O vereador mais jovem de Campo Grande quer ampliar o acesso à cannabis medicinal pelo SUS
Em entrevista ao Sechat, o vereador mais jovem da Câmara Municipal de Campo Grande defende a cannabis medicinal como política pública de saúde, fala sobre a audiência pública realizada na Casa de Leis e explica por que acredita que o acesso ao tratamento deve deixar de depender da condição financeira das famílias

Em um cenário político frequentemente marcado por disputas ideológicas, há momentos em que a realidade das famílias fala mais alto. É nesse espaço, entre a ciência, o cuidado e o direito à saúde, que o vereador Jean Ferreira (PT), o mais jovem da Câmara Municipal de Campo Grande/MS, escolheu atuar.
Defensor da ampliação do acesso à cannabis medicinal pelo Sistema Único de Saúde (SUS), ele tem liderado um debate que cresce em Mato Grosso do Sul e ganha força a partir das histórias de pacientes que encontraram na planta uma nova possibilidade de qualidade de vida.
Recentemente, Jean promoveu uma audiência pública para discutir a criação de políticas municipais voltadas ao acesso gratuito aos medicamentos à base de cannabis. O encontro reuniu profissionais da saúde, pesquisadores, associações de pacientes e familiares, reforçando a necessidade de transformar evidências científicas em políticas públicas. A iniciativa também acompanha a apresentação de um projeto de lei que propõe a criação do Programa Municipal de Cannabis Medicinal em Campo Grande.
"A política precisa olhar para onde as pessoas estão sofrendo"
Em entrevista ao Portal Sechat, Jean Ferreira conta que sua aproximação com a pauta nasceu do contato direto com famílias que enfrentam uma rotina de judicializações, campanhas de arrecadação e altos custos para manter tratamentos prescritos por médicos.
"A política precisa olhar para onde as pessoas estão sofrendo. Quando comecei a ouvir famílias que precisavam recorrer à Justiça ou fazer vaquinhas para garantir um tratamento que melhora a qualidade de vida de crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas, entendi que essa não era uma pauta sobre ideologia, mas sobre saúde pública", afirma.

Essa percepção foi reforçada durante a audiência pública realizada na Câmara. Entre os diversos depoimentos apresentados, um em especial marcou o parlamentar: o de Gerson Montenegro, paciente com epilepsia e dores crônicas que resumiu sua experiência em uma frase simples e contundente: "Se não fosse o remédio, eu nem estaria conversando com você." O relato emocionou os participantes e simbolizou o propósito do encontro: colocar o paciente no centro do debate.
Para Jean, a principal conclusão da audiência é clara: ninguém deveria depender da própria condição financeira para ter acesso a um tratamento indicado por um profissional de saúde. Agora, segundo ele, o desafio é ampliar o diálogo com a Prefeitura, especialistas, associações e sociedade civil para construir uma política pública sólida, baseada em evidências científicas e no direito constitucional à saúde.
Informação, ciência e políticas públicas
Embora Mato Grosso do Sul seja tradicionalmente visto como um estado conservador, Jean acredita que o debate sobre cannabis medicinal já ultrapassou barreiras ideológicas.
"Quando uma mãe fala do filho que voltou a ter qualidade de vida ou um paciente relata a redução das crises e das dores, a discussão muda completamente de perspectiva. Não estamos falando sobre uso recreativo. Estamos falando de medicamentos autorizados pela Anvisa e prescritos por profissionais habilitados. O foco precisa ser sempre o paciente", pontua.
Para o vereador, combater a desinformação continua sendo um dos maiores desafios. A estratégia, segundo ele, passa por aproximar a população da ciência. "A melhor forma de combater o preconceito é com informação de qualidade. Precisamos ouvir médicos, pesquisadores, universidades e, principalmente, os pacientes. Quando as pessoas conhecem as histórias reais e entendem como funciona o tratamento, muitos preconceitos caem por terra", explica.
Outro ponto que o vereador destacou está na ausência de políticas públicas estruturadas dentro da pauta da cannabis enquanto medicina e, principalmente, no acesso a ela. "Hoje muitas famílias dependem de ações judiciais ou arcam com custos muito elevados. Nosso projeto busca justamente enfrentar esse problema, criando um programa municipal que permita o fornecimento gratuito dos medicamentos à base de cannabis mediante prescrição médica e dentro das normas da Anvisa", completa.
Jean também destaca o papel desempenhado pelas associações de pacientes, especialmente a Associação Divina Flor, que há anos atua acolhendo famílias, promovendo informação e ampliando o acesso ao tratamento. Para ele, essas organizações foram protagonistas antes mesmo de o poder público iniciar esse debate institucional.
O parlamentar enxerga ainda uma oportunidade estratégica para Campo Grande avançar além do acesso aos medicamentos. A recente parceria entre a Fiocruz e a Associação Divina Flor, voltada ao incentivo à pesquisa científica sobre cannabis medicinal na região, representa, em sua avaliação, um passo importante para consolidar o município como referência nacional em pesquisa, formação de profissionais e inovação em saúde.
Ao olhar para o futuro, Jean resume o que espera construir: uma cidade onde nenhuma família precise escolher entre comprar um medicamento ou pagar as contas do mês; uma rede pública preparada, profissionais capacitados e políticas fundamentadas na ciência, garantindo um cuidado mais digno, seguro e acessível para quem precisa.
