre ela?
Amanda explica que cada vídeo nasce de uma inquietação pessoal e do desejo de estabelecer um diálogo entre sua experiência e aquilo que a ciência já conseguiu investigar.
O que a cannabis e os psicodélicos têm a ensinar sobre pertencimento?
Essa talvez seja uma das perguntas mais presentes na fala de Amanda. Para ela, uma das maiores questões contemporâneas está na sensação de que o ser humano se afastou da natureza. Em sua visão, determinadas experiências podem funcionar como lembretes de pertencimento.
Não se trata, em sua narrativa, apenas de consumir uma substância ou desmistificar o termo maternidade psicodélica. É compreender o contexto, a comunidade, o ritual e o significado que determinada experiência possui para diferentes povos.
Durante suas viagens, Amanda conheceu comunidades em que essas práticas estavam integradas ao cotidiano:
Casas, dietas, músicas, danças e rituais faziam parte de uma experiência coletiva.
O saber não era desassociado do dia a dia nem do convívio social.
“Existe uma diferença gigante entre compreender uma planta viva dentro de uma cultura inteira e reduzi-la apenas a uma molécula isolada em um laboratório”, comentou ao questionar a transformação dessas práticas em produtos comerciais descontextualizados.
O que acontece quando as medicinas ancestrais e o óleo de cannabis viram produtos?
Em nossa entrevista, Amanda questiona o que chama de “embranquecimento das medicinas".
Ela observa que algumas substâncias historicamente associadas à marginalização passam a receber uma nova imagem quando chegam a outros espaços sociais.
Na visão dela, a regulamentação do óleo de cannabis e o desenvolvimento desse mercado são exemplos claros dessa mudança de linguagem e de percepção. O mesmo, acredita, pode acontecer com os psicodélicos.
"Uma experiência tradicional, comunitária e ancestral pode ganhar uma embalagem sofisticada, um novo vocabulário e um preço inacessível para grande parte da população. Nós precisamos nos perguntar continuamente: quem tem acesso ao conhecimento e ao tratamento quando a medicina tradicional vira mercado?”, indagou.
Para Amanda, esse processo de mercantilização desmedida corre o risco de afastar as plantas de suas origens e dos povos que preservaram esses conhecimentos por séculos.
O futuro da maternidade psicodélica precisa ser tecnológico?
“Não necessariamente. Durante a gestação, passei a reparar como o excesso de tecnologia pode, em certas situações, afastar o nascimento da sua dimensão mais natural e instintiva”, refletiu ao comparar a discussão sobre psicodélicos com a experiência do parto.
Essa percepção a fez pensar também sobre as medicinas ancestrais. Em sua visão, uma cerimônia de ayahuasca dentro de uma comunidade não representa simplesmente a ingestão de uma substância. Existe uma história, uma cultura, uma ritualística e uma forma coletiva de interpretar aquela experiência.
É nesse ponto que Amanda defende a importância de olhar para trás antes de definir o futuro, principalmente se tratando da maternidade psicodélica. Não para rejeitar a ciência, mas para não esquecer os conhecimentos que existiam antes dela chegar.
Por que a ancestralidade e a força feminina importam tanto para Amanda Pietra?
Talvez porque sua própria história seja feita de retornos. Durante sete anos viajando, Amanda conta que conheceu diferentes culturas e aprendeu idiomas: português, inglês, espanhol, algum alemão e agora francês. Cada língua, para ela, representa também uma possibilidade de acessar outras pessoas e outras formas de conhecimento.
Mas quanto mais distante ela foi, mais próxima parece ter ficado das próprias raízes.
No Peru, encontrou referências latino-americanas.
Na Europa, percebeu o quanto determinadas práticas que eram apresentadas como novidade tinham origem justamente em povos da América Latina.
Viajar para longe, nesse sentido, acabou sendo também uma forma de voltar para casa.
E onde entra a força feminina ou a maternidade psicodélica nessa história? Na própria planta.
