Mercado de cannabis na Alemanha é o maior da Europa
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O mercado de cannabis na Alemanha tornou-se o maior entre os regulamentados da Europa após a reforma aprovada em 2024. O avanço foi impulsionado principalmente pela cannabis medicinal, cujas importações passaram de 8.143 quilos no primeiro trimestre de 2024 para 50.539 quilos no mesmo período de 2026.
Os números foram divulgados em reportagem do Financial Times, publicada no sábado (22). O crescimento ocorre em meio a uma disputa política sobre os efeitos da reforma e a propostas para restringir o acesso remoto à cannabis prescrita.
Reforma permitiu posse e cultivo doméstico
A legislação alemã entrou em vigor em abril de 2024 e retirou a cannabis da lista nacional de substâncias entorpecentes. A mudança permitiu que adultos mantivessem até 50 gramas em casa, portassem até 25 gramas em espaços públicos e cultivassem até três plantas para consumo próprio.
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A partir de julho daquele ano, associações sem fins lucrativos também puderam cultivar e fornecer cannabis aos associados, dentro dos limites estabelecidos pela legislação. A Alemanha, no entanto, não autorizou um mercado nacional de lojas comerciais destinadas ao uso adulto.
A reforma também modificou o mercado de cannabis na Alemanha, especialmente o segmento medicinal. A cannabis deixou de ser tratada como narcótico, simplificando etapas da prescrição e da dispensação em farmácias.
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Mercado de cannabis na Alemanha movimentou quase US$ 1 bilhão
Uma pesquisa conduzida pela Universidade de Hamburgo estimou que mais de 200 toneladas de cannabis medicinal foram disponibilizadas na Alemanha em 2025. Desse total, aproximadamente 2,6 toneladas foram produzidas no próprio país.
Segundo a empresa de inteligência de mercado Prohibition Partners, citada pelo FT, o setor alemão movimentou US$ 997 milhões em 2025.
Estudo publicado em 2026 pelo pesquisador Jakob Manthey e colaboradores classifica a Alemanha como o maior mercado comercial legal de cannabis da Europa. Os pesquisadores relacionam a expansão à retirada da cannabis medicinal da legislação de narcóticos e ao crescimento das prescrições realizadas por telemedicina.
A avaliação oficial da reforma está sendo conduzida pelo projeto EKOCAN, da Universidade de Hamburgo. O segundo relatório intermediário foi apresentado em abril de 2026, e a análise final está prevista para 2028.
Governo propõe restrições à cannabis medicinal
O crescimento do segmento levou o Ministério da Saúde a propor mudanças nas regras de prescrição e fornecimento. O projeto busca restringir prescrições realizadas exclusivamente por plataformas digitais e limitar o envio de flores de cannabis medicinal pelo correio.
O objetivo declarado pelo governo é impedir que o sistema médico seja utilizado para obtenção de cannabis sem acompanhamento clínico adequado. As medidas ainda dependem da tramitação parlamentar e enfrentam resistência do Partido Social-Democrata, o SPD, integrante da coalizão de governo.
A proposta deverá ser discutida pelo Parlamento alemão durante o outono europeu.
Conservadores criticam reforma
Integrantes da União Democrata-Cristã, partido do chanceler Friedrich Merz, e da União Social-Cristã da Baviera defendem regras mais restritivas.
O ministro do Interior, Alexander Dobrindt, classificou a Lei da Cannabis como “uma verdadeira lei de merda” e afirmou que a reforma prejudicou ações de prevenção e fiscalização.
Karin Prien, ministra da Família, defendeu o fortalecimento de programas voltados a crianças e adolescentes. Segundo ela, a intervenção precoce continua necessária diante dos possíveis riscos associados ao consumo de cannabis por pessoas em desenvolvimento.
Os posicionamentos políticos, porém, não coincidem integralmente com os resultados preliminares da avaliação acadêmica.
Consumo permaneceu estável
Jakob Manthey, coordenador científico do projeto EKOCAN, afirmou ao FT que “o mercado ilegal está encolhendo, embora o consumo geral quase não tenha mudado”.
Os relatórios intermediários não identificaram, até o momento, um aumento do consumo que possa ser diretamente atribuído à reforma. Dados avaliados pelos pesquisadores também apontam queda do consumo entre jovens, tendência observada desde antes da entrada em vigor da legislação.
Os crimes relacionados à cannabis diminuíram cerca de dois terços após a mudança legal. Parte dessa redução decorre do fato de que condutas anteriormente classificadas como crimes, como a posse de determinadas quantidades para uso pessoal, deixaram de gerar processos.
A avaliação também registrou aumento das hospitalizações associadas à cannabis, relacionado pelos pesquisadores à disponibilidade de produtos com concentrações mais elevadas de THC. Manthey defende que os teores do canabinoide sejam informados de maneira clara e compatíveis com as condições clínicas tratadas.
“Os produtores exploram lacunas regulatórias e comercializam produtos que não são baseados em evidências”, afirmou o pesquisador, em declaração traduzida do inglês.
Fontes informais ainda abastecem consumidores
Apesar da abertura legal, parte significativa dos consumidores continua recorrendo a fontes não comerciais. Levantamento realizado no segundo semestre de 2025 apontou que 35,2% obtinham cannabis por meio de contatos sociais, modalidade que inclui o recebimento ou a compra entre conhecidos.
O cultivo doméstico aparecia em segundo lugar, com 21%. As associações autorizadas ainda representavam uma parcela reduzida do fornecimento, devido ao número limitado de organizações e às exigências administrativas para funcionamento.
Um consumidor de 22 anos ouvido pelo Financial Times afirmou preferir a cannabis adquirida em farmácias porque consegue verificar o teor de THC. “Não acho que seja possível fazer isso na dark web. Eles podem dizer que é uma coisa, mas não ser”, declarou.
Cocaína e crack também aparecem no debate
Análises de águas residuais indicaram que os vestígios de cocaína e crack quase dobraram na Alemanha nos últimos dois anos. O aumento do consumo dessas substâncias, entretanto, começou antes da reforma da cannabis.
Anna Bindler, economista do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica, afirmou ao FT que os dados não permitem relacionar a mudança legal ao crescimento do consumo de cocaína, crack ou metanfetamina.
“Se o desejo político é reduzir o consumo de cannabis, talvez para minimizar os riscos à saúde, uma nova proibição ou a retirada da reforma não parece ser o instrumento mais eficaz”, disse Bindler. Para a pesquisadora, as autoridades deveriam ampliar as políticas de educação e prevenção.
Reportagem do Portal Sechat elaborada a partir de informações publicadas pelo Financial Times e de dados do projeto EKOCAN. As declarações originalmente concedidas em inglês foram traduzidas para o português. Mais detalhes sobre o Mercado de cannabis na Alemanha aqui.
