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O que você tem na cozinha também está na cannabis? Conheça o beta-cariofileno

Presente na pimenta-do-reino, cravo, orégano e canela, o beta-cariofileno é um terpeno estudado por sua interação com o sistema endocanabinoide.

O que você tem na cozinha também está na cannabis? Conheça o beta-cariofileno
Imagem: IA

Pimenta-do-reino, cravo, orégano, canela e cannabis têm algo em comum que não aparece necessariamente no aroma ou no sabor: algumas dessas plantas produzem o beta-cariofileno, um composto natural pertencente à classe dos sesquiterpenos.

Na cannabis, ele faz parte do conjunto de compostos aromáticos produzidos pela planta. Na cozinha, pode estar presente em temperos e especiarias utilizados diariamente.

A semelhança, porém, vai além da presença do mesmo composto. O beta-cariofileno chamou a atenção da ciência porque apresenta uma característica incomum entre os terpenos: ele pode interagir diretamente com o receptor CB2, um dos principais receptores do sistema endocanabinoide.

É justamente essa propriedade que colocou o composto no radar das pesquisas sobre cannabis e inflamação, dor e outras respostas fisiológicas.

Da cozinha para a pesquisa sobre cannabis

Os terpenos são uma grande família de moléculas produzidas por plantas e outros organismos. Eles participam da formação de aromas e sabores característicos de diversas espécies.

O beta-cariofileno é responsável por parte das notas aromáticas presentes, por exemplo, na pimenta-do-reino e no cravo. Também pode ser encontrado em outras plantas utilizadas como condimentos e ervas aromáticas.

Na cannabis, sua concentração varia de acordo com a genética da planta, condições de cultivo, processamento e outros fatores. Por isso, nem toda variedade apresenta o mesmo perfil de terpenos.

Essa diversidade é um dos motivos pelos quais pesquisadores analisam o chamado perfil químico da planta, em vez de considerar a cannabis como uma composição única e uniforme.

O que torna o beta-cariofileno diferente?

Uma das características mais interessantes do beta-cariofileno é sua capacidade de atuar como agonista seletivo do receptor CB2.

O receptor CB2 integra o sistema endocanabinoide, uma rede de sinalização presente no organismo que participa da regulação de diferentes processos fisiológicos.

Enquanto o receptor CB1 é encontrado em grande quantidade no sistema nervoso central, o CB2 está particularmente associado a células e tecidos relacionados ao sistema imunológico, embora sua distribuição seja mais ampla.

Em 2008, um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences mostrou que o beta-cariofileno poderia atuar seletivamente sobre o CB2. A descoberta ajudou a explicar por que um composto classificado quimicamente como terpeno poderia apresentar atividade relacionada ao sistema endocanabinoide.

Mas comer pimenta-do-reino é a mesma coisa que usar cannabis?

Não.

Essa é uma distinção importante.

O fato de o beta-cariofileno estar presente tanto em especiarias quanto na cannabis não significa que consumir pimenta, cravo ou orégano produza os mesmos efeitos associados ao uso de cannabis.

A quantidade do composto, a forma de consumo, sua absorção pelo organismo, a concentração alcançada nos tecidos e a presença de outras substâncias são diferentes.

Além disso, a cannabis contém uma combinação muito mais ampla de canabinoides, terpenos e outros componentes.

Portanto, compartilhar uma molécula não significa compartilhar o mesmo efeito farmacológico.

Um terpeno que também conversa com o sistema endocanabinoide

A descoberta do potencial envolvimento do beta-cariofileno com o receptor CB2 abriu uma linha de investigação particularmente interessante.

O composto passou a ser estudado em modelos experimentais relacionados a processos inflamatórios, dor, estresse oxidativo e alterações metabólicas, entre outros temas.

Grande parte dessas evidências, entretanto, ainda vem de estudos pré-clínicos, realizados em células ou modelos animais. Isso significa que os resultados não podem ser automaticamente transformados em recomendações para tratamento em seres humanos.

A pesquisa continua justamente para determinar em quais condições o beta-cariofileno poderia apresentar relevância terapêutica, em quais concentrações e por quais mecanismos.

A cannabis e a cozinha compartilham mais química do que parece

A presença do beta-cariofileno em alimentos e na cannabis também ajuda a ilustrar uma característica importante da química das plantas: as mesmas moléculas podem aparecer em espécies completamente diferentes.

Um aroma familiar da cozinha pode, portanto, ser resultado de uma molécula que também participa do perfil químico da cannabis.

Isso não torna a pimenta-do-reino, o cravo ou a canela "canábicos". O que existe é uma coincidência química interessante — e, no caso do beta-cariofileno, cientificamente relevante.

Da próxima vez que abrir o pote de pimenta-do-reino, talvez valha lembrar: parte da química que dá personalidade ao tempero também está presente na cannabis.

E é justamente essa conexão entre plantas aparentemente tão diferentes que transforma uma molécula comum da cozinha em objeto de investigação científica.

Referência científica central para a matéria: Gertsch et al., 2008, Beta-caryophyllene is a dietary cannabinoid, publicado na PNAS. O estudo é a base para o gancho sobre a interação do beta-cariofileno com o receptor CB2.