Amanda estabelece uma relação simbólica entre as plantas e as mulheres:
Corpos e saberes: os preconceitos construídos sobre determinadas plantas guardam semelhanças com aqueles historicamente colocados sobre os corpos femininos — regulados, classificados, controlados e afastados dos próprios conhecimentos.
A família dos arquétipos: “Para mim, a ayahuasca é a avó, o São Pedro e o tabaco são os avôs, o rapé é o pai, os cogumelos são as crianças e a Santa Maria [cannabis] ocupa o lugar acolhedor de mãe”, reflete.
Mais do que uma classificação, é uma maneira de organizar sua própria relação espiritual com essas experiências. Uma família simbólica à qual ela retorna quando precisa compreender algo sobre si.
O que significa ser uma mulher nordestina, e qual é o futuro da maternidade psicodélica?

Para Amanda, identidades não precisam ser separadas. “Ser pernambucana, nordestina, mulher, viajante, psicodélica e agora mãe faz parte do mesmo e único processo de existência”.
Ela conta que já teve sua inteligência questionada por ser nordestina e mulher.
Na França, também passou a perceber como ser brasileira e migrante pode colocar o corpo em outro lugar dentro da sociedade.
A experiência reforçou uma percepção: "a luta também passa pelo direito de existir sem precisar esconder as próprias origens, crenças e experiências".
O Brasil como um “Jardim do Éden”
É assim que ela enxerga, simbolicamente, a mistura brasileira.
Amanda fala de um país formado pelo encontro, e também pela violência, de diferentes povos, culturas e tradições.
"Indígenas, africanos, europeus, asiáticos, árabes e tantos outros grupos ajudaram a formar esse território tão plural".
Para ela, essa mistura ajuda a explicar por que o Brasil desenvolveu relações tão particulares com espiritualidade, mediunidade, natureza e ayahuasca.
"O Brasil seria uma espécie de Jardim do Éden: um lugar onde diferentes culturas foram colocadas lado a lado e criaram novas formas de existir. É também por isso que, quando sai do país, compreendi melhor quem sou. A distância funciona como espelho", pontua a criadora da maternidade psicodélica.
O que a maternidade psicodélica ensina sobre feminilidade?
Talvez a principal resposta esteja na própria Amanda. Ela não fala de feminilidade como algo delicado, pronto ou obediente.
Sua trajetória apresenta uma mulher que viaja, questiona padrões, fala sobre sexualidade, pesquisa temas controversos, atravessa culturas e agora se prepara para parir longe do país onde nasceu.
Existe força nessa escolha, mas existe também acolhimento dentro da maternidade psicodélica explorada por Amanda. Quando fala das plantas como arquétipos familiares, fala também sobre encontrar lugares internos de pertencimento.
E talvez essa seja uma das imagens mais bonitas da sua narrativa: a mulher que passou anos viajando pelo mundo para, aos poucos, encontrar dentro de si os lugares para onde pode voltar.
Convite especial: roda de conversa com o coletivo Hijas del Sur
A maternidade psicodélica não encerra a conversa. Pelo contrário: abre um espaço de escuta ainda mais bonito e necessário.
Para aprofundar esse debate sobre o "amor que cultiva e transforma", o coletivo Hijas del Sur realiza uma live imperdível e intimista recebendo Amanda Pietra.
A roda de conversa será no próximo dia 28 de agosto, online no Instagram do coletivo e abordará os caminhos da maternidade psicodélica, reunindo mulheres, pesquisadoras e entusiastas para compartilhar saberes, acolhimento e reflexões sobre a força feminina no universo da cannabis e das medicinas ancestrais.
Agora, com uma nova vida a caminho e uma comunidade cada vez maior acompanhando seus passos, Amanda compartilha, quase que didaticamente sobre qualquer assunto como a maternidade psicodélica e reafirma o compremisso de aprender para ensinar.
Talvez seja essa a sua maior potência. Não ter todas as respostas, mas continuar fazendo perguntas e ter coragem de dividir as descobertas pelo caminho.
